A MEMÓRIA REDUZIDA A ESCOMBROS NÃO APROVEITA A NINGUÉMPor Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Por Jornal Rostos
Quando há dez anos escrevemos a propósito da alienação das fábricas do Lavradio pela família Mello (que as tinha recebido de mão – beijada do ministro Augusto Mateus, no governo de António Guterres), que o patrono Alfredo da Silva estaria “ às voltas na tumba”, a metáfora foi aproveitada por alguns para evidenciar a importância do homem e da “sua obra”.
Voltamos à metáfora para ilustrar a nossa preocupação em relação à destruição do coração do Centro Histórico do Complexo Químico – Industrial da ex-CUF/ Quimigal, pela administração da actual Baía do Tejo / ex- Quimiparque.
A “obra” foi construída com o esforço e a inteligência de milhares de operários, empregados e técnicos e a memória não se reduz ao culto saudosista da personalidade “messiânica” do empreendedor e vai muito além do que se guarda em espaço confinado, pomposamente chamado museu industrial.
Da memória do trabalho criador, do esforço e do sacrifício dignificante, da resistência e da luta heróica e da produção valiosa, falam as fábricas ainda em laboração (memórias vivas), os edifícios em utilização ou devolutos, as ruas, as praças, as áreas, todas contando uma história riquíssima e inalienável.
A decisão de destruição de vários edifícios históricos, nas ruas da União e da CUF, pela referida Baía do Tejo, uma empresa pública com obrigações de escrutínio, suscita a nossa viva discordância por seis razões principais:
• O reperfilamento das ruas da União e da CUF, não exigia o desmantelamento dos edifícios da Direcção das Fábricas e do Posto Médico, porque os passeios para a circulação de peões podem ser feitos no “interior”, com grandes espaços inaproveitados para zonas de lazer e de uso comunitário.
• Qualquer que seja a estratégia para o desenvolvimento futuro da área da ex-CUF/Quimigal, a existência de um Centro Histórico integrado e visitável, é um factor de promoção da cidade e de rendibilidade económica. O turismo cultural/vocacionado é hoje uma realidade.
• A abertura da área industrial à cidade, com a criação de espaços fruíveis, deve ser feita com o respeito integral da memória inspiradora e dos seus sítios mais paradigmáticos. O que não significa racionalmente que tudo tenha de ser preservado.
• A história grandiosa e riquíssima da Área Química-Operária Industrial (como da Área Ferroviária!), não é arrumável/resumível a espaços confinados, por muito interessantes que sejam os salvados e a sua interpetação organizada. É como Centro Interpretativo aliás que deverá funcionar o denominado Museu Industrial, com profissionais qualificados.
• O levantamento já feito pela Direcção Geral do Património ( ex-IGESPAR) sobre vários espaços/sítios museológicos nesta área, deverá ser complementado urgentemente e elaborado/aberto o respectivo processo de classificação. Algumas sugestões a ponderar entre outras : Porto e Guindastes; Silo do Enxofre; Chaminés dos Contactos; Silo do Sulfato de Amónio; Esfera de Amoníaco; Ramal Ferroviário interno (em parte); Edifícios da Zona Têxtil (parte); Bairro de Santa Bárbara; Mausoléu de Alfredo da Silva; Fábrica de Óleos (Smet - o que resta); Casa Alfredo da Silva; Quartel da GNR; Edifícios de tijolo burro (vulgo "comboio"); Fábrica Fosfato Dicálcico (elementos); Central de Vapor nº3 (ex-reservas).
• Nunca nada de verdadeiramente importante/determinante se constrói sobre escombros e nada de bom surge da terra queimada. O novo deverá ser erigido aproveitando o que o velho tem de meritório!
O futuro é um projecto decidido no presente, com sentido e critério evolutivos, aprendendo e apreendendo os ensinamentos do passado.
Barreiro, 6/4/2017
Armando Sousa Teixeira














