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Quotidianos

«De vez em quando…»RELEMBRAR O PASSADO - REFLECTIR O PRESENTE - PREVENIR O FUTURO
Por Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Por três motivos que o título elucida, decidimos alinhavar as considerações seguintes, aparentemente desligadas e que poderiam ser tratadas de “per si”.

Espero ver-vos na Baixa da Banheira irmã, no “Dia de Todos os Santos”, menos um que era coxo e ficou para trás, como contava a minha mãe que sabia toda a catequese católica, apostólica, romana, mas não aprendeu a ler, porque no seu tempo, Salazar não mandou construir escolas para raparigas nas aldeias beirãs, não faziam falta!

8 min de leitura
«De vez em quando…» RELEMBRAR O PASSADO - REFLECTIR O PRESENTE - PREVENIR O FUTURO Por Armando Sousa Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

Por três motivos que o título elucida, decidimos alinhavar as considerações seguintes, aparentemente desligadas e que poderiam ser tratadas de “per si”. Na realidade não são desconexas e por isso “metemos mãos à obra”:

• A apresentação do livro: “CONTOS E CANTOS DO RIO E DO MAR”.
• A entrevista recente do presidente da Câmara Municipal do Barreiro a um jornal da região.
• As eleições presidenciais no Brasil.

1. RELEMBRAR O PASSADO: “CONTOS E CANTOS DO RIO E DO MAR”

Em dois sítios me achareis
Por desgraça ou por ventura
Os ossos na sepultura
A alma nestes papéis

Este epitáfio, mais do que profecia de Bandarra, constitui um dos “leitmotiv” para a publicação de mais um livro de memórias próprias e alheias, individuais e colectivas, porque, parafraseando Fernando Pessoa: “A Memória é a Consciência inserida no tempo”.
Vamos apresentar o livro referido, na Quinta-Feira, feriado de 1/11/18, no Fórum José Manuel Figueiredo-Café Concerto, a partir das 16.00h, com muitos amigos na animação e na perpetuação de inestimáveis “memórias vivas”.

2. REFLECTIR O PRESENTE: “Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma”

Diz-se por aí que cultivar as recordações “é estar demasiado agarrado ao passado e descurar o presente”, ignorando o papel fundamental da memória no esclarecimento e na compreensão dos tempos que correm. Procuramos sobretudo combater o “Alzheimer das gentes”, também conhecido por memória curta.
A entrevista recente do presidente da CMB, Frederico Rosa, ao jornal “Diário da Região”, a propósito do primeiro ano do seu mandato, bem merece o sub-título, que não sendo original, assenta como uma luva.
Para qualquer observador atento, é claro que o Executivo do Partido Socialista, eleito em Outubro p.p., se limitou a dar continuação a projectos que a CDU tinha programado e, estranhamente, atrasou na concretização.
Sobre as grandes questões estratégicas para o Barreiro, ou não se avançou nada, ou marcam passo, ou avançaram da pior maneira, para quem tinha feito grandes promessas, criando o mito sociológico da “novidade messiânica” dos que vêm fazer diferente e “salvar a pátria”.

Vejamos sucintamente algumas dessas questões:

- Revisão do Plano Director Municipal – Como instrumento de ordenamento do território, de base democrática, discutido com as instituições organizadas e com as populações, como melhor forma de prevenir as decisões autocráticas e/ou desgarradas, e as aberrações ambientais, paisagísticas e da especulação imobiliária – Nada se diz, nada se fez!

- Requalificação do Centro Histórico do Barreiro – Questão primordial na batalha eleitoral de Outubro de 2017, que muito penalizou a CDU, acusada de pouco ter feito – Fala-se de intenções, nada avançou!

- Terminal de Contentores de Lisboa no Barreiro – Até o título deste famigerado projecto (está muito bem em Lisboa e recomenda-se!) é capcioso. O Estudo de Impacte Ambiental foi (bem!) chumbado em Agosto do ano passado.
Um novo e desconhecido projecto, que o Executivo ainda não divulgou, porque provavelmente “empurra com a barriga, maquilhando” o anterior, terá tantas ou mais contradições ambientais, paisagísticas e económicas que estoutro projecto com influência significativa na região:

- O Aeroporto no Montijo – O apoio meio-envergonhado da CMB a um projecto de clara estratégia neocapitalista, justificado embora pela necessidade urgente de descongestionar o Aeroporto Humberto Delgado, sem atentar todavia na melhor localização e na superior perspectiva de desenvolvimento regional proporcionada pelo Aeroporto em Alcochete, é preocupante.
O projecto do Aeroporto no Montijo, está cheio de aleivosias ambientais (e de outras!) que já levaram ao chumbo do Estudo Preliminar de Impacte Ambiental, feito pela ANA (a multinacional principal interessada). A menção a uma nova ponte Barreiro/Montijo, é um gravíssimo precedente de contornos não conhecidos, não fundamentados, não discutidos, configurando um potencial desastre ambiental.

