Saltar para o conteúdo
Quotidianos

O Provedor do PreconceitoPor Tiago Coluna
Barreiro

O ódio e a intolerância nunca poderão ter lugar em sociedades civilizadas e democráticas e nunca serão compagináveis com uma “fuga para a frente” em nome da liberdade de expressão.

Por cá, no Barreiro, continuaremos a ser uma terra de gentes que sempre lutaram pela igualdade e pela liberdade.

7 min de leitura
O Provedor do Preconceito Por Tiago Coluna Barreiro

Por Jornal Rostos

Começou em 2017 com uma campanha autárquica que assumiu contornos polémicos ao defender, entre outras coisas, a municipalização das forças de segurança sem qualquer racional orgânico e financeiro para a escala de um município como o Barreiro e a videovigilância em algumas zonas da cidade, reforçando o preconceito e a estigmatização que já recaem sobre muitas delas. Mas, como se não bastasse, ainda defenderam publicamente a criação de brigadas para tudo e mais alguma coisa: para o cocó de cão, para o grafiti, etc...de repente, parecia que a solução mágica para todos os nossos problemas passava por colocar um fiscal em cada porta e uma patrulha em cada esquina, trazendo à memória algumas recordações tenebrosas como as milícias de rua que lançaram o terror em Itália e na Alemanha, durante os anos 20 e início dos anos 30, e que, como se sabe, foram a antecâmara para algo muito pior.

Ao assumir este discurso marcadamente securitário, o PSD de Bruno Vitorino visava explorar, pela primeira vez em muitos anos, um conjunto de preconceitos e estereótipos vulgarmente associados a alguns bairros considerados problemáticos no concelho. O objetivo era muito simples: criar alarme social, empolar a perceção de insegurança da população relativamente a algumas zonas do concelho, numa tentativa de arranjar bodes expiatórios a quem pudessem imputar parte do atraso em que o Barreiro se encontrava. Só por miopia política, poderíamos ser levados a analisar os casos endémicos de insegurança que existem em algumas destas comunidades, sem ter em linha de conta os problemas estruturais de pobreza e exclusão social que existem a montante. Será que, por exemplo, uma câmara de videovigilância em cada esquina, por si só, seria suficiente para resolver estes problemas? Tenho sérias dúvidas sobre isso.

E, no fundo, não interessava se, ao abrir esta autêntica caixa de pandora, a imagem do concelho ficaria prejudicada, alimentando velhos rótulos por demais injustos, se estaríamos a pôr uns contra os outros, barreirenses contra barreirenses, e sobretudo se estas soluções panfletárias iriam ou não resolver verdadeiramente os problemas das pessoas. A defesa de um estado policial e de um regime de apartheid em algumas zonas do concelho, como se houvesse barreirenses de primeira e de segunda, e a apologia de uma sociedade orwelliana, pondo em causa direitos, liberdades e garantias em nome da segurança, constituíram o ponto de partida de uma receita que sempre caracterizou historicamente os populismos e que conseguimos encontrar em todos os populistas contemporâneos: generalizar/rotular, criar alarme e instigar o medo, dividir em vez de unir e finalmente a formulação de soluções fáceis para problemas geralmente complexos.

Mas a esta história não acaba aqui. Ao longo destes últimos dois anos, foram várias as tentativas de aproveitamento político em torno de casos de violência mais ou menos mediáticos em que, apesar de unanimemente condenados pela sociedade, a autarquia tinha poucas ou nenhumas competências para poder intervir, naquilo que foi uma espécie de indignação inconsequente, que nunca deveria ser apanágio de quem tem responsabilidades políticas numa democracia madura, e uma tentativa de se fazer substituir às forças de segurança e às autoridades judiciárias, desconhecendo aparentemente o princípio da separação de poderes. Para além das várias tentativas de cavalgar inconsequentemente as oportunidades mediáticas que vão surgindo em busca de protagonismo fácil, o deputado Bruno Vitorino chegou a defender publicamente o regresso ao serviço militar obrigatório, declarações que nos deveriam fazer refletir, quando produzidas por quem é o vereador atualmente responsável pelo pelouro da juventude na Câmara Municipal do Barreiro.

