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Quotidianos

NOITE DE MÚSICA E POESIAPor Armando Teixeira
Barreiro

Se há acontecimentos que marcam uma geração, a sessão de canto e poesia, realizada no dia 11/11/1967 no velho ginásio do Luso, ficará para sempre gravada no coração dos barreirenses. Dos que estiveram presentes como daqueles que depois ouviriam contar, se é que é possível transmitir a emoção até às lágrimas de uma noite memorável.

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NOITE DE MÚSICA E POESIA Por Armando Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

O Boletim informativo do Cine Clube do Barreiro de NOV/DEZ de 1967, insere na página 32 uma notícia sobre a realização de uma “Noite de Música e Poesia”, no dia 11 de Novembro, na sede do Luso, às 21 horas. Acrescenta o boletim: “O Cine Clube do Barreiro, em colaboração com o Luso e Os Penicheiros, realiza uma sessão de música e cantares populares com a presença de: José Afonso, Rui Pato, Carlos Paredes, Fernando Alvim, Mário Barroso, Maria Odete (poesia), Adriano Correia de Oliveira.

O boletim “O Luso”, de NOV/DEZ de 1967, publica um artigo/notícia sob o título: “Cantares e Poesia no Barreiro”, onde se escreve: “… Uma esplêndida noite de São Martinho, que certamente tão cedo não se desvanecerá na memória de todos aqueles que a ela tiveram a dita de assistir”.

O articulista que assina V.B. prossegue numa linguagem poética a descrição da sessão que se iniciou com a Dr.ª Maria Odete a dizer poesia: “Com uma digna presença e uma voz fortemente dramática, deu-nos alguns belos poemas [ … ] Entre eles o conhecido e muito apreciado, “Marcha de Almadanim” de Manuel da Fonseca.
A seguir um momento alto da noite memorável, a actuação de Carlos Paredes e Fernando Alvim, “um autêntico poeta exprimindo poesia em guitarra” (e viola, acrescentemos), que de seguida acompanharam Teresa Paulo Brito, interpretando entre outros temas, “Os verdes anos” e “Summer time”.
O artigo termina dizendo que a sessão encerrou com os poemas da Dr.ª Maria Odete, o que não é rigorosamente verdade.

Embora se refira a presença muito saudada de Adriano Correia de Oliveira e de Mário Barroso, que por razões diferentes não puderam actuar, não é referida a parte mais animada e entusiástica da noite, a actuação de José Afonso, acompanhado por Rui Pato, que levou a numerosa plateia ao rubro ao cantar em coro (por duas vezes!) após insistentes pedidos, os “Vampiros”.
Existe uma explicação para esta omissão involuntária: censura.
*
Por cada intervenção a sala explodia em aplausos e gritos de apoio. Para além dos méritos do cantor, algo mais ali se celebrava. Era Portugal amordaçado abrindo o grito de protesto contra a tirania, pela voz do poeta-cantor que melhor fazia a sua denúncia.

A poesia generosa e revolucionária despertava a vontade de fazer parte do combate à repressão que prendia e torturava a resistência à ditadura. Como de resto também iria acontecer neste caso pois os responsáveis da iniciativa foram detidos pela polícia política nos dias seguintes.

Na plateia um novo grito de juntava, cada vez com mais insistência, conforme as baladas e canções de protesto avançavam na noite. Tanto podia ser interpretado como um pedido como uma acusação ao regime:
- Vampiros! Vampiros!
Alguém da organização explicava no palco ser aquela uma sessão comemorativa do aniversário do Cine-Clube, devendo-se evitar complicações. A resposta da plateia ao presidente, Álvaro Monteiro, foi eloquente, gritando com mais força:
- Vampiros! Vampiros! Vampiros!
O parente José Lucas, que avisara a família da realização da sessão, vindo de Lisboa com o filho Toni (que daria o “salto” para França, pouco depois), comentava judiciosamente:
- A canção está proibida! É um risco desnecessário cantá-la! Não insistam!

Ouvindo o reparo contrariador, mais vezes se juntaram ao imenso coro e o poeta cantou, com centenas de gargantas embargadas de emoção:

“Se alguém se engana com seu ar sisudo,
E lhes franqueia as portas à chegada,
Eles comem tudo, eles comem tudo!
Eles comem tudo e não deixam nada!

Se há acontecimentos que marcam uma geração, a sessão de canto e poesia, realizada no dia 11/11/1967 no velho ginásio do Luso, ficará para sempre gravada no coração dos barreirenses. Dos que estiveram presentes como daqueles que depois ouviriam contar, se é que é possível transmitir a emoção até às lágrimas de uma noite memorável.

Armando Teixeira

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