As Multinacionais escolhem o país mas mudam-se para CidadesPor Frederico Rosa
Barreiro

Por Jornal Rostos
Na sequência da reflexão constante do artigo, “O Barreiro, a estratégia, o emprego qualificado e o rejuvenescimento da cidade” (Rostos, 12/01/2016), recebi um feedback bastante interessante (e vasto!) de barreirenses que sentem que é necessário inverter esta tendência de o Barreiro ser uma cidade cada vez mais envelhecida, com poucas oportunidades de criar, incubar e desenvolver emprego tecnológico e qualificado, assim como uma aparente incapacidade de se posicionar com uma estratégia própria para ser competitivo na atração de investidores e talento.
Deixo claro, também, que gasto pouco ou nenhum tempo a encontrar culpados, até porque acredito que quem está encarregue de concretizar a sua estratégia para a cidade faz o que acredita e o melhor que pode. E em última análise somos todos culpados, pois se não concordamos com o rumo, temos que construir um modelo alternativo de desenvolvimento e de cidade. Por isso dirijo antes toda a minha energia para encontrar e construir soluções que possam colocar a cidade na rota do século XXI, numa abordagem metodológica e sustentada que aproveite e desenvolva as vantagens competitivas existentes no concelho para criar prosperidade local, para fortalecer os movimentos desportivos e culturais existentes, para criar uma comunidade empreendedora que sinta que pode aqui concretizar o seu talento e construir as suas oportunidades de sucesso e o seu futuro.
O Barreiro precisa de um novo modelo de cidade, um modelo de cidade que deixe de a pensar de e para o seu umbigo, com e para os seus paradigmas de sempre. Um modelo de cidade que tenha a capacidade critica de operacionalizar a sua estratégia em concorrência com outros territórios, com politicas que reflitam na prática as prioridades latentes no discurso, em convergência com estratégias macro mas afirmando a sua personalidade e traço distintivo. Um Barreiro de corpo e alma – e estratégia própria - integrado numa macro região para acrescentar e não para ser absorvido por ela, ficando por completo entregue aos desígnios de outros.
Para mim este deve ser um tema que nos deve unir a todos, independentemente das nossas sensibilidades, pois é do futuro da cidade que estamos a falar. E da diversidade consegue-se sempre soluções mais ricas, mais representativas e que sejam resultado de um espírito critico mais apurado. O caminho terá forçosamente que ser de convergência, onde nos apoiamos nos denominadores comuns para construir uma cidade competitiva para o século XXI e não o de uma divisão que visa a perpetuação, com mais ou menos operações de cosmética pontuais, deste rumo que a cidade tem seguido: mais deserta, mais envelhecida, com menos emprego, logo, necessariamente, com menos futuro. Coisas boas e importantes certamente que têm sido feitas, mas incapazes de contrariar esta tendência. Não é um problema de vontade, é uma questão de estratégia, de prioridades e de modelo de cidade.
Na sequência do artigo anterior recebi diversos links com noticias da vinda de centros de serviços partilhados para o nosso país que criam centenas de emprego qualificado, segmento que de resto a AICEP tem frisado como sendo uma das vantagens competitivas de Portugal na Europa. O último link que recebi foi relativo à Microsoft, do qual vos deixo o título da noticia, constante na BIT Magazine (07/03/2016):
“Microsoft escolhe Lisboa para centro mundial de suporte na nuvem”.
