«Da discussão nasce a Luz»Soluções de prevenção e intervenção em Divórcio
Por Susana Jones
Barreiro

Por Jornal Rostos
Uma instabilidade no casal pode levar a um grande desconforto emocional e infelicidade, podendo até por vezes chegar à somatização, ou seja, gerar desconfortos físicos ou fisiológicos. As diferentes fases pelos quais os casais passam devem ser vividas como naturais. Hoje em dia existe uma grande dificuldade em gerir os conflitos dentro do casal, colocando-se muitas das vezes a hipótese “rapidamente” de ruptura em cima da mesa, estando por detrás o medo de ficarmos sós, ou pelo contrário e igualmente gerador de sofrimento, o não se falar sobre o assunto gerando um distanciamento gradual.
É importante perceber que uma grande parte de "como somos" enquanto membros de um casal, se deve à herança que temos familiar, seja para o bem ou para o mal. Depois disso temos "quem nós somos" e as nossas expectativas de um relacionamento, casamento. E isto já são “muitas coisas” em jogo.
Muitas das vezes o nosso receio de “não dar certo”, ficarmos sós, sermos abandonados, coloca-nos à partida com o pé atrás numa relação, o que só por si já não é bom e trará consequências sempre que existir algo que coloque em causa o casal ou o seu equilíbrio. E essas situações ao longo da vida são naturais que aconteçam e até espectável. Queremos muito ser amados e amar, mas de facto uma relação implica muito trabalho e esse trabalho não cessa ao longo dos anos, às vezes, senão sempre, aumenta. Isto tudo no plano da saúde e não da patologia ou doença.
Em situações de pré rutura, em que parece que já não há mais nada a fazer uma consulta de Casal pode ser uma solução. Essa solução não é “magicamente” uma reconciliação, pode até ser preparatória de uma separação, isso é algo que se “descobre” em conjunto, dando uma hipótese ao casal de se pensar na “estaca zero”, ou seja, sem a estalada de ontem à noite ou a traição de há 6 meses atrás, pois isto já são “sintomas” de algo anterior às situações e que pode ser analisado à luz do casal sem julgamentos ou pressões e com um técnico que orienta neste caminho de perceber quem somos “Nós” afinal e se vale a pena.
Li à um tempo um artigo de Arnaldo Jabor sobre o divórcio que transmitia uma ideia que me parece bastante interessante, do ponto de vista terapêutico. O autor dizia que tinha casado três vezes, mas com a mesma mulher, ou seja, que tiveram três vezes quase na rutura mas que voltaram a olhar para a relação e em vez de trocarem de parceiro para ir para o ginásio, ou mudar o corte de cabelo, fazer “aquela viagem”, mudar de emprego, sair à noite, mudanças muito usais de quem se divorcia, porque não fazer “tudo isto” ou o que for necessário, para trazer as mudanças necessárias à não destruição do relacionamento ou à necessidade de evolução de cada Um de Nós. Porque é óbvia que com o passar dos anos existem coisas que mais vale mudar, seja a nível de casal ou pessoal.
Se a rutura já se deu, inevitável, o psicólogo pode ajudar no processo de transição da vida, de casal para “solteiro” e tudo o que isso implica a nível também de um luto de uma relação em processo de terapia individual, o que pode ajudar numa consciência do que pode não ter corrido “tão bem”, para que não exista uma replicação futura, uma tendência de todos nós.
Em caso de existirem filhos, na primeira situação, em que existe um desconforto e sofrimento no casal, os filhos são alvo também de desconforto e sofrimento, por mais que os pais sejam muito sensíveis aos seus sentimentos e os tentem proteger das discussões ou conflitos abertos, os sentimentos de tristeza, raiva, desorientação, desagregação o que seja, estão presentes “Na família” e dificilmente dissociáveis. Nesta altura, muitos pais procuram ajuda, porque mesmo antes de perceberem o quanto o seu (“seu” do casal) sofrimento e/ou conflito afeta os filhos, os mesmos começam a ter ”sintomas” como más notas, mau comportamento, “hiperatividade”, apatia, entre outros. O psicólogo ajuda a criança a lidar melhor com esses sentimentos e a anular o seu “sintoma” da forma que for mais adequada, mas o grande trabalho está em conjunto com os país. Em caso de dúvida, “O que se passa com o meu filho?” mais vale não adiar, mesmo que de alguma forma possamos achar que tem haver “connosco”, porque até pode não ter e se existem técnicos especializados hoje em dia que nos ajudam nestas questões e que podem levar a cabo uma avaliação simples, até “divertida” para a criança, apesar de ser para nós pais extremamente difícil faze-lo junto de um “estranho”, porque não o fazer? Pode-nos salvaguardar de consequências muitas das vezes maiores, mais tardiamente na vida.
Em caso de divórcio com filhos, para a psicologia deixa de existir um casal, mas continuar a existir um casal parental, que pode ser apoiado neste processo difícil, em tomadas de decisões como “Quem fica com quem? A que dias, de que forma, onde? O que é melhor para os nossos filhos? O que lhes dizer? Como transmitir? Como esta situação os vais afetar? E a escola?” e outras milhentas questões que surgem, sem falar em casos de conflito em que o casal parental não se quer falar.
Aqui o terapeuta de casal pode apoiar o casal parental nesta transição e/ou apoiar a criança neste percurso, para deixar o menor numero de “mazelas” e situações emocionais mal resolvidas, no caso da cooperação saudável dos pais para o bem estar dos filhos em sofrimento.
Em caso de os pais terminarem em grande conflito e ruptura de todas as formas, o psicólogo pode apoiar individualmente este processo para levar a cabo as decisões que melhor podem salvaguardar a criança e apoiar a criança também.
Nos divórcios que já se efetivaram e que existe preocupação por um ou ambos os pais, de que forma o divórcio possa ter afetado os filhos, poderá ser solicitada uma avaliação para perceber como a criança está a lidar emocionalmente com a situação “nova” da sua vida.
Estas diferentes formas de intervenção em prevenção do divórcio e/ou intervenção quando ele se dá ou se deu, podem fazer muita diferença na forma como lidamos e deixamos “dentro de nós” as “coisas arrumadas”. Determinante para nós adultos nas “novas” escolhas de vida, importante nas crianças para prevenir “traumas” que transportam toda uma vida, causadoras de sofrimentos às vezes sem “cara” ou explicação.
Uma grande parte dos nossos problemas de saúde advém de ansiedade ou depressões nunca diagnosticadas. A prevenção leva à não necessidade ou diminuição da quantidade de medicação, a uma participação social mais activa e à diminuição de depressão e de outros estados de risco psicológico.
A prevenção por meio da promoção da saúde cabe a todos nós e é determinante para o nosso bem-estar individual e colectivo. Se soubermos identificar os sinais e quando devemos procurar ajuda, sem desvalorizar os nossos sentimentos ou preocupações, podemos chegar mais longe e com mais felicidade. Tendo sempre em conta que chorar é tão natural como rir e que as dificuldades e as “crises” (impulsionadoras para a mudança) vão sempre existir, o que muda é a forma de as encarar.
Susana Jones














