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O Barreiro, a estratégia, o emprego qualificado e o rejuvenescimento da cidadePor Frederico Rosa

Nos últimos (largos) anos assistimos no Barreiro a uma crescente incapacidade de contrariar a tendência de saída de capital humano qualificado para outras paragens (nacionais e estrangeiras), a uma incapacidade de atrair novos moradores para o território, a uma diminuição da população ativa no concelho, à incapacidade de atrair emprego qualificado com impacto natural no comércio local.

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O Barreiro, a estratégia, o emprego qualificado e o rejuvenescimento da cidade Por Frederico Rosa

Por Jornal Rostos

Sou muitas vezes abordado para falar sobre o Barreiro (o que adoro), do seu futuro e do seu desenvolvimento, sendo que a preocupação que vejo mais vezes expressa nas pessoas é a de como podemos gerar condições para que eles (ou os seus filhos ou mesmo os seus netos) possam ter trabalho e não ter de partir para ter oportunidades de vida. Como sabemos, não é uma pergunta de resposta fácil e direta que normalmente as pessoas querem ouvir, mas se soubermos de facto o que queremos torna-se mais fácil traçar um caminho e delinear uma estratégia para atingir esse fim. Não creio que o futuro é imutável mas acredito que não se concretiza só por o desejarmos muito. É a nossa ação concertada que detém a chave para concretizar o que queremos ver acontecer! E vamo-nos mentalizar que numa sociedade altamente competitiva, como a que vivemos, ninguém fará o trabalho por nós, farão antes em vez de nós...

Folheio as noticias de dia 8 de Janeiro de 2016 numa esplanada nos Casquilhos e uma manchete salta-me à vista: o grupo Daimler (que integra a Mercedes-Benz e o Smart) decidiu abrir em Sintra o seu centro de serviços partilhados para todas as suas oficinas na Europa. O seu racional de decisão, como explicou o seu CEO Joerg Heinermann, é simples: Portugal tem custos de contexto menos elevados que no resto da Europa e tem uma população jovem extremamente qualificada. Sintra ganha para já entre 25 a 30 novos empregos qualificados e a certeza que o grupo quer construir no seu futuro ali, gerando mais emprego e mais investimento.
Os centro de serviços partilhados são de resto uma das áreas que a própria AICEP tem identificado como um dos pontos fortes de Portugal, referindo na sua informação que o país “posiciona-se como um ótimo destino para acolher Centros de Serviços Partilhados, reunindo capital humano qualificado, infraestruturas de telecomunicações altamente avançadas e custos de instalação competitivos que o tornam muito atrativo. Empresas líder no sector como a Altran, Adidas, Cisco, IBM e Siemens, para nomear apenas alguns casos, já descobriram o potencial do país neste sector inaugurando ou reforçando investimentos em Centros Tecnológicos de ponta.”

Ainda a 15 de Julho o então Ministro da Economia, Pires de Lima, exultava com o facto de o BNP Paribas anunciar que tem a expetativa que “Portugal se torne a referência e o centro de serviços mais importante do BNP Paribas na Europa, integrando aqui, em Lisboa, serviços que estão a vir de Bruxelas, Paris, Londres, Nova Iorque”. Os números de resto são elucidativos: o grupo tinha em 2005 cerca de 500 trabalhadores, em 2010 tinha crescido para 1300 trabalhadores e em 2015 ia fechar com cerca de 2600 pessoas nos seus quadros em Lisboa, segundo as informações que vieram a público. Esta estratégia já era clara em outubro de 2014 quando Jean-Marc Pasquet, afirmava à comunicação social portuguesa que queria chegar aos 4600 colaboradores em Portugal em 3 a 4 anos, identificando o porquê de querer prestar serviços para a Europa a partir de Lisboa com o facto de Portugal pertencer à Zona Euro, a mão-de-obra portuguesa ser muito qualificada, com boa formação académica e excelentes competências linguísticas.

