PATRIMÓNIO INDUSTRIAL COMO GERADOR DE CONHECIMENTOPor Leal da Silva
Barreiro

Por Jornal Rostos
A força avassaladora da economia, vestida ou não de globalização, fez-se sentir em setores do conhecimento até então quase imunes à sua penetração percutora e pensou-se mesmo que, a breve trecho, se poderia dar resposta à questão inquietante formulada por Marcuse nos anos 60: produtividade para quê?
Nesta mudança de campo, de escala e de afinação há que reconhecer ter surgido um certo desamor às tecnologias ou, pelo menos, às tecnologias que tinham até aqui conduzido o mundo industrial. Ouve-se hoje, com frequência, dizer que “as tecnologias compram-se” e que é a partir dos produtos básicos dessas tecnologias que se deve construir um mundo tecnológico novo, mais sofisticado, mais exigente, menos descritivo da realidade fabril primária. A ciência prossegue e a tecnologia , que dela decorre, vem-lhe imediatamente na peugada, permanecendo no mesmo pelotão da frente, transpondo para o carro-vassoura os velhos “kombinat”, os velhos centros industriais, que só se mantém operacionais onde a Economia ainda não os condena. E só não digo “a Economia e o Ambiente” porque tendências recentes e controversas mostram como a Economia pode pretender reduzir a motivação ambiental,num mecanismo retrógrado.
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Houve mudanças nas próprias profissões. O envolvimento humano foi sendo dispensado e a atenção das populações foi sendo desviada da produção para o consumo e do trabalho para o emprego, onde este não falte. Aliás havia já profissões que recebiam mais atenção mediática que outras – e nesse aspeto as que se ligam à prática do engenho ou seja ao domínio do tecnológico foram certamente as mais depreciadas e substituídas. Mas o ritmo atual também encurtou tempos de aprendizagem, e Bolonha que o diga e o mostre. Um engenheiro hoje passa muito mais brevemente pela escola, pela fábrica ou pela oficina porque, se é astuto, depressa abandona o que de engenharia aprendeu para ingressar na gestão e nas questões mormente económicas e sociais que na gestão encontra. São os “billions and billions” para impressionar o pagode. E, mais uma vez, quando necessitar da tecnologia… compra-a. Várias situações curiosas já sucederam por esta transposição de desempenhos. São, por agora, meros avisos.
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Para encerrar esta reflexão algo amarga direi que num recente encontro de académicos sobre um tema aparentemente diferente – a História – se apontaram três alvos imediatos: património, turismo e paisagem. A referência a património não primava pela relação deste com o conhecimento. Era, por exemplo, montar uma cervejaria numa fábrica de cerveja, sem necessidade de explicar o processo, ou trazer um restaurante requintado a uma sacristia conventual, fazendo assim convergir o turismo e manter a paisagem no que de apreciável pudesse completar o cenário. Mas a fórmula pode ter uma utilidade efetiva, como veremos adiante.
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Onde reter, manter, mostrar e sustentar o património? A reação dos diversos centros em que a desindustrialização se verificou foi diferente, de caso para caso, e com diferentes consequências – desde o modelo “a fábrica nunca existiu” que foi um pouco o que aqui sucedeu (ou se pretendeu que sucedesse aqui) até ao aproveitamento bem realizado e mostrado que visitei algures e me dizem ter sido também conseguido noutros locais. Mas, em qualquer realização, a preservação desse património, material e imaterial, passa por algumas realidades que deveriam ter sido visitadas e estudadas. Destaco a organização e não a improvisada sobrevivência, a manutenção e sustentabilidade, e o conhecimento trazido do passado, vivido no presente e,como potencial, apontado para o futuro.
Digo isto assim porque considero que museus e arquivos de carácter técnico, enquanto se permite que vivam, têm sempre uma VIDA INFLUENTE relativamente limitada no tempo. Essa vida influente, no caso de um museu industrial, diversa do de outros museus em que se preza a transtemporalidade da Arte, mede-se pelo tempo em que se mantem, entre os seus visitantes, mormente locais, uma maioria relativa de visitantes inéditos. No caso de um arquivo, essa VIDA INFLUENTE resulta da capacidade de nele encontrar temáticas narráveis e histórias exemplares e de a ele saber trazer quem as trabalhe para partilha e divulgação. O que nuns se mede pelas IMPRESSÃO CAUSADA E PELO CONHECIMENTO TRANSMITIDO noutros pode medir-se pela PRODUÇÃO REALIZADA. O museu de conteúdo técnico não é paisagem facilmente renovável nem se mantém apetecível ao fim de diversas visitas. Cansa e cansa-se. Mas o pormenor justificativo e o conhecimento que dele se pode tirar resulta certamente mais válido quando ampliado por renovadas audiências.
Mas caberá então perguntar: AUMENTADO E RENOVADO COMO? E a que preço? Só o poderá ser por processos de inserção local, regional e temática e pela partilha de identicos problemas dentro de um processo de uma formação cultural integrada.
A geração do conhecimento resultará da convergência de TODOS a quem “aquilo” diga algo de específico e valorizável (com o “aquilo” entre aspas não depreciativas e o TODOS em maiúsculas porque deverão ser mesmo TODOS, sem torres de marfim ). Se se desenvolveu aqui ou ali tecnologia valiosa que os “clientes” desses locais de conhecimento se sintam de qualquer forma enriquecidos com a informação a isso dedicada, que mantenham permanente acesa uma motivação pela instituição respetiva, que a saibam renovada e renovável e assim o afirmem e para a sua divulgação contribuam.
