CONSTRUTORES DE ABRILA MEMÓRIA É UM TEMPO COM FUTURO!
Por Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Por Jornal Rostos
É duro o caminho da vida com dignidade e os olhos postos no porvir.
É triste e dolorosa a despedida.
Mas a memória é um tempo com futuro!
- Filomena de Sousa Teixeira, faz hoje 97 anos, uma chama débil que resiste tenazmente como durante toda a vida!
- José Saraiva, sargento-fuzileiro, militar de Abril, herói da Guerra, faleceu em Dezembro p.p..
- João Varela Gomes, coronel, militar de Abril, herói da resistência antifascista, faleceu em Março.
Amigos do coração que têm em comum a dignidade, a coragem, a honradez, a coerência com que caminharam, caminham ao nosso lado (!), com a imensa saudade do futuro que nos deixam, com a imensa satisfação de sabermos que as suas vidas são faróis apontados ao que ainda não foi feito, porque, parafraseando o Movimento Não Apaguem a Memória: “Abril foi o que há-de vir!”.
Acrescentemos justamente, fascismo nunca mais!
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- Tum! Tum! Tum! – o som forte do batente metálico ecoou no corredor quase nu, lançando a agitação nos locatários assustados, ao princípio da manhã fria de Novembro.
- Lá vai! Lá vai! Quem é?
- Direcção Geral de Segurança! Mora aqui fulano de tal? - um homem de gabardina e chapéu clássicos, mostrava um emblema policial inescrutável pela dona-de-casa alarmada.
Oito horas da manhã fresca, um cheiro forte a maresia penetra a casa quando a porta se abre, vinda do rio ali tão perto, do outro lado da estrada.
- Ai minha Nossa Senhora! O meu filho não está cá, está na tropa! Aconteceu alguma coisa?
A brigada da polícia política, chefiada pelo agente de 1ª classe, António Cavaleiro, entrou de roldão, com o jeito autocrático da corporação todo-poderosa, exibindo com displicência um mandado de busca.
Fixaram-se no quarto do casal jovem, frio, vazio, triste no fim de um Outono de ausências. A guerra, como vontade de combatê-la “por dentro” e a luta antifascista na ordem da vida do par já com descendência. Começaram a remexer nos livros e papéis da estante modesta, feita de tijolos e tábuas adaptadas como prateleiras.
- Quem é, mulher? O que se passa?
- É a PIDE, homem! Por causa do nosso filho que está na guerra, coitadinho!
- Ai a nossa desgraça! Ai a nossa desgraça! – choramingava assustado o progenitor sem a fibra da mulher, serrana rija que a vida temperara nas dificuldades e na revolta latente contra o sistema que provocava pobreza, medo, iniquidade.
- Não é PIDE, tiazinha, é DGS! A guerra dele é outra! …
Os agentes Cavaleiro e Mendonça, este anafado e baixo, de óculos escuros à “pipi”, acompanhados por um tirocinante condutor, encetaram uma busca minuciosa, metódica e treinada, no quarto modestamente mobilado, onde o casal fizera as núpcias cheias de carinhos e promessas, interrompidas pelo serviço militar obrigatório e pela partida para a guerra.
- Que é isto?! Uma ardósia escrita com, “ 5 de Outubro, Viva a República! Viva a Liberdade!”. Cá está!...
- É o dia de casamento do meu filho, deixem em paz a ardósia onde ele aprendeu a ler! Só eu nunca tive escola!...
- Então o resto da casa, tiazinha?
- Não me acordem a menina! Tem cinco meses, ainda está a dormir!
- O que é feito da sua nora? – questionava o chefe da brigada, com um semblante pouco simpático.
- Foi trabalhar para dar de comer à filha, ou acham que somos ricos?!
- Você trabalha aqui na casa de banho? Que tristeza! O seu filho devia preocupar-se com a família e não meter-se em política!
Experientes, perceberam que o homem-artesão era o elo mais fraco da família e apostavam na humilhação.
- O meu filho não roubou nem matou ninguém! Cala-te marido, não chores à frente desta gente!
É a força maternal e a repetida vivência de muitas agruras que agigantam aquela mulher modesta, de alma forte, trabalhadora esforçada num quotidiano de limpezas em casa alheia, mulher-a-dias com retribuições de miséria.
Ainda jovem imigrara da Beira interior e arruinada, onde o pão escasseava, por demasiado repartido, onde não havia escola para as raparigas, mas havia muita catequese. Chegara à grande cidade nos alvores da década de trinta, em pleno ascenso da ditadura e o acaso de uma ligação parental trouxera-a para a grande vila operária e industrial. Por lá ficara a trabalhar como criada-de-servir, enraizando-se no meio e aí constituindo família ao casar com um autóctone, descendente de pescadores.
Pela primeira vez era confrontada com uma situação de que já ouvira contar na vila resistente. Os “pides” farejavam no resto da casa mas não se mostravam muito entusiasmados com os tarecos modestos e olharam com desprezo providencial, o saguão atravancado de madeiras para o “fogão de lenha”. Estava prestes a começar a época do frio e era a única forma de aquecer a casa comprida, virada a norte.
Os arrestos são escassos, uns quantos livros com títulos “suspeitos” e alguns documentos do Movimento Estudantil e do Movimento Democrático. Para mais não dera a colheita dos esbirros, por isso não estava muito satisfeito o agente Cavaleiro quando apresentou o registo oficial das apreensões à dona-de-casa para assinar:
- Eu não sei ler nem escrever, mas toda a vida tive dois braços para trabalhar! Agora vou tratar da minha neta, com licença!
Os polícias ficaram perplexos a verem a “ratinha” voltar-lhes as costas e levantar a menina do berço, preparando-a para o biberão. Apressaram a saída depois do dono-da-casa assinar o documento.
Armando Sousa Teixeira














