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Uma crítica ao Projecto de Porto para o Barreiro no âmbito da discussão pública do Estudo de Impacto Ambiental.Por Pedro Canário
Barreiro

A nossa avenida vale mais que que os quinhentos postos de trabalho prometidos, mais do que cinco mil que fossem, não tem preço, porque pertence a uma cidade de gente que já não se resigna perante imposições intoleráveis.

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Uma crítica ao Projecto de Porto para o Barreiro no âmbito da discussão pública do Estudo de Impacto Ambiental. Por Pedro Canário Barreiro

Por Jornal Rostos

O Parque Ribeirinho Augusto Cabrita situa-se na zona marginal do Barreiro sobre o Rio Tejo, onde anteriormente se situava a antiga Praia da Bela Vista. Autêntica varanda do Tejo, oferece uma excelente vista panorâmica para a outra margem, desde a Ponte 25 de Abril até à Ponte Vasco da Gama, nomeadamente sobre o Mar da Palha.

Texto da CM Barreiro

Uma crítica ao Projecto de Porto para o Barreiro no âmbito da discussão pública do Estudo de Impacto Ambiental.

O projecto de porto para o Barreiro, porto de águas profundas e para contentores, tem em discussão pública o Estudo de Impacto Ambiental.
Ao ver a configuração do porto, senti um misto de desgosto e de revolta. Como é possível em pleno século 21 conceber-se tamanha agressão ambiental e tamanha agressão aos homens e mulheres que residem neste concelho.
Com a segunda fase, a saber, quase mil metros de cais, estende-se inexoravelmente em frente da única avenida que o Barreiro tem que margina o Tejo, e de onde se disfruta a visão magnifica do estuário e o deslumbrante conjunto da cidade de Lisboa.

Este panorama magnífico mil vezes fotografado pelo saudoso Augusto Cabrita que o descreveu com tanto amor e exaltação, estaria definitivamente destruído e substituído por uma parede de betão e aço ruidosa, agressiva, medonha e infame.
A Avenida Bento Gonçalves é mais conhecida por avenida da praia, porque ela está feita onde era a praia do Barreiro, aquela onde vinham disfrutar da sua beleza ricos burgueses dos arredores e mesmo do Alentejo e até a própria corte, e que, dizem, era conhecida por praia da bela vista.
A praia já não existe, deu lugar a um bonito jardim com um passeio junto à muralha onde muitas pessoas passeiam, correm e limpam a vista na sua bela paisagem. Outros sentam-se contemplam o estuário na sua imponência, qual mar interior que se aconchega entre o Barreiro e Lisboa, e aí limpam também a alma.

Este sítio único no Barreiro, tem um lugar no coração dos barreirenses, é o passeio dos namorados, dos idosos, das crianças que ali brincam, enfim, das famílias que ali descansam apanhando a fresca brisa do Tejo com o seu cheiro a maresia, agora depurado dos maus cheiros dos esgotos que antes ainda aí corriam.
É, pois, um lugar ambientalmente privilegiado. Um ex-libris da cidade, um sitio onde levamos os que nos visitam e que se espantam com a formidável vista da Lisboa.

É, pois, esta avenida, que a obra proposta nas suas duas fases, irá definitivamente ocultar, ocultando assim o rio, Lisboa, substituindo o cheiro da maresia pelo dos óleos dos motores, a calma e o barulho das ondas a bater na muralha, pelo ranger estridente das engrenagens (o mapa de ruído é alarmante), matando a poesia roubando-nos a alma e condenando o Barreiro ao inferno de uma parede de betão, cheia de “caixões” gigantescos de aço, num enterro macabro da identidade de uma terra.

Esta obra não tem coração porque é má para nós barreirenses, para as nossas crianças, para os jovens namorados, para todos os que bem cedo se enamoraram daquele sítio, para os nossos idosos, para os nossos pescadores da muralha, para as nossas famílias.

Esta obra é perversa, porque na promessa de o porto ser um factor de progresso, querem-nos fazer pagar um preço tão doloroso que é impossível de ser aceite.
Hoje em dia o conceito de desenvolvimento sustentado em nada tem a ver com a forma como no século passado se viam as questões do desenvolvimento.

Recordo-me quando nos anos sessenta esse novo sentimento perpassou pelo coração dos barreirenses, quando ergueram a sua voz contra a poluição. Recordo ainda que o presidente da Câmara da altura teve uma célebre frase que foi se bem me recordo foi “ou querem couves ou gases”, melhor dizendo se querem empregos têm que gramar os gases se não voltem para a terra e comam couves.

Esta retórica antiga e brutal repete-se neste projecto: se querem porto desistam da avenida, fiquem com a sua vista amputada parcial ou totalmente e voltem a ter o ruído de fundo do funcionamento do porto no vosso dia a dia, como antigamente suportaram o barulho de fundo da fábrica.
Novos projectos as mesmas soluções e é se querem.

Hoje o desenvolvimento respeita as condicionantes ambientais patrimoniais, paisagísticas entre outras, só assim começamos a falar de desenvolvimento sustentado.
Enquanto Lisboa qualifica a sua imensa frente ribeirinha O Barreiro veria perder o pouco que tem.
Esta obra, com este desenho, é proposta por gente insensível, ou que nunca ali se sentou a ver o Tejo.
Esta obra é ofensiva porque falta ao respeito ao Barreiro e aos barreirenses.
Este porto nestas condições não pode ser aceite.
Se não querem ou não sabem desenhar alternativas de projecto que respeitem e protejam a nossa avenida, então não o façam.

A nossa avenida vale mais que que os quinhentos postos de trabalho prometidos, mais do que cinco mil que fossem, não tem preço, porque pertence a uma cidade de gente que já não se resigna perante imposições intoleráveis.
O projecto na sua primeira fase já se intromete na paisagem de forma igualmente exagerada e inaceitável, pelo que deverá remeter-se ao previsto no Plano de Urbanização da Baía Tejo proposto pela CMB, que foi amplamente discutido e divulgado, e que teve consenso geral. Aliás é nesse contexto que muita gente pensava que o porto estaria a ser projectado (então o projecto não é lá para a quimiparque???), mas não tiveram esse cuidado.

O Plano de Urbanização desenhado pela CMB e que previa já um porto de grande dimensão (não se falava dos contentores em grandes quantidades), continha ainda uma barreira verde que o isolava visual e acusticamente, e com um tratamento paisagístico de grande qualidade que está no limite do aceitável.

O alinhamento com o “clube de Vela” da 1ª fase do projecto agora em apreço é criminoso.
Este projecto está despido de quaisquer cuidados, é rude e violento, com era a fábrica quando as sacas de adubo vergavam as costas dos homens.
Este projecto merece repúdio total. Um porto pode ser bom, mas com um bom projecto. O impacto ambiental é insuportável e tem nota negativa, (mau menos, como era no meu tempo de escola).
Quem o fez não seguiu o exemplo que um jovem português há pouco tempo nos deu: “amar pelos dois”.

Barreiro, 16 de junho de 2017

Pedro Canário
(presidente da Câmara Municipal do Barreiro de jan. de 1990 a fev. de 200

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