De facto, temos visto de quase tudo nesta deriva populista em que o PSD Barreiro entrou há alguns anos e de que Bruno Vitorino é o rosto principal. Sabemos como começou, sabemos como tem evoluído, temo que não saibamos ainda como vai acabar, sobretudo depois das declarações incendiárias do vereador e deputado Bruno Vitorino que puseram em causa o trabalho desenvolvido por alunos e professores numa das principais comunidades educativas do nosso concelho. Em causa estava apenas e só isto: uma sessão de formação, organizada no âmbito da disciplina de educação para a cidadania, que pretendia sensibilizar os alunos para a discriminação baseada nas questões de género e de orientação sexual. Ficámos a saber que, para Bruno Vitorino, promover o respeito e a tolerância pela diferença é “uma porcaria” e uma forma de doutrinação, como se a orientação sexual fosse algo que se pudesse ensinar.

Com estas declarações, estaria provavelmente à espera de despoletar a indignação geral das turbas digitais a seu favor e capitalizar dividendos políticos de uma polémica que ele próprio alimentou, despertando os instintos mais primários e boçais que encontramos ocasionalmente nas redes sociais. Só que, desta vez, a sociedade civil mobilizou-se em nome da decência e contra um discurso de intolerância, fundado em preconceitos homofóbicos, que só contribuiu para desestabilizar uma comunidade educativa que se tem destacado nos últimos anos não só pelos seus resultados mas também pelo trabalho meritório que tem desenvolvido em matéria de cidadania e de abertura e ligação à comunidade. Aliás, o que podemos retirar desta polémica é a necessidade de não tornar o tema num tabu e continuar a investir na educação para a cidadania nas escolas, porque só assim podemos fazer a diferença no combate a todas as formas de discriminação e na promoção dos valores da igualdade e da tolerância. Não é nem nunca foi uma questão fraturante ou de minorias, mas sim uma questão estruturante que passa por defender direitos fundamentais inerentes a qualquer ser humano, independentemente do local onde nasça ou da condição social.

Bruno Vitorino tornou-se assim um digno representante de uma mentalidade retrógrada e de um Portugal ultramontano e trauliteiro que julgávamos ter ficado para trás em 45 anos de democracia. Este discurso não deve ser apenas uma preocupação para os militantes do PSD que continuam a encarar o seu partido como um partido moderado, é acima de tudo uma chamada de atenção para todos os democratas e para as forças progressistas de que o Trumpismo e a radicalização das sociedades não nascem apenas nas franjas do sistema ou com novas forças políticas, podendo despontar também nos partidos tradicionais. Pasme-se, ou não, ainda estamos à espera que o vereador assuma as responsabilidades pelas suas palavras em vez de se refugiar numa ficção de censura social e de se dizer vítima de uma ditadura do politicamente correto. O ódio e a intolerância nunca poderão ter lugar em sociedades civilizadas e democráticas e nunca serão compagináveis com uma “fuga para a frente” em nome da liberdade de expressão.

Por cá, no Barreiro, continuaremos a ser uma terra de gentes que sempre lutaram pela igualdade e pela liberdade. Uma terra de sonho e futuro, uma terra de oportunidades para tod@s, independentemente da cor da pele, do género, da orientação sexual, das convicções políticas, da religião ou condição social. Uma terra sem muros, onde tod@s podem encontrar o seu lugar para se realizarem enquanto pessoas e cidadãos. O Barreiro é e será sempre uma terra de inclusão, de abertura, de tolerância e de respeito pela diferença. É dessa diversidade, desse pluralismo, que é feita a nossa história. Foi isso de que Bruno Vitorino se esqueceu.

Tiago Coluna
Vice-Presidente da JS Barreiro
Autarca na União de Freguesias do Barreiro e Lavradio

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção