O meu Barreiro não é vermelhoPor Pedro Vasconcelos Almeida
Barreiro

Por Jornal Rostos
Para comemorar os 95 anos da sua fundação, o PCP decidiu engalanar algumas ruas do Barreiro com bandeiras do partido. Ultimamente, quem tiver passado, por exemplo, pela Rua Manuel Pacheco Nobre, no centro do Alto Seixalinho, ter-se-á deparado com o espetáculo das bandeiras. De resto, pelo que tive conhecimento, este cenário tem sido comum em outros concelhos do Distrito como Almada, Seixal, Moita e Palmela.
Poderia passar as próximas linhas a debitar a tradicional retórica anti-comunista sobre o quão anacrónico é o sentimento de percorrer uma rua com bandeiras do PCP, relembrando o pesadelo totalitário dos regimes comunistas do século XX. Não vou por aí. Sempre achei o anti-comunismo primário a pior forma de oposição ao PCP no Distrito de Setúbal, pela simples razão de que, ao contrário do que é a sua prática aparente na Assembleia da República, o PCP governa as autarquias como um partido de direita. Para além de passar completamente ao lado dos problemas estruturantes do Barreiro enquanto cidade, é um discurso intelectualmente falacioso, porque assenta num conjunto de preconceitos e estereótipos ultrapassados e pouco saudáveis para o debate político local.
Quero antes centrar-me na falta de sentido institucional inerente a esta comemoração. Parece-me a mim que a forma invasiva como foi feita esta celebração é reveladora do sentimento de monopólio que o PCP tem sobre o Barreiro. Como se a cidade fosse sua, como se tivesse um direito divino tal sobre o nosso concelho que a comemoração do seu aniversário não pode ser uma efeméride exclusivamente sua, tendo de ser necessariamente partilhada como uma efeméride colectiva do Barreiro. Tenho muitas dúvidas de que o aniversário do PCP possa ser considerado como uma memória identitária do concelho. Do PCP será certamente, mas do concelho já tenho algumas dúvidas.
Não é a primeira vez que este sentimento prepotente de posse vem ao de cima. O PCP é sempre muito selectivo nas memórias colectivas que pretende comemorar. Exemplo disso é o Dia da Bandeira, comemorado recentemente pela CMB com a exposição “O Regresso das Bandeiras”. A exposição assinala os 80 anos da «Jornada de Agitação, contra a fome, a guerra e o fascismo», acção promovida em 1935 pela Comissão Inter-Sindical, afecta ao PCP, na qual foram hasteadas, por operários da CUF e ferroviários da CP, diversas bandeiras vermelhas pelo Barreiro e distribuído material de propaganda contra o recém-criado Estado Novo. Antes que me chamem nomes, quero saudar a iniciativa porque considero que celebra uma memória importante para todos nós. É uma de muitas marcas da história de resistência do nosso concelho ao fascismo e não podemos deixar de comemorar as pessoas que arriscaram as suas vidas para lutar pela liberdade. A luta contra a resignação e o conformismo é uma marca indelével do ADN dos Barreirenses e uma constante ao longo da história do nosso concelho.
Mas com todo o respeito, a história da luta operária no Barreiro vai muito além da oposição que o PCP, com todo o mérito que legitimamente lhe deve ser reconhecido, desenvolveu contra o Estado Novo. A luta operária no Barreiro começa aliás muito antes da fundação do PCP com raízes nos primeiros movimentos socialistas e republicanos, bem como no movimento sindical durante a I República. Os primórdios da luta contra a ditadura não foram conduzidos pelo PCP mas sim pelos movimentos anarco-sindicalistas e pela resistência republicana. Só com o declínio destes movimentos é que o PCP teve a sua afirmação natural na oposição ao regime. Desta forma, o executivo camarário sempre foi estranhamente (ou não) selectivo quando comemora este tipo de efemérides, apenas comemorando aquelas que estão explicita ou implicitamente ligadas ao PCP, como se quisesse reescrever a história e atribuir ao Partido Comunista o monopólio da luta operária e de resistência à ditadura, em claro desrespeito a todos os outros homens e mulheres que, não sendo comunistas, também desempenharam o seu papel na oposição ao regime
Em suma, o meu Barreiro não é vermelho. Muito menos será monocromático. O meu Barreiro tem várias cores na sua história que merecem ser comemoradas de igual forma e sem preconceito ideológico. É isso que, para mim, faz do Barreiro a terra fantástica que é, com uma história de que nos devemos orgulhar, uma terra de homens e mulheres extraordinários que lutaram por uma vida melhor, independentemente da sua condição social e da sua cor política. É em nome dessas pessoas que devemos assumir por inteiro o nosso passado e projectar um novo futuro para o Barreiro.
Pedro Vasconcelos Almeida
Presidente da Juventude Socialista do Barreiro
(o autor escreve de acordo com a antiga ortografia)














