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Quotidianos

O TERMINAL DO NOSSO DES (CONTENTAMENTO) – 3Por Armando Teixeira
Barreiro

Do ponto de vista do desenvolvimento estratégico este é um projecto estreito, unipolar, unidirecional. O Barreiro vai tornar-se num gigantesco parque de contentores que inviabilizará qualquer outro tipo de actividade económica diversificada e multiforme.

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O TERMINAL DO NOSSO DES (CONTENTAMENTO) – 3 Por Armando Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

“Se um elefante incomoda muita gente, dois elefantes …”

0. SÚMULA DAS POSIÇÕES ASSUMIDAS

Manifestámos em artigos anteriores, de resto há muito tempo, a nossa oposição a todo o projecto que fosse além do que estava previsto no PUTQAE-2010 (uma Área Logística Multimodal). não unicamente para carga contentorizada, confinada nos limites marginais existentes, conquistados ao rio com milhares de toneladas de resíduos industriais, cuja retirada foi prometida por múltiplos governos mas que ainda lá estão!
Não estamos contra todo e qualquer Novo Porto no Barreiro, estamos contra este projecto da APL-ATKearney-2014 e o seu novo EIA-2018.

As “profissões de fé” da Administração do Porto de Lisboa, na Sessão Pública de 24/11/18, jurando “inocência política” e o primado do “rigor científico”, não resolvem as imensas contradições que já apontámos (e vamos continuar a fazê-lo!) de um projecto TCB/L, megalómano, agressivo da paisagem, do ambiente, do Estuário do Tejo, do Barreiro e das suas gentes historicamente sacrificadas, sem relevância económica, afunilador do desenvolvimento tecnológico e/ou industrial multifacetado, multiforme, não limitativo. Em última análise lesivo do interesse nacional, por gastar centenas de milhões de euros desnecessariamente porque existem alternativas.

A posição pusilânime do executivo autárquico de maioria socialista, que estava contra no ano passado e a favor este ano (!?) quando o essencial do projecto é o mesmo, merecem o repúdio da população barreirense. O Estudo de Impacto Ambiental-2018, deve ser chumbado, com a nossa participação, até ao dia 7 de Dezembro p.f. Contra o elidir da realidade e dos factos que trazem uma piorização, o futuro assim o exige!

4.4 IMPACTOS NA MOBILIDADE

Como vão ser retirados os contentores do anunciado porto?
Por via rodoviária, a saída pela Avenida das Nacionalizações está estrangulada, o IC21 está saturado!
Actualmente, são dezenas os camiões diários com a sucata, as cisternas, os autotanques e outros veículos pesados, passando engarrafados nas três rotundas em duzentos metros! Por ali não poderá (deverá) ser.
A única hipótese é construir viadutos, já a pensar nos acessos à Terceira Travessia (talvez um dia…). Quanto custará tal empreendimento? Não está incluído nos custos estimados no projecto TCL/B!
Por via ferroviária a solução, complicada, obrigará a assinaláveis obras-primas, com passagem elevada dos comboios numa grande ponte para a ferrovia. Sim! Não caberá na cabeça de ninguém uma linha a atravessar a cidade!

Quanto custará, visto que não foi ponderada no projecto inicial?
Lembramos que a Oficina Ferroviária do Barreiro (excepcionais oficinas históricas!) está praticamente parada por não ter sido electrificado um troço de cem metros de via de acesso (estimamos um custo de algumas dezenas de milhares de euros). E estão comboios parados à espera de reparação e muitos portugueses em terra à espera de comboio!
Curiosa esta forma de gerir os projectos com múltiplos impactos, primeiro anuncia-se a decisão (com um custo de 600 milhões, sem acessibilidades!) e depois fazem-se os estudos.

4.5. SOLUÇÕES MARGINAIS DE MOBILIDADE

Porque têm sido referidas de forma marginal, é pertinente falar em duas propostas de solução para a deslocação/transporte de contentores na região metropolitana:

A. Transporte de contentores em barcaças para uma futura estação em Castanheira do Ribatejo.
Apreensão é o sentimento que este projecto nos suscita. Levar contentores em barcaças, rio acima, através dos mouchões do Tejo, passando na zona de reserva estuarina, através de calas pouco profundas e serpenteantes (conhecemos o trajecto) parece-nos um projecto não compaginável com o respeito ambiental que o Tejo merece e obriga. Claro, lá se farão mais dragagens!...
Já existe uma estação de contentores (assustadora!) junto ao rio Trancão, vão construir outro depósito na margem direita, além Vila Franca? Incompreensível e preocupante!

