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Portugal país da Europa com mais quilómetros de Auto Estrada do que ferroviaPor João Pintassilgo
Barreiro

O abandono de estradas nacionais ou o seu encerramento deram também o seu contributo negativo para alguma actividade económica, nomeadamente de hotelaria de “beira de estrada” ou de pequenas localidades. Em alternativa deveria ter sido mantida uma política de melhoria dos seus traçados e de piso.

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Portugal país da Europa com mais quilómetros de Auto Estrada do que ferrovia Por João Pintassilgo Barreiro

Por Jornal Rostos

Segundo estudo da Boston Consulting Group, que identifica vários indicadores do desempenho da Ferrovia na Europa, diz-nos entre coisas que Portugal tem um rácio de 1,17 km de auto-estrada por cada km de ferrovia. Isto é, tem 2.860km de AE para 2.450km de Ferrovia.
Este anacronismo em que se caiu em Portugal, foi o resultado da cedência que o Estado foi dando, ao longo dos últimos 30 anos, ao “lobby do alcatrão” em detrimento da ferrovia, com consequências graves e hoje mais evidentes para o Desenvolvimento Sustentável, isto é para um desenvolvimento equilibrado do nosso Território, nomeadamente no que respeita ao seu ordenamento e às emissões do GEE, com os impactos directos conhecidos na saúde das populações e no contributo para as alterações climáticas, com os seus efeitos desastrosos a nível global do Planeta.
A pretexto de melhores acessibilidades, nomeadamente do interior, no que respeita exclusivamente á rapidez dos acessos, onde a teoria de que tal facilitaria o seu desenvolvimento, esquecendo que essa mesmas vias têm dois sentidos e que tal terá contribuído também para a fuga de populações, nomeadamente jovens, para irem ao encontro da zonas economicamente mais desenvolvidas no litoral, ao invés de atraírem o investimento necessário á sua fixação.
E aqui os diferentes governos foram também cedendo a apetites autárquicos de tentarem consolidarem poder, com realização de obras públicas rodoviárias Co-financiadas pela Comunidade Europeia e Administração Central, onde muitas delas com retorno económico escasso ou nulo, e apenas com sobrecarga financeira para o contribuinte, ao invés de procurarem soluções de investimento reprodutivo nas economias locais, com as vantagens nacional de aumento do PIB e local com a fixação da população jovem e qualificada.
Hoje os Autarcas do interior, são os primeiros a queixarem-se, e com razão, da desertificação do seu território, mas as causas não estão infelizmente apenas na ausência de políticas centrais de reequilíbrio social e económico do País, como é demonstrativo o encerramento de serviços públicos, pelo actual Governo, curiosamente utilizando muitas vezes o argumento das ditas “boas acessibilidades existentes” para que as populações de possam deslocar, quando a ausência de Transportes Públicos é a regra.
O Transporte Ferroviário sendo um módulo pesado de transporte de massas, ao contemplar as valências de passageiros e mercadorias, contêm em si uma mais-valia económica importante, que bem planeada minimizará o seu maior custo de construção das infraestruturas, que como tal deveria ser sempre assumida a nível estatal, não permitindo que venha a afectar os custos de exploração do operador, justificação muito utilizada para “sustentar a não viabilidade económica da opção” ou para definir tarifários pouco atractivos para o utilizador comum do módulo de transporte mais amigável do Ambiente.
A opção pela Ferrovia teria ainda a vantagem de ser um factor catalisador da economia, pela possibilidade de produção de equipamentos e prestação de serviços transaccionáveis e com elevado valor acrescentado.
As Auto-estradas/Vias Rápidas que têm como factores negativos, como resultado do tráfego rodoviário de velocidades elevadas, o impacto na atmosfera das emissões GEE, e o depósito de partículas, que por arrastamento pluvial, dão a origem a escorridos dos mesmos, com consequências ambientais importantes nos solos adjacentes ou elevados custos com sistemas de retenção e encaminhamento para destino final adequado, têm também as elevadas áreas de impermeabilização dos solos, destruição de paisagem e de habita’s naturais. Não é suficiente o Ministro responsável, vir mais tarde penitenciar-se pelo rasgão causado na Serra de Aire, com o traçado então escolhido para o prolongamento da A1.
Naturalmente, que as vias rodoviárias, de perfil normal, não devem ser ostracizadas, pois têm o seu papel nas acessibilidades, deverão manter o seu papel de distribuição seja de vias rápidas, económica e ambientalmente sustentadas, seja das vias ferroviárias.
O abandono de estradas nacionais ou o seu encerramento deram também o seu contributo negativo para alguma actividade económica, nomeadamente de hotelaria de “beira de estrada” ou de pequenas localidades. Em alternativa deveria ter sido mantida uma política de melhoria dos seus traçados e de piso.
Ter prevalecido a visão ingénua de Auto-Estradas, com “sentido único” para o interior, portadoras do desenvolvimento e o critério da rapidez de acesso, só foi possível porque se privilegiou sistematicamente a “caça ao voto” nos “municípios da cor” e se ignorou a sustentabilidade do Recurso Território, esquecendo-se que este apenas nos está emprestado e que temos a obrigação de o transmitir às gerações vindouras sem comprometer a sua capacidade de satisfazerem as suas próprias necessidades.
A questão que se coloca hoje à sociedade é saber até quando se manterá esta discrepância entre o que Sabemos e o que Fazemos, ou permitimos que se faça?

29/05/2015

João António Pintassilgo
Reformado
Ex-Presidente do Grupo Transtejo

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