QUINTA BRAAMCAMP, EM TERRAS DE ESPLENDORPor Armando Teixeira
Barreiro

Por Jornal Rostos
1. Uma história de usufruto privado
- As quintas da margem sul do Tejo, em terras baixas de aluvião, saudáveis e “limpas” pelos ventos predominantes de norte, serviram de refúgio durante séculos, para a realeza e a aristocracia fugirem das epidemias que periodicamente assolavam a capital. No Lavradio, no Seixal, no Barreiro, foram privilégio da nobreza imperial.
- Com a Revolução Industrial e o seu pálido reflexo em Portugal, na ascensão da burguesia as quintas ribeirinhas foram compradas por homens de negócios que as transformaram em locais de lazer e/ou em unidades de produção proto industrial (Moinhos de Vento e de Maré, Estaleiros Navais, Fornos de Cerâmica). Assim nasce a quinta adquirida por Hermano Braamcamp, conde de Sobral.
- Já no século XIX a família inglesa Reynolds, negociante de cortiça em bruto, instala-se em Portugal para aumentar o lucro do monopólio de exportação de pranchas. Compra a quinta Braamcamp e aí instala uma fábrica de cortiça. É a fase do negócio capitalista/colonialista, só meia dúzia de grupos podem exportar para países que não têm a matéria-prima excepcional mas fazem a sua transformação!...
- Conclusão primeira: O paradigma histórico desde o século XVI Ao século XX foi o usufruto privado aristocrático/capitalista dos excepcionais espaços à beira Tejo, que os antepassados árabes denominaram de Alburrica/Mexilhoeiro, terras de esplendor!
2. Quinta Braamcamp, alguns acontecimentos históricos relevantes
- Nos dias 29 e 30 de Setembro de 1910 dá-se a primeira grande greve no Barreiro (também na Cova da Piedade, Poço do Bispo e Xabregas) dos operários corticeiros, apoiados por pequenos e médios patrões, contra o monopólio da exportação da cortiça em bruto (Reynolds, Hérold, Mundet…) exigindo a sua transformação no país. Um grande comício no dia 3 de Outubro, no Largo da Igreja, frente à fábrica dos Ingleses, saúda a vitória reconhecida pelo Ministro do Reino (que cairá logo de seguida!...), durante a grande concentração de trabalhadores no Terreiro do Paço no dia 1/10/1910.
- Aproveitando a dinâmica da manifestação popular pelas ruas do Barreiro, saudando a vitória dos corticeiros (tinha havido três feridos graves no confronto com a Guarda Real), os republicanos mobilizam os trabalhadores para a marcha que na madrugada do dia 4 de Outubro celebra a República nos Paços do Conselho. A concentração inicial para desencadear a insurreição republicana tinha sido feita no Bico do Mexilhoeiro, à espera do sinal (um tiro de canhão no Tejo!) que não chegou a ser dado. Mesmo assim resolveram avançar!...
- No Barreiro instala-se a fome, sobretudo na zona antiga com gente a viver ainda da pesca, quando Salazar decreta o Racionamento dos Géneros em 1937, durante a Guerra Civil de Espanha, para onde envia comboios de abastecimento para o seu amigo Francisco Franco (com o apoio de Alfredo da Silva!). Fortemente apoiado pela Itália e Alemanha fascistas, o “generalíssimo” põe a ferro e fogo o Governo Republicano eleito legitimamente. D. Cristina Reynolds, da família proprietária da Quinta Braamcamp, dirige um grupo de caridosas senhoras e oferece leite das suas vacarias a quem for pedir à porta da Quinta, com uma vasilha na mão…. Os ingleses não apoiaram a República Espanhola!
- Nos dias 7 e 8 de Maio de 1945, grandes manifestações populares saúdam nas ruas do Barreiro o final do terrível conflito que deixou mais de 50 milões de mortos. O fim da 2ª Guerra Mundial, com a vitória dos Aliados, é simbolizado pelas várias bandeiras inglesas e a marcha termina no portão da quinta dos “Ingleses”, com alguns discursos antecipando uma viragem em Portugal a que Salazar seria obrigado! As ilusões oportunistas, esquecendo a verdadeira natureza do regime fascista, estavam desfeitas na própria concentração com muitos paus erguidos sem nada. A GNR proibira as bandeiras da União Soviética.
- A crise histórica e endémica na Indústria Corticeira, que servira desde sempre para justificar os salários de miséria ( e os 3 ou 4 dias de trabalho por semana), agravou-se após a 2ª Guerra Mundial e nos inícios dos anos 70 do século XX, a Sociedade Nacional de Cortiças (SNC) ainda com capital inglês, estava em sérias dificuldades. Um projecto par a construção de lotes de habitação parecia ser a tábua de salvação, aprovado pela Câmara fascista de Vítor Adragão (e outros…) como empreendimento-chave para o futuro do Barreiro…
- Conclusão segunda: O paradigma nos anos anteriores à Revolução Democrática continua a ser o da apropriação privada do excepcional espaço natural, agora associado à especulação imobiliária, elidindo a situação da SNC que não tinha, é claro, nenhuma intenção (nem capital…) para construir.
3. A aquisição da Quinta do Braamcamp pela CMB e a mudança de paradigma
- A Comissão Administrativa Democrática que ficou à frente da CMB a partir de Maio de 1974, interrompeu o projecto especulativo e o processo seguiu para contencioso administrativo. A agora Essence/SNC, com outra constituição financeira não desistia facilmente daquela potencial “galinha de ovos de ouro”, enquanto caminhava inexoravelmente para a falência da empresa e para o encerramento da fábrica, o que todavia levaria uns anitos.
(Continua)
Barreiro,18/02/2019
Armando Teixeira














