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Quotidianos

HASTA SIEMPRE, FIDEL !Por Armando Teixeira
Barreiro

Morreu um revolucionário, um homem que procurou com enorme coragem, integridade, clarividência, transformar a sua pequena ilha e, pelo exemplo, melhorar o mundo.

4 min de leitura
HASTA SIEMPRE, FIDEL ! Por Armando Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

Estivemos em Cuba há 15 nos, em viagem de turismo, sem programa ou visitas obrigatórias, vendo, ouvindo e lendo, tentando perceber a excepcional experiência de um pequeno país (da dimensão do nosso), trilhando caminhos diferentes, contraditórios, antagónicos dos do seu poderoso vizinho.
Fidel Castro respondia na televisão com frontalidade e tranquilidade, inteligência e desassombro às perguntas algo provocatórias de um painel de três jornalistas americanos, durante mais de duas horas. Ouvimo-lo no quarto do hotel, numa tarde quente com o Sol a espreitar convidativo pelas janelas, absolutamente fascinados.
Reproduzimos por memória:
- Em Cuba não existem liberdades fundamentais, há detidos por delito de opinião!? – mais afirma do que questiona um jornalista emproado.
Fidel responde de forma desassombrada que o povo cubano, todo o povo cubano, tem direito à assistência materno-infantil, à escolaridade obrigatória, a um emprego com dignidade, à protecção na doença, ao apoio na velhice, esteja ou não de acordo com a orientação socialista da revolução cubana. Mas não há direito à exploração do trabalho, não há direito à agiotagem e à especulação, à corrupção e ao enriquecimento ilícito, ao tráfego de pessoas ou de drogas, à subjugação e à discriminação sexual, ao racismo e à xenofobia. Não há direito ao crime organizado, e questiona assertivo: “Diga-me como é no seu país?”. Conclui peremptório que em Cuba como em qualquer estado de direito, quem se coloca à margem da lei, ou contra ela, quem “traiciona la Pátria”, é punido por actos e factos concretos, não pelo pensamento!
*
Andámos por toda a Havana, livremente, sem nunca ninguém nos questionar: pelo Malecon (cinco quilómetros junto ao nosso Atlântico comum!), para além da foz do rio vigiada por militares (as múltiplas incursões de contra-revolucionários pagos pelos EE.UU), pelos pequenos mercados, pelas farmácias, pelas ruas e praças históricas.
Falámos com gente cordial (simpáticos quando nos sabiam portugueses), alegre, cantando e dançando em cada botequim ou bar de rua. Vimos prateleiras de medicamentos vazias (o terrível bloqueio!), montes de fruta fresca a baixo custo (os cubanos tinham um caderno de registo).
Pediram-nos gorjeta no Museu da Revolução (ganhamos pouco!...): “Julgam que em Portugal somos ricos e que não há pobreza na Europa?!”.
Numa “Fiesta” a caminho da contra-costa (visita à Baía dos Porcos no Caribe), o vocalista negro e baixote, quando acabaram as boas-vindas cantadas, sabendo-nos portugueses (os únicos no autocarro modesto), fez uma “festa” com o prémio Nobel, José Saramago, e com o presidente Jorge Sampaio, “grandes amigos de Cuba!”.
No hotel o empregado que corta a fruta fresca nas refeições matinais, quer saber se o Barreiro, junto a Lisboa, fica do lado da Amadora ou de Setúbal (!?).
- Já esteve em Portugal?
- Não! Nunca saí de Cuba, mas gosto muito de Geografia!
O jovem responsável da animação no hotel (de grande nível com apenas quatro estrelas) mostra-se ansioso, gosta de calças de ganga de marca e gostava de uma carreira na América:
- E então, porque não?
- Estamos lixados!...
Ambígua a resposta, inconfessáveis as ambições. A juventude cubana está com a revolução?
O turismo movimenta muito dinheiro, aparentemente mais fácil, e a restante economia?
*
Na televisão, ao fim de quase duas horas de entrevista de nos encher a alma (Cuba é possível!), última pergunta de um painel quase rendido:
- Qual será o futuro da revolução cubana quando o senhor, enfim…se finar?
Fidel Castro, sem tibiezas, afirma que o povo cubano tem a revolução no coração e crê que o futuro será socialista se o poder político e o Partido Comunista de Cuba não se afastarem donde lhes vem a força e a legitimidade, do povo cubano heróico que derrotou o colonialismo norte-americano e os fantoches ao seu serviço e construiu o seu próprio caminho!
Perguntamos ao guia turístico, rapaz-novo :
- Como é possível um povo instruído, culto, alegre, mas com tantas dificuldades de sobrevivência, resistir ao vizinho Estados Unidos da América (a 150 milhas!), rico, capitalista poderoso, imperial, embora profundamente ignorante?!...
- Não é fácil! Temos a memória histórica e o dinheiro não é tudo na vida!
Não percam a memória companheiros!
E nós também não!
HASTA LA VICTÓRIA, COMANDANTE!

27/11/2016
Armando de Sousa Teixeira

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