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Quotidianos

Espaços vaziosPor Luisa Barata Ramos
Barreiro

Os bailes da chita, os bailes de Carnaval, os bailes do aniversário do 22, em Novembro.
Os recitais de poesia; as peças de teatro que muitos talentosos e corajosos actores da nossa terra, interpretaram duma maneira brilhante.

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Espaços vazios Por Luisa Barata Ramos Barreiro

Por Jornal Rostos

A casa da Rua Aguiar, já lá não está. A casa do quintal, da figueira, a que tinha aquele portão para o lado da praia, aquela casa em que viveu a minha família, onde eu nasci, já lá não está.
O nº 223 e 225 da Rua Aguiar, já não existem.
Ardeu, ruiu, caiu de velha? Não interessa. Sei que morreu e não me parece muito disparatado achar que as casas também morrem, quando ficam vazias de pessoas, quando perdem a “alma”.
Disseram-me, eu fui ver e lá estava o espaço vazio. Só isso, um espaço vazio.
Confesso que me enchi de tristeza, daquela tristeza que nos dá para chorar.
Claro que é só uma casa muito velha, degradada, inabitada há quase 20 anos. A rua nem sequer é a mesma, em comum com a da minha infância, só tem mesmo o nome.
E então? Como é que se “pára” a tristeza quando se vê morrer o sítio onde se foi tão feliz?
Ali mesmo ao pé, a casa onde vivi com os meus pais até ao 24 anos, o nº 148 da Marquês de Pombal, ainda existe.
Está agora pintada de um arrojado cor-de-rosa.
Na rua, ainda mora uma vizinha antiga, resistente, a Conceição, viúva do João sapateiro.
O Sr. João, era amigo do meu pai. Arranjava sapatos numa oficina cheia de solas, pregos de todos os tamanhos, martelos e alicates de vários feitios. Ali cheirava a cola, a pomadas, a couro.
A oficina era mesmo ao lado da minha casa e eu passava ali, muitas vezes com o meu pai e gostava muito de o ouvir cumprimentar o João. Dizia: “Alma aí!” Queria dizer: “Força, ânimo!”
Em frente, mesmo em frente da casa que agora é cor-de-rosa, do outro lado da rua, era o 22, clube 22 de Novembro.
Outro espaço vazio.
Ardeu em Janeiro 1978.
Uma noite chegou para transformar em cinzas muitas décadas de memórias: as sessões de poesia; as cantigas imortalizadas pelos reis e pelas rainhas da rádio, os “cançonetistas” como se chamava aos interpretes das canções da minha infância; os conjuntos (quase sempre o “José da Silva” e o vocalista José Vieira) que tocavam o “slow”, o “twist”, o “rock and roll”, a bossa nova, da minha adolescência. Cantavam num inglês inventado, e nós dançávamos, como dançávamos!
Nos camarotes, as mães vigiavam-nos e também os pais, quase sempre à entrada da sala de baile, fumavam e disfarçadamente, tomavam conta.
Os bailes da chita, os bailes de Carnaval, os bailes do aniversário do 22, em Novembro.
Os recitais de poesia; as peças de teatro que muitos talentosos e corajosos actores da nossa terra, interpretaram duma maneira brilhante.
Os casamentos, os “copos de água”, os convidados vestidos a rigor. As noivas, branquíssimas, com a obrigatória flor de laranjeira. Os noivos vestidos de escuro, de casaca ou abas de grilo.
A Festa do casamento do meu padrinho, Augusto Cabrita, foi celebrada na lindíssima sala do 22. Eu tinha 7 anos e estive lá.
Os momentos mais divertidos e felizes da minha infância e da minha adolescência foram vividos no 22.
A rapaziada do meu tempo, que tal como eu, por ali passou, sabe do que falo.
Partilharemos seguramente a mesma nostalgia.
Agora o Clube 22 de Novembro, é outro espaço vazio.
Saio da Marquês de Pombal e vou até à Avenida da Praia (eu sei que ela tem um nome, mas deixem-me chamar-lhe assim). E fico ali um bocadinho só a olhar para o rio.

Luisa Barata Ramos

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