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Quotidianos

VIVA O 1º DE MAIO!Por Armando Teixeira
Barreiro

Empurravam a revolta para os tempos seguintes e semeavam mais revoltosos, até à revolta final, num Abril ainda distante mas inexorável, conquistado pela luta : Viva o 1º de Maio!

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VIVA O 1º DE MAIO! Por Armando Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

“ Às cinco horas no Rossio!”.
O encontro clandestino no Bairro das Colónias correu bem, antecipando a ansiedade de uma jornada iniciática. Seria a primeira participação numa luta de rua, nos finais da década de 60.
Gostava daquela zona residencial para os encontros. Os residentes tinham um ar cordial nas idas e vindas do Mercado de Arroios, sentia-se entre gente amigável. Silva Pais, o director da PIDE, morava na zona, bem vigiada. “Estamos bem guardados!” – dizia o “controleiro”, o bigode ruço disfarçado, a saltar num sorriso conspirativo.
“Frente à pastelaria Suíça!” – era o ponto de concentração, onde um número desusado de pessoas fazia bicha para o autocarro. Estranho, ou talvez não, só duas ou três entraram no verde baixinho da Carris, a carreira 12.
Do outro lado da praça D. Pedro IV, ouviram-se gritos indistintos e as primeiras correrias. Um tremendo susto e angústia quando, mesmo ao lado, foi inesperadamente detido o Gorjão. Por um grupo de homens saído do meio do ajuntamento, comandados por um gordo grande, de óculos de aros metálicos:
- É este! É este! Agarrem-no!
“É a PIDE!”. Dispersão pela praça, nova indicação sussurrada: “ Frente à estação do Rossio!”
Passagem estreita, um mar de gente. No dia-a-dia e no circular para voltar a juntar! Uma cara (pouco) conhecida mesmo ao lado, o Saul. Um sorriso, senha transmitida. Um grupo de “psp`s” chega a correr e distribui bastonadas. Baptismo de dor, no ombro uma pancada forte. O outro levou três, menos lesto, mais pesado.
Um grupo numeroso entra na praça e interrompe o trânsito, surdo aos apitos dos sinaleiros: “Liberdade!”, “Abaixo o fascismo!”. De seguida a consigna mais querida e mais repetida: “Abaixo a Guerra Colonial!”, “Abaixo a Guerra Colonial!”.
Junta-se mais malta nova, caras conhecidas, correria para o outro lado, novamente frente à “Suíça”. Somamos as vozes com mais força: “Viva o 1º de Maio!”.
A desgraça surgiu da esquina da “Camisaria Moderna”. Uma companhia de Polícia (ou Guarda?) de Choque a varrer à coronhada tudo o que encontra pela frente. Homens, mulheres, crianças, velhos e novos, os clientes da esplanada, posta de pernas para o ar. Os guardas (ou polícias?) com um ar esgazeado, coronhadas! Olhos esbugalhados e vermelhos, bestas sanguinárias, vozes de comando, “Carrega!”, “Carrega!”. Mais coronhadas!
Gritos! Pânico! Mais gritos lancinantes, inesquecíveis, sangue na calçada portuguesa.
Víamo-los de muito perto. Tão próximo que sentíamos o cheiro do metal das armas. Foi por um triz! Reaprendemos depois melhor esse cheiro na Guerra Colonial.
Empurravam a revolta para os tempos seguintes e semeavam mais revoltosos, até à revolta final, num Abril ainda distante mas inexorável, conquistado pela luta : Viva o 1º de Maio!

PS – Texto extraído do livro, ANTIGAMENTE, DA RUA DA BELA VISTA VIAM-SE OS BARCOS DA MULETA”, em publicação.

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