Saltar para o conteúdo
Quotidianos

Do Portugal AfricanoPor Jorge Miguel Teixeira
Barreiro

Ninguém o faz por mal. Naturalmente, faz parte de se ser barreirense, e quem disso discorda não conhece a sua cidade e ignora a sua memória; erra como quem errava ao falar de um Portugal além do fado, futebol e Fátima. Poderá haver até um Barreiro além do trabalhador, da bandeira e da luta. Ele até pode ser por todos conhecido, mas pouco importa.

3 min de leitura
Do Portugal Africano Por Jorge Miguel Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

Se olharmos para as democracias recentes das colónias que ganharam a sua independência na segunda metade do século XX, reparamos que quem quiser exercer oposição ao ‘’regime’’ ou ao partido dominante depara-se com um dilema acutilante: ‘’como me posso eu opor ao meu libertador?’’
A verdade, embora inconfortável, é bem mais complexa. A liberdade que resulta de uma longa luta de libertação é apanágio do Partido que, rejeitando o jugo colonial, trouxe ao seu povo a dádiva da auto-determinação. Assim é na Angola do MPLA. Assim o é em Moçambique onde encontramos a FRELIMO, e por muitas outras ex-colónias europeias o mesmo se dá. Assim, o problema da oposição nestes regimes ganha sempre contornos quase morais; quando rejeitam o seu libertador, ou são ingratos ou reaccionários.
Africanamente, e numa escala bem mais pequena, encontramos os mesmos tiques, ainda que em dose suave, num Barreiro nostálgico. Presos entre a fumaça fabril e a resistência à ditadura, alguns vão repetindo aclamações históricas de luta, produtividade, irreverência e memória. Aqueles que nelas não se revirem ou não são barreirenses, ou desejam voltar atrás. A história da cidade confunde-se com o Partido. Num ensaio clássico de uma ideologia de regime, as bandeiras, as músicas, as comemorações, o dia daquele mês, as fanfarras, os comes, os bebes, os carros, os autocarros, os cartazes, os discursos, as posturas e as lapelas vão dançando as mesmas marchas, reavivando a memória e exaltando a história. Os arquivos têm cor, e os historiadores não conhecem outra. No poder repetem-se e glorificam-se os mesmos personagens e as mesmas cantigas.
Ninguém o faz por mal. Naturalmente, faz parte de se ser barreirense, e quem disso discorda não conhece a sua cidade e ignora a sua memória; erra como quem errava ao falar de um Portugal além do fado, futebol e Fátima. Poderá haver até um Barreiro além do trabalhador, da bandeira e da luta. Ele até pode ser por todos conhecido, mas pouco importa. Importa antes a bandeira desfraldada, bem alta. Fomos libertos por ela, e devemos-lhe a nossa gratidão. Contra as nossas vontades. Felizmente hoje, o Barreiro, longe do poder, é outro. E é cada vez mais indiferente. Indiferente não porque não se importa, mas porque precisa de mais. Mas não do mesmo.

Jorge Miguel Teixeira
Presidente da CPC do CDS-PP Barreiro

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção