Reabilitação Urbana: Oportunidade para o Barreiro – IIPor Rui Lopo
Barreiro

Por Jornal Rostos
Ora, tendo um país de baixos rendimentos e pensões e também por isso, de incapacidade de estimular rendas suficientes para que o mercado funcionasse, um país que estimulou a construção nova para alimentar a banca privada, um país que foi perdendo funções económicas e por isso foi perdendo população, particularmente activa e que degenerou na caricata estatística de haver mais casas que pessoas, como podia (até aqui) e pode (doravante) o Barreiro ser contra corrente, desta realidade nacional, estando apenas a 30 minutos (média) da capital do pais, com tudo o que isso tem de bom (estar ao lado de algo bom pode só por si trazer vantagens, quando mais não seja por despertar atenção e curiosidade), ou de mau (pela capacidade de absorção de valor que Lisboa produziu em diferentes momentos da sua história).
Não é possível, deixar de sublinhar com o rigor possível um conjunto de factos que nos trazem ao que temos e que somos. Não pretendo com isto elaborar uma tese, mas com o rigor intelectual de conhecermos que, com um mau diagnostico podemos estar a tomar um comprimido errado, ou não fosse o ditado tão certo quanto “não morres da doença, morres da cura”. Quer isto dizer que por mais “enfadonho” que seja o conteúdo, muito pouca coisa acontece por acaso, e se não resolvermos o acaso, não influenciaremos o nosso rumo, claro está, de uma forma estruturada, perene e, portanto, menos panfletária ou maquilhada.
Posto isto, é absolutamente indispensável que nesta “Oportunidade para o Barreiro” se perceba porque é que ainda não o foi, tal como a “pescada”.
Factor determinante é a analise empírica da realidade sócio-económica do concelho durante a evolução desta realidade de habitação / cidades / especulação urbanística no país a partir de meados da década de 80.
Facto é que, em alguns sítios (não muitos), este carácter especulativo e de produção financeira (a financeirização do urbanismo) produziu bons resultados para os locais, com alguma renovação e estruturação urbana, mas aconteceu sobretudo em cidades com capacidade de expansão ou com massa critica, que lhes permitiu tirar vantagens deste dinamismo do sector da construção. Noutros casos, talvez a maioria, a construção desestruturou as funções de cidade, não articulou momentos da história, não respeitou aspectos disciplinares, como a mobilidade ou questões ambientais.
No Barreiro, chegámos ao final da década de 80 com uma área urbana claramente ocupada no seu eixo de expansão privilegiado, a Norte, densificada e estruturalmente adaptada, e portanto entramos na década de 90 relativamente consolidados, com menor capacidade de aproveitar estruturalmente a intensa construção que se avizinhava. Também é verdade, que estávamos, penso que por razões históricas, muito pouco adaptados para aproveitar na sua plenitude a capacidade de investimento privado que surgiu, fruto de um planeamento excessivo do território e das suas capacidades. Dir-se-á também, que isso foi mau porque não aproveitou oportunidades, e outros dirão, que tal facto evitou o crescimento desregulado da construção no concelho. Algures no meio estará a virtude.
Não quer isto dizer que Barreiro não houve “boom construtivo” na década de 90. Contudo, considero que o que existiu nunca teve a dimensão estruturadora ou desestruturadora que teve noutros locais, com maiores necessidades há época. Talvez a excepção ocorra com a construção dos Fidalguinhos, e quer aqui quer pontualmente em vários locais da cidade, também com algumas lacunas disciplinares prementes, seja fruto do excesso de definição do território que não teve em conta a diversidade disciplinar a considerar, ou por verticalidade técnica de aceitar tudo o que era regulamentarmente possível, dando espaço a opções menos positivas para a cidade, do ponto de vista estético e funcional, entendíveis do ponto de vista estrito, mas imperceptíveis para o cidadão comum.
Mas os factores verdadeiramente determinantes estão por afirmar nesta reflexão. Deixarei a sua dissecação para outros Capítulos, mas não é possível perceber onde estamos sem reconhecer o caminho que fizemos, para percebermos porque estamos assim, como estamos como cidade, porque é que temos de criar e aproveitar todas as oportunidades que nos surgem. E este caminho tem, na minha opinião, 4 factores determinantes, estruturadores, nestes últimos 30 anos:
1. Desindustrialização da “cintura industrial de Lisboa” – Década de 80
a. na qual se insere, entre outras, o encerramento da Lisnave da Siderurgia Nacional
b. o encerramento da CUF / QUIMIGAL no Barreiro,
2. Decisão da construção da denominada Ponte Vasco da Gama no eixo Montijo – Lisboa em detrimento do eixo Barreiro – Lisboa – Década de 90
3. Concretização da ligação ferroviária Pinhal Novo – Lisboa – Década de 90
4. Decisão e Indecisão da concretização da Terceira Travessia do Tejo no Eixo Barreiro – Chelas – primeira década deste século














