Sobre o processo Autoeuropa VolkswagenO antes e o agora, falta o depois!
Por Fernando Sequeira
Palmela

Por Jornal Rostos
Em 2010 e 2011 a empresa admitiu, várias centenas de trabalhadores temporários para conseguir fazer 130 000 carros, em 2012, a empresa informou que a produção ia baixar cerca de 30 000 carros nos anos seguintes, pelo que havia pessoal em excesso, a CT onde me integrava reivindicou a passagem dos trabalhadores para o quadro da empresa, com o argumento de que todos faziam falta para enfrentar o futuro, nesse mesmo ano, com a ajuda da CT alemã, voluntariamente foram trabalhar para a Alemanha cerca de 400 trabalhadores, a maioria com contratos a prazo, tendo passado a efetivos mesmo deslocados, e tivemos ainda necessidade de trabalhar aplicando os Downdays (dias de paragem de fábrica).
A redução de Eos, Scirocco e MPV continuava, e a CT procurava por todos os meios ajuda dos elementos da CT alemã no conselho Fiscal para a vinda de um novo produto para Portugal. Simultaneamente a administração alemã exigia a garantia de que produziríamos todos os carros necessários.
Foram feitas algumas exigências, por parte da administração em Portugal, para concorrer ao novo produto, como a manutenção do salário de admissão até final Setembro de 2018.
Nesse sentido, a CT na sua totalidade assinou, depois de aprovado por mais de 76% dos trabalhadores, o acordo de 2015 onde na clausula 12.1 diz, cito” Para responder aos desafios e necessidades futuras da fábrica, há que considerar a laboração continua”, os alemães continuaram a exigir mais garantias e em Novembro de 2016, todos, os 11 elementos da CT assinaram ainda uma carta de intensões que foi enviada para a Alemanha, em que reafirmámos que produziríamos os carros e discutiríamos durante 2017 o sistema de turnos de laboração continua e respetivas compensações, pois a nossa grande preocupação era a garantia e aumento do emprego.
No final do primeiro semestre de 2017 começamos as negociações, e os elementos da lista C entre eles o dirigente sindical do SITE-Sul, fizeram circular um abaixo-assinado contra a garantia que demos à Alemanha em 2015 e 2016, ou seja, contra a laboração contínua, abaixo-assinado fácil de assinar pelos trabalhadores pois reivindicava o sábado como trabalho extraordinário em regime voluntário, tendo clara consciência de que isso ia contra a criação de emprego reduzindo as admissões em mais de 700 trabalhadores.
Apesar desta demagogia, não desistimos, tendo sempre em mente a manutenção e aumento dos postos de trabalho, num distrito afetado pelo desemprego e exigimos o início das negociações.
Neste processo a Administração da Autoeuropa não está isenta de culpas, pois deixou o processo negocial em “banho maria” durante mais de 14 meses, desde finais de 2015 até meados de 2017, permitindo que o boato e especulação invadissem a fábrica, até porque não é fácil para ninguém que trabalha á 20 anos nesta fábrica de segunda à sexta e agora sem grandes explicações lhe venham dizer, agora começas a folgar a meio da semana e vens trabalhar ao sábado, esta situação é facilmente “inflamável”.
Recomeçamos as negociações com a Administração, em meados de 2017, sob a ameaça de um pré-aviso de greve, com a participação, de um enviado dos R.H. de Wolfsburg, e um representante do Ministério do Trabalho, que duraram na fase final mais de 30 horas.
Os elementos da lista C, afetos à CGTP, estiveram sempre presentes, mas recusaram-se a abrir a boca, fazendo uma declaração inicial dizendo, “vamos ficar na reunião como observadores e em silêncio” ficando como que a fiscalizar as negociações sem participar em nada, contrariamente ao afeto ao outro sindicato que participou, com ideias e experiencias.
Nessas negociações, entre redução de horário semanal, aumento do tempo de descanso no primeiro intervalo, aumento do prémio mensal, a CT conseguiu, garantir a folga fixa em todos os domingos do ano, os feriados que calhem nos dias de semana pagos como trabalho extraordinário, e uma folga variável durante a semana que se por qualquer razão tiver que ser trabalhada seria paga como trabalho extra ao Sábado.
Não posso deixar de referir a nossa oposição à folga rotativa no turno noturno que é grandemente prejudicial para a saúde e que tentamos negociar com a empresa um horário de 17 turnos para que nas semanas que trabalhássemos á noite folgássemos sempre ao sábado e domingo.
Depois das negociações concluídas e tendo toda a informação o SITE-Sul omitiu estes factos, inflamaram a fabrica com o argumento de 6 dias de trabalho (de segunda a Sábado) sem falar em folgas, com o único objetivo de levar à recusa no referendo e à queda da CT, pois esta não poderia continuar perante o trabalho que fizemos os compromissos assumidos e votados por todos em 2015 e o resultado significativamente negativo do referendo, não nos restava outra alternativa.
Não temo a deslocalização, pois isso será uma tomada de decisão da Alemanha e que dependerá do nível e duração do conflito, preocupa-me a afirmação do Sr. Herbert Diess vinda no jornal Expresso cito “ Ninguém vai ficar a dormir, porque todos estão atentos e sabem que a casa-mãe deu um sinal à fábrica e isso significa que depois do Eos, do Scirocco e até depois dos monovolumes, haverá necessidade de produzir novos modelos, e é nessa direção que todas as fábricas olham, sabendo que há novos modelos para produzir depois de 2020”, em meu entender, isto é uma clara ameaça ao nosso futuro.
Os trabalhadores tem razão em ser reivindicativos e defender melhores condições, mas devemos discutir clara e abertamente entre nós, dentro da empresa o que objetivamente queremos.
O objetivo da CT, que ainda represento, e o meu próprio objetivo, foi, é, e será sempre, defender os direitos dos trabalhadores, mas para isso temos que ter trabalho para além dos carros atualmente em produção, pois sem ele não há trabalhadores, a escolha para o futuro será sempre dos trabalhadores, porque aqui os pré-acordos vão sempre a votação por voto secreto.
Fernando Sequeira
Coordenador demissionário da
Comissão de Trabalhadores da Volkswagen Autoeuropa














