Saltar para o conteúdo
Quotidianos

Construtores de Abril - O 13º MÊSPor Armando Teixeira
Barreiro

Nas grandes movimentações do início da década de 60 (1960 e 1962), com a recolha de milhares de assinaturas de apoio num curtíssimo espaço de tempo, ao lado da exigência do aumento do salário diário, estava o direito às férias pagas integralmente (o chamado 13º mês).

3 min de leitura
Construtores de Abril - O 13º MÊS Por Armando Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

Nos anos 50 do século XX, em várias movimentações reivindicativas na CUF do Barreiro, sobretudo das operárias têxteis e dos metalúrgicos, foi colocado juntamente com o aumento de salários – a questão central – o direito a um período de férias pagas por cada ano de trabalho efectivo.
Os próprios Sindicatos Nacionais Corporativos, falavam de forma envergonhada do direito às férias remuneradas já conquistado em toda a Europa. A administração da empresa reconheceu esse direito embora com várias restrições para os operários, a maioria dos trabalhadores.
Nas grandes movimentações do início da década de 60 (1960 e 1962), com a recolha de milhares de assinaturas de apoio num curtíssimo espaço de tempo, ao lado da exigência do aumento do salário diário, estava o direito às férias pagas integralmente (o chamado 13º mês).
O patronato nacional, percebendo o peso da reivindicação com o exemplo que vinha da Europa, que sofrera a terrível destruição da guerra e se levantava sob a acção das massas progressistas e vitoriosas, ia cedendo aqui e acolá, sob a pressão dos trabalhadores, em empresas mais significativas.
Na Companhia União Fabril, para “abafar” e “disciplinar” o protesto, foi criada em 1962, por iniciativa patronal, a Comissão Interna da Empresa (CIE). Presidia a “velha” filosofia da “conciliação de interesses entre patrões e empregados”, tão querida do Estado Novo, juntamente com uma adaptação da prática da “co-gestão”, recente no ideário capitalista dos países desenvolvidos.
Os trabalhadores percebendo que não deviam participar na gestão da sua exploração, elegem operários honrados para os representar junto dos patrões.
Na reunião mensal da CIE, sempre muito formal, Palma levantou a questão da discriminação dos operários na atribuição do Subsídio de Férias, dado que, por escalões de antiguidade, recebiam metade do valor remuneratório correspondente ao tempo alcançado (aproximadamente uma semana por cada 10 anos de trabalho).
O patrão Jorge, abespinhado, contrapõe com o esforço assinalável e de vanguarda da empresa, na atribuição do subsídio a toda a gente, “…que mais queriam!?”.
- Desculpe, senhor doutor, eu explico melhor. Tenho duas semanas de férias, mas só posso ficar uma semana na minha terra, porque só me abonam uma semana! E quem diz duas, diz quatro semanas, aos operários só pagam duas! Percebe agora porque queremos o subsídio de férias integral!?
Acabou ali a participação na reunião do administrador delegado. Lembrou-se de uma coisa “urgente” e saiu agastado.
A recomendação/exigência foi atendida. Outras seriam colocadas no longo caminho até à revolução libertadora, algumas só arrancadas com lutas muito duras, a maioria só conquistadas com o 25 de Abril.

Armando Teixeira

PS. Texto retirado do livro: “Antigamente da Rua da Bela Vista Viam-se os Barcos da Muleta”, em publicação.

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção