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Quotidianos

Uma jovem, uma criança e um HOMEMPor Ana Porfírio
Barreiro

Se as suas convicções estão certas estará junto com o Deus, que era amor, solidariedade e perdão em que acreditava, será recebido com um abraço.
Dele guardo as acções mas também as palavras “Aninhas, Deus só nos dá os fardos que sabe que podemos carregar!”

4 min de leitura
Uma jovem, uma criança e um HOMEM Por Ana Porfírio Barreiro

Por Jornal Rostos

Eu era jovem, muito, ainda nem tinha filhos, meti-me numa aventura com outras mulheres mais velhas, uma professora, uma médica, uma assistente social e uma enfermeira, formámos o que hoje tem o nome de Comissão de Proteção de Crianças e Jovens.
Ninguém nos deu o cargo, não tínhamos instalações, nem meios financeiros que não fossem os nossos salários, nem mais nada a não ser a revolta de ver crianças mal tratadas pela vida e a incapacidade de ficar indiferentes.
Nunca discutimos entre nós opções políticas, ainda hoje não sei de algumas, de outras sim, discutíamos política aplicada ao dia a dia, o desemprego, a falta de meios, a falta de cuidados de saúde, o vazio de certas coisas.
Neste caminho encontrámos um menino, sem pai, abandonado pela mãe, a cargo de um irmão adolescente que consumia heroína e nos intervalos de lucidez cuidava dele.
Era um menino…8 anos!

Tinha piolhos, calçava sandálias no inverno, tinha as vacinas atrasadas, comia na escola e pouco mais exceto nos momentos em que o irmão o encharcava de chocolates, donuts e coisas assim, não tinha hábitos de higiene, e tinha uma falta de carinho tremenda.

Não vou escrever o nome dele, até sei que vai ler e até sei que me vai mandar uma mensagem privada.
Sei que a primeira vez que o abracei se colou a mim como uma tábua de salvação, sei que chorei porque o primeiro impulso era pura e simplesmente ficar com ele, as outras mais calejadas dissuadiram-me, mas nunca desistimos dele.

Durante uns tempos arranjamos uma rede que lhe dava banho, arranjámos material escolar, refeições regulares, foi às vacinas, ao médico, conseguimos falar com o irmão entre “pedradas”, conseguimos falar com a mãe na mata onde se prostituía, conseguimos brinquedos, fins-de-semana alternados em casas de colegas, escova de dentes, cortes de cabelo, prendas de aniversário e bolo e tudo o mais.

Apresentámos a situação em todas as instâncias e a resposta que chegou deixou-nos sideradas, devíamos entregar a criança num Colégio para Deficientes Mentais Profundos, era onde havia vaga, lá iria ficar até atingir a maioridade, não conseguimos dormir, todas sabíamos que a criança em pouco tempo poderia fugir, acabar nas ruas, adivinhávamos um ciclo sem fim como uma herança de pessoa amputada nos sonhos, no sorriso na vida!

Uma dessas mulheres propôs pedirmos uma audiência, a um Homem, um homem de fé, da Igreja Católica, um homem que nunca se calou com injustiças, que apontou o dedo, que praticou a fé em que acreditava em toda a plenitude.
Eu fui, eu agnóstica, eu desconfiada, eu revoltada, fomos recebidas, ouviu-nos como os avós escutam, franziu o sobrolho, ofereceu-nos biscoitos e um cálice de licor e em 24 horas arranjou um local, onde entregámos a criança, um local onde meninos assim podem crescer e ser adultos, pessoas inteiras com sonhos e sorrisos.

Duas dessas mulheres já partiram, fomos amigas até ao fim, ensinaram-me a crescer, uma foi para longe, a outra octogenária mas lúcida abraça-me com o carinho de sempre, nunca perdemos o rasto do “nosso” menino, que cresceu, se fez homem e é pai, trocamos mensagens e chama-me tia com o sorriso travesso dos seus 8 anos, os abraços que damos quando nos encontramos são emotivos.

O Homem, ajudou muitos meninos, quebrou convenções mas nunca convicções, empenhou-se a fazer do Evangelho algo como um manual prático aplicado ao dia a dia.
Esse homem, D. Manuel Martins, morreu hoje.

Se as suas convicções estão certas estará junto com o Deus, que era amor, solidariedade e perdão em que acreditava, será recebido com um abraço.
Dele guardo as acções mas também as palavras “Aninhas, Deus só nos dá os fardos que sabe que podemos carregar!”

Ana Porfírio

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