A lógica parece clara para a atração deste tipo de investimentos junto de multinacionais europeias: baixos custos de contexto, acesso a capital humano qualificado, boa capacidade tecnológica, boas infraestruturas.
A capital do país tem uma estratégia própria para cativar este tipo de empresas, que de resto está bem expressa no seu site onde se lê claramente que a cidade “é cada vez mais um polo de atração dos denominados Shared Service Centers (SSC), permitindo que empresas globais posicionem um conjunto de funções de natureza transversal (vd. serviços financeiros/contabilidade, atendimento e gestão de clientes, recursos humanos e formação, manutenção de operações/serviços, entre outras) em localizações remotas. A instalação em Lisboa de SSC´s de diferentes tipos por parte de empresas como a Fujitsu (localizou na Torre do Colombo um dos três Shared Service Centers que tem no Mundo, num projeto internacional denominado Follow the Sun, o qual explora os diferentes fusos horários dos centros localizados em três continente diferentes), Axa France (sediou em Lisboa o seu centro de formação europeu) ou ainda os casos do Barclays Bank e do BNP Paribas, são um sinal inequívoco do potencial de Lisboa nesta área.”
Igualmente outras cidades portuguesas, como Braga (onde a IBM, a WeDo e a Vodafone já estão presentes), já têm nos seus planos estratégicos a atração de Centros de Serviços Partilhados de forma bem vincada e como ferramenta de atrair emprego qualificado e investimento externo.
Nos últimos (largos) anos assistimos no Barreiro a uma crescente incapacidade de contrariar a tendência de saída de capital humano qualificado para outras paragens (nacionais e estrangeiras), a uma incapacidade de atrair novos moradores para o território, a uma diminuição da população ativa no concelho, à incapacidade de atrair emprego qualificado com impacto natural no comércio local. Menos população a trabalhar e viver no território significam invariavelmente um universo de clientes mais reduzido e com menor poder de compra. É por isso urgente contrariar este ciclo de forma concreta, com uma estratégia de cidade que não esteja sempre dependente dos desígnios do poder central: o que vier terá que ser para acrescentar a um plano que se quer próprio e que aproveite as forças do concelho para tornar a cidade num território diferenciado, apetecível e único nas suas valências.
Sabemos que a margem sul sempre foi fornecedora de mão-de-obra para empresas da capital e que na nossa cidade o que não falta são pessoas com capacidades e talento para fazer a diferença nas suas áreas, inclusive a nível internacional. Sabemos que os custos de contexto entre o Barreiro e Lisboa – nomeadamente no preço do imobiliário - são menos onerosos na nossa cidade para um possível investidor. Temos ensino superior, temos tradição operária, temos o capital humano, temos empreendedores culturais e vida própria sistematicamente reinventada. E todos nós crescemos com a frase: “O que de melhor há no Barreiro são os barreirenses!”
Então, que tal pensar em centrar a estratégia da cidade para dar oportunidade a que o talento e capital humano que conseguimos gerar se possa também concretizar no nosso território? Se o melhor são as pessoas, não podemos ter como dado adquirido que o seu projeto de vida passe inevitavelmente por fora da cidade. O Barreiro não se pode transformar no local onde vamos visitar a família, tem de ser o local onde também se concretizem ambições, aspirações e sonhos! Ou pelo menos que haja essa opção de aqui se poderem concretizar.
Em 2014, um estudo efetuado pela Deloitte para o Programa Operacional de Assistência Técnica do Fundo Social Europeu, com o título “Estudo de Implementação de Plataforma de Desenvolvimento de Centros de Serviços Partilhados” identificavam as Câmaras Municipais como “as entidades que melhor conhecem a realidade económica e social das diferentes localizações e que podem contribuir com informação relevante para apoio aos investidores no processo de seleção da localização dos centros de serviços partilhados. Adicionalmente, assumem também um importante papel de interlocutores/parceiros na criação de condições para a atracão dos centros, nomeadamente através de mecanismos que aumentem o nível de atratividade dos territórios (disponibilização de instalações, facilitação de questões burocráticas, entre outros).”
Estas palavras constantes neste relatório são em si um dos desafios locais a enfrentar e a captação de centros de serviços partilhados umas das ideias que gosto particularmente como sendo um possível caminho à pergunta que me fazem sobre o futuro do Barreiro para gerar emprego qualificado. Mesmo sabendo que implica um modelo de cidade diferente do que hoje temos, uma cidade que terá de ser centrada no conhecimento e com olhos no futuro para se poder regenerar, tendo como indicadores de sucesso a criação de emprego qualificado, a atração de investimento, a criação e concretização na cidade de projetos privados apoiados por fundos comunitários, o aumento da população ativa, a travagem do envelhecimento populacional, entre outros. Para isso temos que ir ouvir quem investe e cria emprego qualificado para sabermos o que procuram quando escolhem uma nova localização. Temos que saber o que foi critico para empresas inovadoras, criadas e saídas de processos de I&D, na escolha da sua localização e percebermos se temos na cidade o que procuram. Temos que sair do conforto de fazer as mesmas coisas de sempre e ainda esperar resultados diferentes. Temos que continuar a sonhar, mas temos que ter a ousadia de acordar e pôr mãos ao trabalho, pois ninguém o fará por nós. E quando digo nós estou a falar de ti e de mim.

Frederico Rosa

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