Sobre os incêndios florestais e incendiáriosPor Rui Lopo
Barreiro

Por Jornal Rostos
Interesso-me pela natureza desde pequenino, de forma mais consciente desde o início da adolescência, e com opinião politica (entenda-se que não necessariamente partidária) desde os meus 16 anos.
O meu passatempo de observar aves, que em tempos idos foi muito mais do que isso, levaram-me a conhecer praticamente todo o país, alguns locais com muito detalhe e portanto, as nossas serras, os nossos bosques e florestas.
Esta prática e esta atenção sobre os nossos espaços naturais, faz com que não me recorde de nenhum ano em que não me revoltasse sobre o Portugal que invariavelmente arde ano após ano, à vista de todos.
Não acordei agora, não me indigno apenas em 2017. Fi-lo, entre outras, quando uma parte significativa de locais do médio tejo arderam em 2003 de Niza a Proença a Nova, passando por Vila Velha de Rodão, ou em 2005 em parte do Vale do Zêzere na serra da Estrela, ou ainda a serra da arrábida em 2004. E antes disso muitas outras vezes.
Estamos perante uma catástrofe nacional que obrigaria a lucidez, análise critica, firmeza e convicção.
Infelizmente estamos a observar um inaceitável aproveitamento politico e não apenas dos que estão no parlamento, mas de toda a sociedade que assume cada vez mais uma radicalização de posições perigosa e preocupante, em que se critica de forma leviana, só “porque sim” ou só porque a proposta ou a opção vem do outro partido politico.
Assistimos também a uma versão preocupante dos que mediaticamente são “bonzinhos” e que não criticam ou até procuram ser consensuais mas que se fazem rodear de uma horda de opinadores públicos (locais e nacionais), verdadeiramente incendiária, que “bate em tudo quanto mexe”, abrindo portas à tal radicalização de posições, aos ódios, aos boatos e maledicência. Passa-se uma má imagem da politica e de quem a pratica, um caminho perigosamente complexo que me preocupa de sobremaneira.
Pessoalmente não me revejo e afasta-me.
Não podemos “enfiar a cabeça na areia”. O que temos, é e foi da responsabilidade do nosso voto, das escolhas que fazemos, dos caminhos que percorremos como sociedade.
A titulo de exemplo, recordo que em 2001 foi extinta a fundação para a prevenção e segurança, inicialmente criada com o objetivo de trabalhar os conteúdos de prevenção /sensibilização contra os incêndios florestais e posteriormente alargada a questões de segurança rodoviária, e cuja responsabilidade da sua criação foi do então secretário de estado Armando Vara, fundação extinta porque foi dado a conhecer a utilização de verbas para ações que de prevenção já tinham muito pouco, concretizadas muitas vezes em autarquias com finalidades eleitorais.
Ou, sabemos mesmo (?) todos que alguns daqueles municípios – governados por diferentes forças politicas - rodeados de floresta por todos os lados não tinham planos de prevenção aprovados? Não se entenda com isto que estou a responsabilizar os autarcas, é mesmo só para refletirmos se agimos e pensamos com toda a informação necessária.
A verdade é que no “mapa” das alterações climáticas muitas das zonas que arderam nesta fase critica de incêndios florestais estava identificada como zona de risco e de potencial aumento deste fenómeno, sendo informação conhecida técnica e politicamente!
Mas a motivação deste meu texto surge da declaração ao país do Presidente da República na sequência dos malogrados incêndios florestais de Outubro de 2017, sobre a qual procurei guardar a necessária distancia higiénica para que a emoção não se sobreponha na reflexão, particularmente quando é afirmado que “(…) Portugueses houve que não viram os poderes públicos como garante de segurança e confiança (…)”.
Gostava que todos refletíssemos sobre esta frase e a sua aplicabilidade em tantas matérias da nossa sociedade, no apoio social, na nossa justiça, na qualidade ambiental, ou no serviço nacional de saúde (SNS), sublinho este último porque é mais fácil de entender o que quero dizer: porque quando admitimos que existem doentes que não podem ser tratados dentro de um determinado intervalo de tempo, estaremos a conferir-lhes segurança e confiança nos poderes públicos? No mesmo registo, quando o governo de Passos Coelho opta por diminuir os recursos financeiros do SNS (para além ou não dos limites da troika entenda-se) sabia que estava a aumentar a taxa de mortalidade, sendo provável que por essa medida tenham sucumbido mais portugueses por mês no que no total do inaceitável verão / outono de 2017…
Reflitamos sobre o que nos dizem e como dizem, e até, porque dizem. Apuremos sempre as responsabilidades, responsabilizemos os responsáveis, culpemos os culpados com o bom senso que estas coisas obrigam, porque não há ingénuos nem atos únicos. O mais importante de tudo: tomarmos medidas para transformar a realidade no curto, médio e longo prazo. Esta e outras realidades.
Ou então como diz o/a poeta “vão sem mim que eu vou la ter”.














