SINTOMAS DA VERTIGEM: O TERMINAL DE CONTENTORESPor André Carapinha
Barreiro

Por Jornal Rostos
O meu artigo anterior tinha por título “A Decadência do Barreiro e a Vertigem dos Grandes Projectos”, e terminava com uma referência «[a]o projecto do Terminal de Contentores, a nova vertigem em que [os poderes públicos barreirenses] se preparam para lançar a cidade, sem qualquer análise credível sobre os seus custos, benefícios e consequências». Entretanto, passou algum tempo sem que eu, devido a afazeres vários, tenha voltado a escrever para o “Rostos”; o tempo suficiente para que este Terminal de Contentores se tenha tornado uma realidade incontornável. Sim, porque à boa maneira portuguesa, começam agora as “consultas públicas”, as “sessões de esclarecimento”, todas, como é óbvio, na base do facto consumado. Os partidos políticos, o do governo e o do executivo municipal, anunciam já nos seus outdoors a “vitória” para o Barreiro que será a instalação por cá deste equipamento, e reclamam para si a fatia maior das responsabilidades; de facto, faltará apenas o preto no branco, já que Governo, Câmara Municipal, Comissão Europeia e mesmo a Câmara Municipal de Lisboa, pela voz do seu então presidente António Costa, já declararam o seu apoio ao Terminal de Contentores no Barreiro. Entretanto, a Assembleia Municipal do Barreiro aprovou por unanimidade uma moção de apoio à sua instalação (“Visão”. 1 de Abril de 2015). Se prova faltasse, eis como se demonstra a extrema dificuldade em questionar a utilidade ou necessidade desta obra para o Barreiro, já que nenhuma força política quererá destoar na defesa de algo que nos é vendido como “O” projecto estruturante que fará (finalmente) a diferença no desenvolvimento e criação de emprego.
No entanto, esta unanimidade local contrasta com os pareceres, por exemplo, do presidente da Ordem dos Engenheiros ou da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento dos Sistemas Integrados de Transportes; estes especialistas consideram esta obra desnecessária e demasiado cara para o país (Diário Económico, 31 de Março de 2015). E é curioso como, numa altura em que o projecto inicial se situava na Trafaria, onde contou com fortíssima oposição da população local, era o próprio deputado do PCP Bruno Dias que afirmava na Assembleia da República ser este um negócio de «águas turvas e lamacentas», uma «aberração», e suspeitar «que o Executivo quer entregar estas infraestruturas a privados» (TSF, 7 de Março de 2015).
Ora, para além de eu partilhar com o deputado Bruno Dias as mesmas preocupações quanto à entrega deste tipo de infraestruturas a operadores privados (como me parece evidente ir suceder neste caso), e isto independentemente de tal ocorrer no Barreiro ou na Trafaria, como barreirense interessam-me mais outras coisas. Por exemplo, leio no “Correio da Manhã” de 18 de Abril de 2015 que «foi apresentada» a Bruxelas uma candidatura para estudos sobre a localização-Barreiro do Terminal de Contentores; e após extensa pesquisa, não encontro um único estudo sobre este assunto, que nos aponte de forma credível quais os custos e benefícios para a cidade e para o país desta localização. Portanto, a menos que os envolvidos possuam estudos que não tornaram ainda públicos (o que não quero crer, nem poderia aceitar), sou forçado a concluir que esta é uma decisão política, baseada em primeiro lugar na concordância total e acrítica da Câmara Municipal do Barreiro em contraste com a sua congénere de Almada, e, atrevo-me a dizê-lo, da quase totalidade da sua população, em contraste igual com os cidadãos da Trafaria.
Repare-se: eu não tenho qualquer posição de princípio contra o Terminal de Contentores no Barreiro. Espero sinceramente que este facto consumado acabe por se revelar positivo para a cidade, que sirva realmente como um importante polo de desenvolvimento local, e que a relação custo-benefício se revele, afinal, favorável. Acontece que, como barreirense, há diversas coisas que me preocupam: em primeiro lugar, numa cidade fortemente afectada pela crise, em que milhares de nossos concidadãos vão sobrevivendo como podem da apanha de bivalves no rio Tejo, a ausência de qualquer estudo (e aparentemente de qualquer preocupação) sobre o impacto que uma obra desta natureza possa ter na biologia do estuário, e isto quando a prevista dragagem dos lodos submarinos ocorrerá numa área muito sensível ao nível dos sedimentos contaminados por décadas de exploração industrial intensiva; depois, a igualmente aparente indiferença sobre o impacto ambiental da prevista passagem de um número elevado de camiões de mercadorias, diariamente, no Barreiro (qual é esse número, e qual o seu impacto real? Pois, são essas coisas que eu gostava de saber), uma cidade que, nos últimos anos, apostou (de forma correcta, a meu ver) na sua requalificação ambiental; finalmente, e de não menor importância, o comprometimento total de um espaço decisivo para o futuro da cidade, o da antiga Quimiparque, num mega-projecto do qual tenho mais dúvidas que certezas.
Os diversos poderes públicos e os partidos políticos barreirenses parecem convencidos de que os putativos benefícios desta obra superam todas as incertezas possíveis, e isto admitindo que tais incertezas alguma vez lhes surgiram ao espírito. A presidente do Porto de Lisboa, Marina Ferreira, fala em «800 postos de trabalho directos» (Rostos, 15 de Abril de 2015), e este número é música nos ouvidos de toda a gente, apesar de toda a prudência que afirmações deste género nos devem suscitar, até pela história recente desta cidade (vide caso da Embraer). A fixação nesta obra é tal que é suficiente para uma aceitação a priori e um empenhamento total na sua defesa, mesmo antes que sejam estudados seriamente os seus impactos sociais ou ambientais, ou que a utilização destes terrenos seja analisada à luz de diferentes hipóteses estratégicas para o futuro da cidade.
André Carapinha














