CONSTRUTORES DE MAIONA TUA JUVENTUDE A FORÇA DO POVO!
Por Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Por Jornal Rostos
Nesta incerta primavera, o tempo está como a vida da Humanidade: nuns dias está de chuva, alguns são frios, noutros bate o Sol!
Depois do almoço no “Avelino”, que consagrou o apoio de amigos fraternos à edição ainda este ano do livro: “Contos e Cantos do Rio e da Terra”, o astro-rei ficou mais sorridente e vencendo as nuvens que pairam sempre no horizonte, iluminou o périplo por locais memoráveis de episódios da história comum do Barreiro e da Baixa da Banheira.
Pelo caminho que ladeia a Quinta da Várzea, passando frente ao Cemitério do Lavradio, confluindo na Estrada nacional, onde em grupo de adolescentes púberes, “ia-se ver as miúdas do Bairro Xangai”, passamos pela vereda que desce até à linha do Caminho-de-Ferro, antigamente ponto de atravessamento.
Foi nesse local, hoje abandonado, que se depositaram as pedras que choveram sobre a Guarda Republicana, quando no dia 1º de Maio de 1962, carregava sobre as centenas de manifestantes. Jornada pré-insurrecional, em que foram detidas três mulheres que corajosamente se batiam na primeira linha, à pedrada contra os guardas aos tiros: Rosete Fernandes, Domingas Silva e Vitória do Carmo.
A homenagem é extensiva aos milhares de portugueses anónimos que, em tantos primeiros de Maio, durante o regime fascista, enfrentaram heroicamente, desarmados, as forças da repressão selvática.
Incluímos neste abraço fraterno, da memória que não esquece e ajuda a germinar o porvir, todos os que amanhã estarão na Alameda Afonso Henriques a saudarem outro 1º de Maio, em liberdade, mas com muito futuro para construir e por conquistar.
Lá nos encontramos!
1º DE MAIO NO ROSSIO (1969)
A actividade associativa estava mais dinâmica com aquela malta que viera das escolas técnicas e usava a contestatária ”boina à Che”. Engajaram-se alegremente na Associação a fazer uma profusão de cartazes, de protesto e de mobilização, por tudo o que era reivindicação ou acção coletiva.
Por aqueles dias que antecediam a grande data comemorativa, conversavam em tom conspirativo, como quem está a preparar algo de especial. Interrogados respondiam com um sorriso matreiro: “Não te metas nisso!”. No próprio dia desapareceram do convívio habitual, deixando o colega da margem sul, que decidira participar também, um bocado desasado.
O patriarca das barbas queria continuar a conversar depois do almoço frugal na tasca da “Domingos Sequeira”, mas Artur estava decidido a “responder à chamada” e despediu-se a meio da conversa.
- Até logo! Depois continuamos. Hoje é um dia especial!
- Aonde vais? Anda cá! Não te metas nisso!
Outra vez aquela frase irritante! O Nozes era um reputado dirigente associativo, mas não gostava de “ levantar o cu da cadeira” e de interromper as grandes discussões “dialéticas”, intermináveis.
*
No fundo sentia um certo receio, uma espécie de temor atávico por ir enfrentar uma situação desconhecida, nunca tinha participado naquela jornada que como rezava a história, todos os anos redundava em violência. Em 1963 adquirira mesmo um cariz pré-insurrecional, com mortos e feridos na baixa lisboeta.
A Praça D. Pedro IV, estava cheia de transeuntes que circulavam pelos passeios ou conversavam em tertúlia. Não tardou que um numeroso grupo de jovens se juntasse na beira da rua e desatasse em passo de corrida breve, pelo meio da estrada, travando o trânsito e gritando: “Abaixo a Guerra Colonial!”, “Abaixo o fascismo!”, “Abaixo a ditadura!”, enquanto lançava prospectos para o ar.
À frente lá vinha o “Primo”, com a sua sacola caraterística a tiracolo, atirando as tarjetas onde se explicava que o 1º de Maio era dia de luta e a juventude exigia o fim das guerras em África. Dispersaram rapidamente quando apareceu um grupo de polícias de “cassetete” ameaçador. Mas daí a pouco ir-se-iam juntar de novo, no outro lado da Praça do Rossio, e assim andariam no jogo do “gato e do rato” o resto da tarde, em fugas desordenadas de dezenas em correria, saltando à frente do trânsito a buzinar, fugindo ao susto dos apitos estridentes dos polícias a pedirem reforços para a perseguição. Não muito longe ouvia-se a sirene de uma ambulância com o seu anúncio trágico, ou seriam mais carros da polícia?
*
A fila para o autocarro que pára frente à Pastelaria Suíça, parecia um bom local para acalmar depois da prova de velocidade em que também se tinha envolvido. Há várias pessoas na bicha habitual, de repente ouve-se um grito na rectaguarda: “É este! Agarra, agarra! É este!”…
Um fulano alto e gordo, de fatinho pomposo e óculos de aros metálicos, que já por ali passara a olhar inquisidor, berrava à espera de ajuda que não tardou a chegar na forma de dois paisanos que andavam por perto.
Artur, surpreendido e chocado fechou os olhos e por uma fracção de segundo sentiu-se agarrado e manietado, incapaz de oferecer resistência. Reabriu-os para perceber que afinal não era consigo, mas com um vizinho do lado, homem novo, alto e magro, com óculos e bigode à maneira da época, arrastado pelos agentes da PIDE/DGS à civil (só podiam ser!) com o gordo a comandar:
- É este gajo! Andava a orientar! Levem-no!
Atónito, afastou-se do local, metendo pela rua a esquivar-se ao trânsito, mais intenso às cinco horas da tarde. Soando frio na tarde amena, mal refeito da surpresa, viu surgir da esquina com a Praça da Figueira, um pelotão de polícias – ou seriam guardas-republicanos? - com um fardamento cinzento e boné de pala, de espingarda ao alto, varrendo à coronhada quem encontrava no passeio largo.
Homens, mulheres, velhos e miúdos, tudo arrastado, agredido, pisado pela “guarda de choque” que, com os olhos esbugalhados e gritos roucos, obedeciam a um graduado que seguia no meio da turba.
- Carrega! Carrega! Arreia!
Novamente se safou por pouco, correndo para a placa central, no momento em que a bestialidade entrava a varrer a Pastelaria Suíça, derrubando mesas e cadeiras, agredindo quem protestava, atirando ao chão quem surgia pela frente.
Um idoso, que ousou levantar os braços e gritar um protesto, foi derrubado com uma coronhada e pisado no chão. Aquela imagem ficaria gravada para sempre na memória dorida de um tempo de selvajaria fascista.
“Até quando o povo aguentará isto?”. O pensamento massacrava o espirito Juvenil idealista dos 20 anos, enquanto caminhava para a estação fluvial donde partiria para a outra margem e para a sua condição.
Não fora o baptismo de fogo, bem cedo recebera os “sacramentos” do terrorismo de estado omnipresente na terra natal, mas no Rossio, a festejar o 1º de Maio, dia sagrado do internacionalismo de quem trabalha, fora a primeira. Não seria a última no caminho da revolução!
Armando Sousa Teixeira
(Trecho extraído do livro: NA TUA JUVENTUDE A FORÇA DO POVO, em publicação)