Para ilustrar melhor porque partilho este título, deixo-vos mais algumas notícias similares que alguns leitores me fizeram chegar:
- “Mercedes abre centro de serviços internacionais em Sintra”, in Jornal OJE, 08/01/2016;
- “O número de empresas do Sanjotec - Centro Empresarial e Tecnológico de S. João da Madeira mais do que duplicou entre 2008 e 2014 e o crescimento das suas exportações foi ainda mais evidente, tornando-se quase 12 vezes superior”, in Agência Lusa, 29/01/2015;
- “Empresa cria 500 novos postos de trabalho em Matosinhos”, in JornalismoPortoNet, 01/06/2015;
- “Compta escolhe Tagusvalley em Abrantes para a nova casa da Lusídeias – Plataforma Nacional de Inovação”, in COMPTA (comunicação oficial), 28/10/2015;
- “Centro da Altran no Fundão representa investimento de 6,8 ME e cria 300 empregos”, in RTP, 19/06/2014;
- “Braga quer crescer na área dos centros de serviços partilhados”, in Correio do Minho, 01/04/2015;
- “Siemens abre novo Centro de Operações em Alfragide”, in SapoTek, 04/04/2014;
- “Capgemini cria centro de serviços partilhados em Évora”, in FIBRA.pt, 20/05/2014;
- “Grupo Linde investe meio milhão de euros em novo centro de serviços partillhados na Maia”, in Porto Canal, 26/11/2014;
O que podemos constatar nestas noticias é algo que coloquei no título deste artigo: as empresas multinacionais escolhem o pais para onde se querem deslocar por factores nacionais (custos de contexto, qualificação de trabalhadores, fiscalidade, entre outros) mas mudam-se para cidades! E para uma cidade ser competitiva tem de ter uma liderança que reflita na prática e em prioridades de investimento este desejo de atração de empregadores nacionais e internacionais, de startups tecnológicas, de emprego baseado em conhecimento e em qualificações.
De resto, este tipo de empresas não significa apenas emprego qualificado, significa ainda que os salários pagos, tipicamente acima da média, têm um reflexo nas compras efetuadas no comércio local, na capacidade de fixar e atrair jovens para aqui constituírem as suas famílias (comprando casa no concelho), na capacidade de alargar a base de cobrança de IRC (que pode dar folga para outro tipo de investimentos de carácter social, desportivo e cultural). Pode ainda proporcionar o aparecimento no concelho de uma nova tipologia de patrocinadores para atividades educativas, culturais e desportiva, dando um novo – e mais ambicioso - fôlego a projetos com potencial para atrair novos públicos pela qualidade que os seus organizadores apresentam.
O Dukakis Center for Urban and Regional Policy, da Northeastern University nos Estados Unidos da América, diz-nos sobre esta matéria que as cidades devem definir as suas propostas de valor com uma liderança forte apoiada numa estratégia de desenvolvimento económico local, sendo que uma frase salta-nos à vista nesta sua ideia para uma cidade competitiva:
“As cidades têm a habilidade de criarem o seu próprio destino e podem beneficiar de ter parceiros sofisticados que as podem ajudar a desenvolver ferramentas e informação para competirem de forma a serem bem sucedidas”.
Num trabalho de 2004 intitulado de “The Rebirth of Old Industrial Cities: Exciting opportunities for private sector investment” investigadores do Dukakis Center da Northeastern University e da Harvard University – Harvard Law School apresentam-nos o que chamam de “Deal Brakers” para esta tipologia de cidades, ou seja, vertentes que podem afastar empresas de se mudarem para estes territórios. Deixo aqui três exemplos destes traços identificados no estudo como impeditivos para organizações se mudarem para antigas cidades industriais e de que modo a formação continua e atualizada de decisores e técnicos superiores, a existência de equipas multidisciplinares capazes de gerar agilidade e capacidade de resposta para responder e antecipar necessidades, podem ser decisivas para ultrapassar estas barreiras:
Deal Breaker #1: “Devido à rapidez com que as condições de mercado mudam na economia mundial, os líderes municipais nas velhas cidades industriais carecem por vezes de uma informação completa e atual sobre as necessidades de localização que cada tipo de industria tem e as ofertas concorrenciais que outras cidades apresentam. Como resultado, não estão sempre preparados para ajudar as empresas de uma forma rápida e efetiva, de modo a ultrapassar as barreiras inerentes a este tipo de investimentos”;
Deal Breaker #2: “Os decisores empresariais tem mapas cognitivos – percepções - bem definidos sobre os atributos de uma oportunidade numa velha cidade industrial que podem afectar o modo como pensam em se mudarem para este tipo de territórios”;
Deal Breaker #3: “Carências especificas de infraestruturas numa determinada localização podem incrementar o custo de fazer negocio numa velha cidade industrial”.
