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Quotidianos

Passarinhos, pássaros e passarões: aves de cidade, gaios e alterações climáticasPor Rui Lopo
Barreiro

Esta primavera tem sido bastante curiosa para os observadores de aves porque recentemente os fenómenos meteorológicos provocaram ventos de Este que terão desviado da sua rota migratória várias dezenas (apenas os observados) de Facões-de-pés-vermelhos (Falco vespertinus), tendo-se observado a espécie um pouco por todo o lado, inclusive aqui bem perto, no Seixal.

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Passarinhos, pássaros e passarões: aves de cidade, gaios e alterações climáticas Por Rui Lopo Barreiro

Por Jornal Rostos

Um ilustre amigo enviou-me há dias uma mensagem informando-me que uns Gaios (Garrulus glandarius) estariam a nidificar numa árvore da avenida da Alfredo da Silva no Barreiro, em pleno centro da nossa cidade. Dois dias depois, um outro ilustre amigo ligou-me com a mesma informação. Curioso o facto e sem dúvida engraçado, para uma cidade cuja conotação poucas vezes apela a este tipo de registos. Vai-se mudando a imagem, as percepções, factualmente.
Recordo-me que há tempos escrevi sobre esta espécie (em 2012) e sobre a sua ocorrência nos nossos parques e jardins de cidade, particularmente na nossa cidade, locais onde é bastante fácil a sua observação, ou o seu audível gralhar ou grasnar. Tem uma capacidade única de imitar outros cantos, chamamentos de outras espécies, ou os sons mais comuns dos locais onde habita. Eu próprio já fui surpreendido, procurando no céu uma Águia-de-asa-redonda (Buteo buteo), mas não era mais do que um Gaio a imitar o chamamento da referida espécie. Esta fácil audição, é complementada pelas características físicas mais observáveis: pelo uropígio branco, bastante contrastante com a plumagem mais escura e os tons de azul e brancos, que se tornam visíveis quando as abre.

É uma ave bastante sociável, típico dos corvídeos (da família dos corvos), com alguns laivos de esperteza acima da média. Ocorre um pouco por todo o pais, tendo o estatuto de residente e tem uma distribuição rural e cosmopolita.
Esta primavera tem sido bastante curiosa para os observadores de aves porque recentemente os fenómenos meteorológicos provocaram ventos de Este que terão desviado da sua rota migratória várias dezenas (apenas os observados) de Facões-de-pés-vermelhos (Falco vespertinus), tendo-se observado a espécie um pouco por todo o lado, inclusive aqui bem perto, no Seixal. Até este ano, apenas se havia registado menos de uma dezena de indivíduos em todo o país.

Estes fenómenos são cada vez mais frequentes nos padrões de análise e avaliação temporalmente aceitáveis para a ciência e investigação: as chuvas são mais intensas apesar de curtas, as ondas de calor são tendencialmente mais frequentes, as oscilações e amplitudes térmicas são hoje identificadas como sendo uma realidade com que temos de lidar.
Com isto surgem e surgirão espécies com as quais tínhamos pouco contacto (aves, peixes, etc.), as fluorescência de árvores e plantas ocorrerá com outro tipo de intensidade e noutros momentos do ano (ora mais cedo, ora mais tarde, ou até mais do que uma vez no ciclo das estações) provocando-nos imensas dificuldades de adaptação a estas variações. Vejam-se as alergias e os problemas que todas estas coisas nos causam, pelas mesmas espécies que até há uns anos não nos causavam os mesmos efeitos.
É uma realidade que estes fenómenos estão ai, os cidadãos, as cidades e os países terão de procurar adaptar-se a lidar com os problemas decorrentes, com as dificuldades e complexidade inerente a estes processos.
Os Gaios, certamente não sairão dos nossos parques e jardins por causa das alterações climáticas. Até aparecerão outras espécies com as quais tivemos até aqui pouco contacto (há quem tenha dados que o aparecimento de mais corvina no rio Tejo tenha a ver com estes fenómenos). Talvez venha a haver mais Gaios, que gralham e grasnam para que os detectemos. Com jeito e dedicação, daremos conta que imitam outras espécies. É engraçado observar estas aves que também são de cidade, de uma cidade que sendo cosmopolita vai proporcionando espaço e condições para estas observações.
Boas Observações!

Rui Lopo, ornitólogo (rplopo@gmail.com)

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