Galvão, tradutor de O´NeillPor Pedro Ventura
Barreiro

Por Jornal Rostos
Foi um dos cadetes da revolução de Sidónio Pais, tendo assumido, então, o cargo de administrador do concelho de Montemor-o-Novo, cargo que ocupou até à morte daquele. Entusiasta da revolução de 28 de Maio de 1926, foi governador de Huíla (Angola), director da Exposição Colonial do Porto (1940), director da Emissora Nacional de Radiodifusão. Pessoa da total confiança de Salazar, durante a II Guerra Mundial o ditador escolhera-o para agente de ligação com as tropas inglesas acantonadas em Singapura, com vista a uma possível invasão de Timor. Possuía o grande-oficialato das ordens de Cristo e espanhola da República, o oficialato de Avis e a comenda de Leopoldo II da Bélgica. Um telefone directo ligava a sua casa da Avenida 24 de Julho à residência do presidente do Conselho. No dia 27 de Fevereiro de 1935, após sabotagem da energia eléctrica, deixando parte do Barreiro às escuras, uma bandeira vermelha foi colocada no alto da chaminé alta das oficinas do Caminhos de Ferro, por lá ficando uns dias ao vento. Em anos de lutas operárias e repressão, Henrique Galvão ganhava prémios de literatura colonial: «O Velo de Oiro» (romance, 1932), «Da Vida e da Morte dos Bichos» (4 volumes de subsídios para o estudo da fauna de Angola e notas de caça, 1934), «Terras do Feitiço» (contos, 1934), «O Sol dos Trópicos» (romance, 1936)... No início da década de 50, desilude-se com o regime de Salazar e começa a conspirar com outros militares. Descoberto, é preso e expulso do exército. Nos escritos do Aljube descreve o Portugal de sempre, uma “propaganda, gastando o dinheiro da Nação, que faltava nos hospitais e nas escolas, a avolumar e defender a colossal mentira que já era a administração, os homens, as leis, a própria paz em que se dizia que vivíamos”. E 1959, juntamente com Humberto Delgado e oposicionistas espanhóis, sobretudo galegos (em 1933, tinha publicado o estudo «Galicia en el poblamiento de las colonias portuguesas»), funda o Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL). A acção mais importante do DRIL foi o assalto ao paquete Santa Maria. Galvão preparou-a no exílio, em 1961. Controversa (controverso Galvão, fascista arrependido como o chegaram a chamar), ficaria conhecido sobretudo por ela (a que deu o nome de Operação Dulcineia). Cosmopolita, foi de explorador-naturalista a escritor, inquieto. E tradutor. Em Abril de 1942, o nobelizado Eugene O´Neill (1888-1953) foi pela primeira vez representado e publicado em Portugal, pela mão de Galvão. A tradução da trilogia «Mourning Becomes Electra» (baptizada «Electra e os Fantasmas»), publicada pela Livraria Popular Francisco Franco, inauguraria uma série de oito, publicada nos anos subsequentes: «Além do Horizonte» («Beyond the Horizon»), «Ana Cristina» («Ana Christie»), «Marco Milhão» («Marco Millions»), «Lázaro Riu» («Lazarus Laughed»), «Inseparáveis» («Welded»), «Todos os Filhos de Deus têm Asas» («All God´s Chillun Got Wings») e Sete Peças do Mar («The Moon of the Caribees»). Em projecto e nunca publicadas ficaram «Strange Interlude», «Ah! Wilderness», «The Emperor Jones (talvez a preferida de Galvão), «The Straw», «Diff´rent», «The Hairy Ape», «The First Man», «Gold», «Desire Under the Elms», «The Great God Brown», «The Fountain», «Before Breakfast», «The Dreamy Kid», «Dynamo» e «Days Without End». As traduções livres do teatro de “Eugénio O´Neill” sofriam de má revisão dos textos, como demonstra uma passagem de «Lázaro Riu», página 159: “Na verdade, fui eu quem com o meu desprêzo pela humanidade fêz de mim êsse homem desprezivel como o mais desprezivel dos suinos. É verdade. É verdade! Em todo o Império não há homem que mais se pareça com uma besta imunda do que eu! (Com uma risada amarga e irónica) E aqui está, ao menos, um título que ninguem me contestará – o de primeiro Suino do Império. Como tal não há ninguém que duvide que me pentence de direito a posição de César!” O que levou Galvão a trabalhar O´Neill? O “momento cruciante de uma Civilização em que o alcance e os resultados das suas criações espirituais parece abrir falência”, como escreveu no prefácio de «Electra e os fantasmas... Estas traduções continuam a ser objectos esquisitos. Henrique Galvão morreu em São Paulo, em 25 de Junho de 1970, com a doença de Alzheimer.
Pedro Ventura














