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O mito «No Barreiro não há nada para ver!»Por Gonçalo Brito Graça
Barreiro

Ao longo das últimas décadas construiu-se o mito de que no Barreiro não há nada para ver, e tem sido um discurso que infelizmente foi passado de geração em geração.

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O mito «No Barreiro não há nada para ver!» Por Gonçalo Brito Graça Barreiro

Por Jornal Rostos

Muito recentemente fui abordado por um casal de turistas alemães sexagenários na estação dos barcos. Perguntaram-se se valeria a pena passar para além dos prédios da Recosta, se havia algo que ver. Sugeri-lhes duas possibilidades: o caminho da direita, junto ao rio, ir até ao Polis e dar um passeio. Ou o caminho da esquerda, pela passagem superior, sempre em frente, e virar para os passadiços e ver os moinhos. Contudo, rematei a resposta com a clássica frase “está ali o posto de turismo, informam melhor que eu”. Mas estava encerrado. O casal alemão voltou a abordar-me, agradeceu a ajuda, mas pensaram melhor e decidiram regressar a Lisboa. Não pareciam nada confiantes… Posto de turismo fechado, um estranho a dar indicações para sítios pouco conhecidos… não, não era propriamente a recepção que esperavam.

Como utente frequente do transporte fluvial, inúmeras vezes encontro turistas que chegam ao Barreiro e regressam a Lisboa no barco imediato. A cativação para visitar a cidade é pouca, e decresce se o posto de turismo estiver encerrado. Não importa aqui comentar se o horário do posto de turismo é ou não adequado à realidade barreirense. Para esse debate estão os políticos e os especialistas na matéria. Contudo, como munícipe, interessa-me que o concelho do Barreiro consiga lucrar com a vinda de turistas, que sejam recebidos com qualidade, e que saiam daqui sabendo mais do que sabiam. E se puderem voltar, melhor!

O Barreiro tem muito para mostrar. Ao longo das últimas décadas construiu-se o mito de que no Barreiro não há nada para ver, e tem sido um discurso que infelizmente foi passado de geração em geração. Arrisco-me a dizer que esse mesmo discurso teve efeitos práticos, e que é uma das principais razões para que a maioria dos munícipes não conheça os espaços culturais no concelho. Basta perguntar ao nosso grupo de amigos. Quantos já visitaram o Espaço Memória, a Biblioteca Municipal, Convento da Verderena, Reservas da Mata da Machada, etc, etc? Já fiz este exercício com vários conhecidos e as respostas não distam muito das dos meus amigos. São poucos os que conhecem alguns destes espaços. Felizmente o mesmo não poderá ser dito da oferta musical e/ou artística plástica, que contrasta com a vertigem do conhecimento histórico. Ainda bem.

O Barreiro poderia mostrar muito mais, se a Câmara Municipal soubesse exactamente o que quer mostrar. Um território que é habitado há mais de 6.000 anos é um território que tem muito para dizer. Nesses 6.000 anos aportaram aqui indivíduos das mais diversas proveniências, e por oposição sabe-se pouco ou quase nada da presença romana ou islâmico-medieval no actual Barreiro. Todo o hinterland da margem direita do rio Coina está por estudar. E a arqueologia industrial? Fábrica de vidros de Coina, complexo ferroviário, complexo fabril, entre outros? E a carta arqueológica que teima em não aparecer?

O Barreiro poderia mostrar muito mais. Tomemos o exemplo desse casal alemão. Não vieram ao Barreiro porque queriam vir, e no fim limitaram-se a passear de barco. A canalização de turistas de Lisboa para o Barreiro tem de ser uma realidade ordenada, pensada, e a divulgação do património histórico pode e deve ter um papel nesse processo. E não é necessário muito! Bastaria um mini-stand móvel instalado na estação Sul e Sueste, semelhante aos das empresas de telecomunicações e bancos virtuais nos hipermercados, algumas horas por dia durante os meses de Verão. Objectivo: explicar o que se pode ver e fazer no Barreiro e assim oferecer uma alternativa ao turista comum que visita Lisboa.

Quer ver arquitectura manuelina, neo-clássica ou pós-moderna? Tudo isso está disponível no concelho (freguesias de Palhais, Barreiro e Santo André). O turista deseja saber como era um convento porque viu o filme “O nome da Rosa”? Pode visitar a Verderena. Caso isto não chegue, ofereça-se micro-miniaturas de “bolas de manteiga” ou cálices de vinho bastardinho, algo que ilustre a gastronomia barreirense.

Em 2013, enquanto escrevia o livro sobre o escuteiro e padre Abílio da Silva Mendes, deparei-me com algo curioso. Abril de 1940, Segunda Guerra Mundial no auge, e a precariedade laboral na CUF a subir em ritmos astronómicos. Repressão policial por todo a cidade. E um padre holandês refugiado em Lisboa decidiu levar a sua família recém-chegada a Portugal para umas férias… no Barreiro. Se em plena ditadura do Estado Novo já havia algo que visitar, imagine-se hoje!
Cative-se de uma vez esse público que é despejado no Terminal. Incentive-se o consumo no comércio local, e por fim, que não se diga que no Barreiro não há nada para ver!

Gonçalo Brito Graça

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