- Património Histórico e Cultural – A recuperação patrimonial significa respeito pela memória histórica, exige uma estratégia global e fundamentada para toda a vastíssima área de Arqueologia Industrial do Barreiro (Manufactureira, Moageira, Piscatória, Ferroviária, Corticeira e Químico-Industrial).
Justificar um erro de projecto da CDU, com outro erro ainda maior na execução do dito, é comportamento pouco sério, de desresponsabilização oportunista. Referimo-nos é claro, ao Moinho Pequeno, que sem dúvida precisava de recuperação histórica e não de destruição e reconstrução com cimento armado (à parte a recuperação exitosa da Praceta/Largo do Moinho Pequeno).
Dever-se-ia ter começado por definir um Programa Estratégico para toda a Área Classificada dos Moinhos de Alburrica e Mexilhoeiro e só depois avançar para: a) Recuperação (limpeza, regularização das margens, aproveitamento das pedras originais espalhadas) da Caldeira do Moinho Pequeno; b) Recriação da Comporta e plano de reconstrução faseada das Câmaras de Escoamento e dos Engenhos; c) Recuperação histórica do edifício do Moinho e dos Armazéns/Fábrica de Bolachas, anexos.
Tem-se feito tanta coisa interessante por esse País fora nesta área que não se pode objectar desconhecimento, ou concepções diferentes, para tomar decisões autocráticas, sem a participação das Associações interessadas e dos cidadãos mobilizados.

- Classificação do Património Ferroviário e do Património Químico- Industrial da CUF/Quimigal – A preservação, sustentação económica e fruição cultural/turística do nosso vastíssimo Património Histórico, de que a classificação em curso na DGPC é apenas um passo (importante), exige uma posição de vanguarda e pró-activa da Autarquia para vencer resistências, em conjunto com as entidades envolvidas e interessadas.
As insinuações soezes em relação à Associação de Defesa do Património (ABPMF) que tem estado antes como agora, na primeira linha desse combate meritório, são a confissão da “mão cheia de nada” nesta como em outras áreas, no primeiro ano de mandato do Executivo do Partido Socialista.

- Património Natural e Ambiental: Quinta do Braamcamp – Passada a demagogia da campanha eleitoral, com a “Piscina de Ondas” e a “Roda Gigante”, o que temos da CMB sobre a excepcional área da Quinta do Braamcamp? Não sabemos!
Mas sabemos que tem de ser elaborado e discutido com a população, um Projecto-Programa que, entre outros, deverá ter os seguintes objectivos, construídos faseadamente (fica aqui a nossa contribuição): 1) Respeito integral pelo magnífico espaço natural ; 2) Recuperação de toda a área, faseadamente, para usufruto da população ; 3) Constituindo um Parque Natural Público, com equipamentos de desporto, lazer, recreio e convívio, sem molestar a paisagem : 4) Zero de construção(especulação) imobiliária, travada no 25 de Abril de 1974 e alvo de prolongada demanda judicial ; 5) Valorização de toda a envolvente da Praia de Alburrica, incluindo equipamentos de apoio ; 6) Valorização da envolvente da Praia Norte, incluindo equipamentos de restauração ; 7) Recuperação da Caldeira, com regularização e preservação das margens, na sua função de sapal de produção microbiológica ; 8) Recuperação do Moinho de Maré, o maior e melhor conservado da área : 9) Consolidação das ruinas históricas da Mansão dos Ingleses, integradas numa zona de lazer com piscina de água salgada ; 10) Criação de zona de protecção e observação das aves residentes e migratórias ; 11) Preservação e melhoramentos na “aldeia lacustre” de pescadores do Mexilhoeiro (junto da baía sul) ; 12)Medidas de defesa urgente do milenar istmo de areias doiradas do Bico do Mexilhoeiro, em rápido desassoreamento.

3. PREVENIR O FUTURO: Eleições no Brasil

O que tudo isto tem a ver com o Brasil?
Na altura em que escrevemos já é nítida a vitória do candidato reaccionário e revanchista, Bolsonaro, nas eleições presidenciais brasileiras.
Não existem, é claro, setenta milhões de cripto-fascistas no Brasil, são duas as principais razões do apoio popular ao candidato da extrema-direita, para além do apoio da dita e da oligarquia ultramontana:
- Derrocada e desistência cobarde do Centro-Direita, social-democrata, que teve 40% dos votos nas últimas eleições e agora “desistiu” do combate ao populismo extremista.
Com a reserva devida (a História não se repete), lembramos a Alemanha em 1934 (numa grave crise económica e ferida no orgulho devido à derrota na I Grande Guerra), com a “débacle” da Social-Democracia no poder e a ascensão do Nacional-Socialismo de Adolf Hitler.
- Os erros gravíssimos do PT de Lula da Silva, atolado nos escândalos de corrupção e nas contradições da sua orientação social-reformista, sem se afastar muito do quadro capitalista e sem resolver as questões cruciais da profunda desigualdade social e da insegurança, levando muitos brasileiros a dizerem, “aqueles já nós conhecemos, fizeram (ou não fizeram!...) isto e aquilo, agora apostamos noutro, novo e prometedor da lei e da ordem”. Sempre o mito messiânico!

- EPILOGO

Espero ver-vos na Baixa da Banheira irmã, no “Dia de Todos os Santos”, menos um que era coxo e ficou para trás, como contava a minha mãe que sabia toda a catequese católica, apostólica, romana, mas não aprendeu a ler, porque no seu tempo, Salazar não mandou construir escolas para raparigas nas aldeias beirãs, não faziam falta!
O ditador fascista português, também chegou ao poder com a queda da I República, desagregada pelas contradições e desordem internas, pela perda do apoio popular causticado e pela acção do capital mais reaccionário, prometendo “a ordem, o progresso e o equilíbrio das finanças públicas”. Foram 48 anos sem liberdades fundamentais, de exploração, repressão, prisões, torturas, guerras, morte.
Oxalá o povo brasileiro arrepie caminho!

Armando Sousa Teixeira

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