B. Uma ponte do Barreiro para o Montijo
Aparentemente não seria má ideia se tal obra não passasse pelo canal do Montijo, de Alhos Vedros e da Moita, zonas ambientais sensíveis de esteiros com avifauna própria e importante, que já está posta em causa por um outro projecto com impactos ambientais tremendos se concretizado – o proposto aeroporto no Montijo.
As Autarquias da Moita terão certamente uma palavra a dizer.

4.6 IMPACTO ECONÓMICO
O impacto acumulado no PIB nacional com a construção do Terminal do Barreiro, estimado no projecto AT Kearney-2014 e concomitantemente no EIA-2018, será de 7 a 12 milhões de euros, num horizonte de 40 e 60 anos.
Isto será assim tanto se construa o novo terminal no Barreiro: ou se amplie o Porto de Lisboa (com muitíssimo menos custos); ou se aumente o Porto de Setúbal (com menores custos, mas com impactos ambientais negativos); ou se alargue a capacidade magnífica do Porto de Sines (com custos relativamente modestos); ou até mesmo com a beneficiação do Porto de Leixões, para onde foi a quota perdida nos últimos anos pelo Porto de Lisboa (17,7% em 2010 – 12,4% em 2017). Quem diz que os três Portos de Contentores de Lisboa (Alcântara, Stª Apolónia e Beato) estão esgotados?
E estão todos na direcção dos “corredores europeus”, com claríssimas vantagens rodoviárias e ferroviárias sobre a nova proposta de localização.

Para o Barreiro que vantagens económicas reais?
Dinamização da actividade económica local e regional e quinhentos postos de trabalho directos, diz o EIA-2018. Surge-nos uma dúvida legítima. Se os Portos de Contentores de Lisboa são todos transferidos para o novo terminal, como proclama o Projecto APL-ATKearney-2014 (que o governo corroborou, embora o EIA-2018 não fale nisso…) não virão também os seus operadores? Em Lisboa são 180 os postos de trabalho efectivos (!) Qual o saldo líquido de criação de postos de trabalho?
Irrelevante! Postos de qualificação média/baixa, num sector com elevada precariedade (como se vai sabendo por estes dias!),para fazer uma actividade única: descarregar, arrumar, carregar contentores. Sobre o mito dos 3000 postos induzidos estamos conversados, veja-se o exemplo de Sines, Setúbal!...
As grandes empresas de “transhipement” não virão para o Barreiro (não querem, aliás, que o Porto de Lisboa seja deslocalizado). As grandes transportadoras não virão para o Barreiro, mandam os camiões enquanto o petróleo estiver barato, para poluírem o ambiente numa terra que tão sacrificada foi!
O transporte ferroviário, outro mito do projecto TCB/L, terá poucas hipóteses de concorrer com a rodovia, ainda por cima para os comboios darem uma volta enorme pelo Setil para irem para o Norte, o destino maioritário. É justo concluir, o propalado impacto económico local é um logro.

4.7. IMPACTO NO DESENVOLVIMENTO

Do ponto de vista do desenvolvimento estratégico este é um projecto estreito, unipolar, unidirecional. O Barreiro vai tornar-se num gigantesco parque de contentores que inviabilizará qualquer outro tipo de actividade económica diversificada e multiforme.
Como foram os comboios que duraram 142 anos, na versão transregional, “Um braço vigoroso no progresso da vila”, dizia um historiador coevo, que trouxeram a Indústria Corticeira (entretanto desaparecida) e a Indústria Química e a Metalo-Mecânica Pesada, desmembradas quando os “europeístas” empenharam a indústria nacional em nome do progresso.
Deixaram muita desolação, uma enorme depressão económica e paradoxalmente, uma herança patrimonial ímpar e inestimável, mal amparada, em rápida degradação, mas em vias de Classificação na DGPC, que urge apoiar (não postergar como quer fazer a CP!). Deixaram sobretudo uma enorme área “queimada”, desaproveitada, que pode e deve ser melhor utilizada como recomenda o Plano Director de 1994, para indústria não poluente e empresas de tecnologias de ponta.
A propósito, não compreendemos como a Quimiparque, o Arco Ribeirinho e agora a Baía do Tejo, em trinta anos, não captaram um único projecto de média dimensão, tecnológico ou industrial, moderno, não poluente, progressivo, como estipula o PDM ainda não revisto.

Em última análise o Projectado Terminal de Contentores de Lisboa no Barreiro, não cumpre o Plano Director Municipal (nem tão pouco o PUTQAI de 2010, sem força de “Lei”). Não pode ser aprovado pelas suas Autarquias, sobretudo não pode (deve!) ser aceite pela população do Barreiro!

Armando Teixeira
(continua)

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