Realizem-se encontros, debates, conferências o que quer que seja que afaste o repetido mostrar das mesmas peças e o contar das mesmas histórias, que afaste as rotinas chatas e que desafie e traga possíveis interessados externos que permitam uma renovação em rede de audiências e narrativas. Existem em vários concelhos do País exibições temáticas que foram feitas e em seguida guardadas e esquecidas mas que podem ser trazidas por intercâmbio temporário – mas muitas vezes ignoramos ou até desprezamos o que o nosso equipoder possar trazer-nos. E que guardemos e ouçamos narrativas de vidas enquanto existir quem as possa narrar.(2)
Acentue-se o interdisciplinar. Agarre-se não apenas História, mas a explicação das coisas em todos os seus planos e formas, as realidades presentes e as portas abertas para o futuro. Não se omita o social. Criem-se ou participe-se nos Amigos disto ou daquilo, constituam-se comissões ou núcleos, escolares ou industriais ou de animação coletiva local representando círculos centrados no local de atração. Foram concursos e competições que, no são princípio das chamadas “sociedades de emulação” do sec XIX, estiveram na origem de indiscutíveis avanços no conhecimento. O exemplo da formação dos príncipes do iluminismo que procurava que cada um tivesse um ofício – D.José, por exemplo, era marceneiro - trazia consigo alguma sabedoria.
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E coloque-se assim o Barreiro nas diversas rotas possíveis de por aqui passarem, de realizarem aqui a tal combinação atualista de património, turismo e paisagem. A exposição sobre a muleta – que hoje vai ser motivo de um importante encontro aqui ao lado e que, ironicamente, vive mais na heraldica municipal do Seixal que na do Barreiro – pode constituir elemento permanente e “exportável” para um itinerário de barcos ribeirinhos ibéricos. E se esse itinerário não está organizado, organize-se. Ou traga-se a pirite a um itinerário turístico-mineiro-social que defenda que o conhecimento dum minério complexo como esse não deve ficar apenas na extração mas também na transformação, criando o duplo MM de sucesso, mineiro e metalúrgico, de que parece termos receios que outros souberam aproveitar por não terem receios alguns Direi, por conhecimento de causa e exemplo de inação, que – neste ponto, em que temos razões originais e até mundialmente singulares – continuamos a “andar parados” e, embora praticamente aceites na comunidade mineira em podermos participar numa rota turística existente e operante acompanhando Aljustrel e outras minas do Alentejo, arriscamo-nos a perder os créditos conseguidos. Esperamos o quê? Que nos levem ao colo?
Surge aqui um apelo: pela dedicação ao local de trabalho, que é uma realidade constatável, há documentos, livros de fábrica, apontamentos e outra memorabilia que constituem patrimónios pessoais mas que, passadas gerações, podem cair em perdição final como os papeis que eram do avozinho e que estão por ali abandonados. Se é certo que não há coisa mais perdida que uma coisa bem guardada, caso se encontrem tais memórias que elas sejam trazidas aqui para que aqui sejam valorizadas e guardadas.
Finalmente: um centro descritivo do que fomos e somos tem de falar verdade. Conhecimento é verdade adquirida e trabalhável. Pelo cuidado de dois responsáveis pela formação textil, e por quem manteve e musealizou o conjunto, que todos merecem a nossa gratidão, foi preservado o equipamento textil que é mostrado neste museu industrial. Mas… e o resto? Onde está a realidade químico-adubeira que trouxe para o Barreiro os texteis de fibra dura porque precisava de ensacar o adubo aqui fabricado? Ou onde foi parar a química e a família química que também habitava nas páginas da fábrica mas que delas parece ter sido excluída? Ou as artes do chumbo, incluindo o velho laminador de 1906 “desaparecido em combate”, no seu desigual combate com o tempo, e as unicas construções de madeira que aqui se ergueram quando chumbo, madeira e silicatos eram os materiais de escolha para esses novos fabricos?
O que de patrimonial existe ou se memoriza é, já por si, necessariamente gerador sustentável de conhecimento. Pelo que fomos, pelo que somos e pelo que serão os que vierem a seguir há que lhe dar persistência e continuidade. Há que estudar e manter vivo o conhecimento de que é fonte e a ele subjaz. Sem isso restar-nos-á transportar para aqui a reflexão melancólica que Cesare Pavese dedicou a uma fonte para, parafraseando-a, verificarmos que uma tão simples frase como “aqui houve uma fábrica” nos poderá- mas só por alguns anos - ainda comover.
Barreiro, 18 Maio 2018
J. M. Leal da Silva
PATRIMÓNIO INDUSTRIAL COMO GERADOR DE CONHECIMENTO
1. Intervenção convidada para o debate homónimo integrado nas Comemorações do Dia Internacional dos Museus, organizadas conjuntamente pela Baía do Tejo e Câmara Municipal do Barreiro,aos 18 de Maio de 2018
2. Somos a “civilização do écran” e, de tão continuadamente nos falarem e preencherem a nossa crescente solidão, os ‘ecrans desaprendem-nos de conversar com o vizinho.