Este último “deal breaker” que aqui coloco traz-me à memória um excelente debate onde fui um dos convidados, realizado em 2014 no café àPortuguesa, ali na Avenida Bento Gonçalves, onde a respeito do Desenvolvimento Económico do Barreiro frisei o seguinte conceito que ainda hoje tenho escrito numa folha A4 na parede do meu escritório:
“Temos de pensar em infraestruturas para o Barreiro fora do modelo tradicional de pavimento, condutas, betão ou alcatrão. Temos que nos antecipar e alargar este pensamento a conceitos como a internet das coisas, big data, redes de comunicação e banda larga, sistemas de monitorização preventivos e gestão eficiente de recursos, resíduos e água, entre outros. Temos que sair do tangível e pensar igualmente em infraestruturas intangíveis, da mesma forma que queremos que o futuro seja alicerçado na nossa capacidade de captarmos e desenvolvermos conhecimento para fomentarmos desenvolvimento económico. Todas estas infraestruturas fazem falta e são importantes, mas é uma questão de prioridades: para ter desenvolvimento e aumentar fontes de receita que no Barreiro são residuais, como o IRC pago ao município via derrama, é necessário criar condições para atrair investidores e empreendedores em segmentos que podem proporcionar esse retorno. Com isto, desenvolver politicas que possam atrair e fixar jovens que ao trabalharem no concelho optem por aqui comprarem casa, alargando a base de cobrança de IMI, possibilitando a redução das taxas cobradas à população e gerando sustentabilidade na receita, pois o universo contributivo aumenta.
Ou assumimos que queremos desenvolvimento económico ou assumimos que queremos ser uma cidade onde os filhos vem visitar os pais e os avós ao fim-de-semana! E plasmamos essas prioridades para as nossas politicas publicas, alinhando discurso com ação. O que não podemos é dizer uma coisa e fazer outra. Temos de assumir o que queremos!”.
Como referi no título, as multinacionais escolhem os países de destino mas mudam-se para cidades e é tempo de criarmos condições no Barreiro para o concelho ser competitivo na sua oferta, na atração de talento e de emprego qualificado. Vários estudos (como o Urban Audit, do Eurostat) mostram alguma consistência na associação entre riqueza urbana, a existência de um número vasto de profissionais criativos, indicadores de acessibilidade elevados, a qualidade das redes de transportes urbanos, a difusão de tecnologias de informação e comunicação (com especial ênfase no “e-governance”, relacionando transparência no acesso a informação por parte de investidores, empreendedores e munícipes, assim como a agilidade em prestar serviços por via electrónica de modo a tornar os processos mais ágeis, menos onerosos e mais eficientes) e a qualidade e talento do capital humano existente. Tudo isto correlacionado com uma visão clara do que queremos para a nossa cidade, onde queremos chegar e quais os passos que vamos dar para tornar essa visão uma realidade. Também o World Economic Forum, através do Global Agenda Council on Competitiveness, mostra-nos de uma forma concreta alguns exemplos de sucesso na transformação de cidades:
- Em Bilbau, a visão coletiva de uma cidade decadente, recheada de violência política e dependente de industria pesada deu lugar a uma cidade vibrante, multicluster, cosmopolita e criativa;
- Em Medellín, uma cidade dominada por redes de trafego de droga foi transformada pela visão do Mayor Sergio Fajardo, sendo hoje um cluster de alta tecnologia e educação;
- Em Barcelona, onde uma área de sensivelmente 250 quarteirões na zona histórica – e delapidada – de Sant Marti deu origem a um bairro moderno: o 22@, o distrito de inovação de Barcelona. Tudo começou quando o Ajuntament de Barcelona, no ano de 2000, colocou a seguinte questão: “Que medidas podemos tomar para melhorar as interações entre a comunidade internacional, as firmas locais e as instituições de Barcelona?”. A resposta a esta questão deu origem à visão, em 2000, do que poderia ser o 22@, e em 2010 esta localidade registava um aumento de 23% nos residentes, empregando cerca de 90.000 pessoas. (dados do ECPA Urban Planning Report):
Casos de sucesso de cidades assentes numa visão clara do que se pretende, estabelecendo prioridades nas politicas públicas, planeamento da ação, execução e agilidade na detecção e correção de erros.
As empresas escolhem países mas mudam-se para cidades! Estes são casos onde uma visão concreta de futuro transformou a realidade local da população. Trabalhemos para desenvolver um novo modelo de cidade, para que empresas, investidores e empreendedores vejam no Barreiro uma opção válida para desenvolverem os seus projetos, de modo a que possamos fixar barreirenses e atrair novos residentes.
Frederico Rosa














