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Quotidianos

De «Os Betes» ao «Perspectiva»Por Vítor Ferrão
Barreiro

. La Fora a Cidade" e "Os Homens da Minha Terra" poemas de José Beiramar

O Perspectiva foi o primeiro grupo português a fazer deslocar uma unidade de exteriores da RTP chefiada pelo apresentador Eládio Clímaco para gravar um extracto do concerto onde pela primeira vez tocamos em directo o “La Fora a Cidade” .

Hoje passados 40 anos é com satisfação e orgulho que reparo que o Perspectiva continua a ser recordado por imensa gente e não só no Barreiro.

9 min de leitura
De «Os Betes» ao «Perspectiva» Por Vítor Ferrão Barreiro

Por Jornal Rostos

Caros amigos sou Victor Ferrão, musico, baterista e entre outros fui fundador do grupo “Perspectiva”. Estando entretido a navegar por noticias antigas deparei com uma noticia do dia 6 de novembro de 2010 do vosso jornal a qual me chamou a atenção em parte pela razão do desabafo do Luis Miguel e por outra parte pela ignorância mostrada pelo Daniel (penso que neto do Agostinho Loureiro). É grato passados tantos anos ver como o Perspectiva segue nas memorias de tanta gente. infelizmente algumas bastante desvirtuadas, por isso sinto-me com a obrigação de dar a conhecer a verdadeira história do Perspectiva.

Esta história teve inicio no ano de 1962 quando eu juntamente com o Agostinho Loureiro, o Carlos Bravo, o Jorge Colaço e o Orlando Nunes formamos o primeiro grupo de rock do Barreiro a que demos o nome de "Os Betes". Este grupo manteve-se actuando por todo o pais até 1966, a partir daí mudou o nome para Step Five passando a integrar os seguintes elementos: Agostinho Loureiro viola baixo, Victor Ferrão bateria Orlando Nunes vocalista, José da Vinha guitarra ritmo e Gualter Vieira guitarra solo, este grupo compos 4 temas originais em inglês, estes temas foram gravados em fita magnética e transmitidos pela emissora Rádio Renascença. Pouco tempo depois o grupo dissolveu-se ao serem os seus elementos mobilizados para a guerra no Ultramar.

Em 1970 esperando pelo Orlando Nunes, eu e o Agostinho Loureiro juntamente com o Carlos Bravo, o Carlos Silva e o José Popi, formamos um grupo a que demos o nome de "Esquema".este grupo durou cerca de um ano tendo feito variadíssimas actuações.

Em 1972, eu o Agostinho Loureiro, e o Orlando Nunes, convidamos o Carlos Viana e o Victor Santinho e formamos o grupo "Plexus", o qual foi apresentado na Sociedade "Os Penicheiros" num espectáculo em que também actuaram como convidados o Jorge Palma e os Ferro e Fogo. O Plexus teve como colaboradores em vozes o Rui Belo Ferreira e em Artes gráficas o António Vieira da Silva (Tóni).Por motivos estritamente comerciais tive que mudar o nome ao grupo tendo no final do ano de 1973 passado a chamar-se "grupo Perspectiva".

Em 1974, com a saída do Orlando Nunes, este foi substituído pelo Júlio Lourenço. tendo também entrado para o grupo o António pinheiro da Silva, como guitarrista e flautista.

Começamos aqui a compor musicas em português, sendo o primeiro tema o "La Fora a Cidade". O autor deste poema assim como "Os Homens da Minha Terra" foi o Poeta José Beiramar, sendo coautores das musicas o Tó Pinheiro, O José Popi, O Carlos Viana E o José Manuel Pereira que tinha entrado para o grupo juntamente com o Luis Miguel da Luz, Entretanto já se tinha dado a saída do Carlos Viana.

Passou então o "Perspectiva"a ter a formação definitiva e que viria a gravar o primeiro single, composta por: Tó Pinheiro da Silva guitarra solo e flauta, José Pereira guitarra ritmo, Luis Miguel Luz guitarra baixo, Victor Ferrão bateria, Victor Real vocalista.

Este disco teve a colaboração como musico convidado tocando teclas do Carlos Viana.

Por esta altura era o "Perspectiva" um dos grupos fortes no panorama musical nacional actuando por todo o país. Seguidamente começámos a preparar o segundo single "Rei Posto Rei Morto e "o Oitavo Sorriso", entretanto já estava no grupo o Firmino Pascual como percussionista. Também já estávamos a elaborar a obra de longa duração intitulada "A Quinta Parte do Mundo", esta obra era composta por 6 temas: "O Norte", "O Sul" "O Este", "O Oeste", "A Primeira Flôr" e "A Quinta Parte do Mundo". Nesta obra teve especial participação do José Beiramar, o António Cabós e a Carla Marina Santos. Gravamos então o segundo single e infelizmente nunca gravamos a obra de longa duração porque segundo a nossa discográfica Imavox os custos de produção eram enormes e o baixo nível de vendas dos grupos portugueses nessa época não dava para rentabilizar os custos de produção. Informo que o nosso primeiro single após esgotar a primeira edição levou à saída de uma segunda edição.

Em todo este percurso entre "Os Betes e o "Perspectiva" existiram acontecimentos que merece a pena realçar.

Em 1964 " Num concurso de Musica Rock realizado no Cinema Ginásio da Cuf no Barreiro onde participaram os grupos Os Jets de Lisboa, Os Claves de Lisboa, Os G B 4 de Setubal, Os Caveiras do Montijo e Os Betes do Barreiro, estes tocaram um tema intitulado "Vamos Dançar Amor" com letra de Victor Ferrão e musica de Agostinho Loureiro, este foi um dos primeiros temas originais cantado em português por um grupo de rock em Portugal.

Mais tarde o Perspectiva foi o primeiro grupo português a fazer deslocar uma unidade de exteriores da RTP chefiada pelo apresentador Eládio Clímaco para gravar um extracto do concerto onde pela primeira vez tocamos em directo o “La Fora a Cidade” o qual foi transmitido no dia seguinte nos noticiários. Também foi o Perspectiva o primeiro grupo em Portugal a gravar um single em «estériofonia», foi também o primeiro grupo em Portugal a participar num concerto acompanhado por uma orquestra tocando os seus temas originais, ocorreu nas ruinas do Convento do Carmo em Lisboa juntamente com a Orquestra da Rádio Difusão Portuguesa, concerto dirigido pelo maestro Tavares Belo estava-mos no ano de 1977.

A minha saída do Perspectiva deu-se no principio de 1978, tendo sido substituído pelo Raul Rosa ex baterista dos Tantra.

Hoje passados 40 anos é com satisfação e orgulho que reparo que o Perspectiva continua a ser recordado por imensa gente e não só no Barreiro.

Contudo é com bastante pesar que tenho assistido a diversas publicações que deixam no esquecimento os elementos fundadores do grupo que não chegaram a gravar, quando foram eles juntamente comigo que começámos por projectar o Perspectiva ao nível mais alto daquilo que então se fazia no rock português.

Sou ciente que após a minha saída do grupo e com o regresso do Carlos Viana, a entrada definitiva do Firmino e do Raul Rosa o grupo melhorou em termos qualitativos, só foi pena que aparte bastantes grandes actuações que fizeram, não tenham sabido dar continuidade ao trabalho que vinha da retaguarda, tendo o grupo indo-se definhando, não só por falta de criatividade, como também pela sucessiva troca de elementos que levou a uma falta de sentido de grupo e consequentemente á lógica saturação que arrastaria o grupo para a sua extinção no final de 1979.

Em 1982 tentei reagrupar o Perspectiva, aderiram á idea o Carlos Viana, o Victor Real, e convidamos para o novo projecto o Eduardo Quaresma como guitarra solo e o José João Alves como viola baixo. Apresentamos o novo Perspectiva na Sociedade Os Franceses no Barreiro, iniciou este concerto o grupo T N T da Baixa da Banheira liderados pelo guitarrista e vocalista Ricardo Landu, o Perspectiva na sua actuação interpretou os temas antigos e novos temas originais.

Passado pouco tempo organizamos um novo concerto no pavilhão desportivo da Quimigal no Barreiro, também actuaram juntamente com o Perspectiva a Banda Atlantida liderada por Lena D´Água. Após este concerto, por divergências de opinião do rumo que o grupo deveria seguir demos por terminado o nosso trabalho, sendo definitivamente o fim do Perspectiva.

Aproveito para recordar os elementos que com a sua dedicação e entusiasmo colaboraram connosco nos trabalhos de som, iluminação e transportes, foram eles: O Fernando Silva técnico de som (infelizmente já falecido), o Luis Aranha, o Adriano Real, o Guilherme Cruz, o Pires, o Helder Picanço todos eles técnicos de iluminação e efeitos especiais, o Manel da carrinha para transportes, para todos eles o meu agradecimento e a minha sincera amizade.

Não posso finalizar esta minha exposição sem uma menção especial para com todas as colectividades que connosco colaboraram: Grupo Desportivo Operário do Barreiro onde começaram a ensaiar “Os Betes”, Club 22 de Novembro onde ensaiou o “Step Five”, Sporting Clube Lavradiense onde ensaiou o “Esquema, Sociedade de Instrução e Recreio Barreirense “Os Penicheiros” onde ensaiou e se apresentou o “Perspectiva”, a Sociedade Recreativa do Alto da Paiva, o Ginásio Atlético Clube Banheirense, Sociedade o Chinquilho da Baixa da Banheira onde também ensaiou o Perspectiva, o Futebol Clube Barreirense que nos cedeu o ginásio para a apresentação ao público do disco “La Fora a Cidade”, ao Grupo Desportivo da Quimigal que nos cederam o ginásio para o concerto do novo Perspectiva e finalmente à Sociedade Democrática União Barreirense “Os Franceses onde também ensaiamos e que durante 3 anos consecutivos nos cederam o seu salão para realizarmos o “Festival de Outono”, sendo as receitas dos mesmos destinada ´”À Casa dos Rapazes do Barreiro”.

Para terminar gostaria que esta minha exposição evitasse futuramente a publicação de opiniões e noticias faltas de credibilidade, por vezes têndenciosas e por pessoas que sem nenhum conhecimento em relação ao que foi o Perspectiva tomam a liberdade de as publicar.

Tenho o orgulho e a convicção de manifestar que o Perspectiva merece ser tratado com o máximo respeito pois estou certo que todos os músicos que por ele passaram deram sempre o seu melhor, e posso afirmar que o Perspectiva sem nunca ter sido influenciado por nenhuma ideologia sempre teve por bandeira a defesa e a critica consciente ao meio social em que vivíamos.

Deixo aqui o meu muito obrigado a todos os músicos , colaboradores e amigos que me acompanharam nesta viagem, e também aos nossos seguidor e amigos, fãns, pois sem eles, sem o seu carinho, nunca teríamos atingido aquilo que atingimos.

Deixo aqui também a minha imensa mágoa pela ausência entre nós de três grandes amigos, três excelentes músicos e vocalistas que foram: o Jorge Colaço, o Orlando Nunes e o Victor Real, sempre estarão presentes na minha memória e no meu coração. Em breve vos darei da minha parte novidades musicais.

Até sempre.
Vítor Ferrão

Foro - Os Betes 1962

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