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Quotidianos

A COMISSÃO CULTURAL DO LUSO (ANOS 40/50)Por Armando Sousa Teixeira
Barreiro

A Comissão Cultural funcionava de forma intermitente conforme a direcção eleita. Jovens operários e intelectuais procuravam desenvolver uma actividade de vanguarda política, absolutamente intolerada pelo regime, mesmo se rodeada de muitas precauções.

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A COMISSÃO CULTURAL DO LUSO (ANOS 40/50) Por Armando Sousa Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

O Luso Futebol Clube nasceu em 1920, no Largo do Casal, no coração da vila velha, entre a malta que jogava peladinhas no descampado do Largo de N. Sr.ª do Rosário, mantendo uma grande rivalidade com o Futebol Clube Barreirense, que tinha sido fundado em 1911. Para além do futebol, paixão recente da juventude, manifestaram-se preocupações culturais desde cedo, com especial relevância nos anos 40/50, quando as Secções de Biblioteca e de Campismo dinamizaram uma acção meritória, complemento necessário à dinâmica actividade desportiva.

Em tempos de resistência e combate ao fascismo crescente, a juventude barreirense teve uma notável participação no Movimento de Unidade Democrática – MUD Juvenil, com destaque para a actividade empenhada nas colectividades e clubes recreativos, à volta das bibliotecas e de iniciativas culturais e de convívio. Ficaram célebres as iniciativas de confraternização na Mata dos Casquilhos, em Alpiarça e sobretudo os piqueniques na Praia da Arrábida.
O Luso esteve sempre na primeira linha, cabendo uma referência particular à acção cultural de duas jovens associadas, Eduarda Fernandes e Glicínia Firmino, que iriam ampliar a sua acção intelectual e democrática num futuro próximo, em que as iremos encontrar nas grandes lutas académicas em Lisboa, em 1962.

A alienação e o obscurantismo dos anos de ascensão do regime dito de “Estado Novo”, o patrioteirismo dos anos da II Guerra Mundial, com a falsa neutralidade da germanofilia de Salazar, a repressão crescente que se seguiu à pseudo-abertura salazarista no pós-guerra, a influência de caciques obedientes e venerandos, a pressão da polícia política (o MUD Juvenil foi ilegalizado em 1948 e em 1955 foi detida toda a sua Comissão Central), empurraram a maior parte dos Clubes e Colectividades para uma letargia cultural e social, em favor do futebol que cumpria a sua quota parte na distração do “Zé Povinho”, juntamente com o fado choradinho e os “milagres” de Fátima.

Ainda assim, a Secção de Campismo do Luso manteve uma actividade notável com a participação de dezenas de associados em acampamentos nacionais e internacionais, onde se trocavam culturas e informações que enriqueciam a sua consciência democrática. A Biblioteca, como muitas outras no concelho, desenvolvia uma dinâmica assinalável de leitores de romances célebres, embora a circulação clandestina de obras proibidas seja a referência mais significativa no campo da literatura.
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Nos finais da década de 50, o Luso continuava a assinalável actividade associativa e cultural, para além do tradicional futebol. A activa Secção de Campismo movimentava dezenas de companheiros que percorriam a Europa na época de Verão, estabelecendo laços e adquirindo conhecimento da realidade progressiva da reconstrução do pós-guerra, em contraste com o atraso e o obscurantismo na pátria triste, de ditadura vil.
A comparação inevitável trazia a revolta aos corações daquelas famílias modestas (operários, empregados, pequenos comerciantes) que, associando-se, conseguiam sair do país com programas organizados, sedimentando uma consciência progressista e democrática, característica da zona da vila velha.

Em paralelo, a Secção de Biblioteca continuava activa com um movimento assinalável de requisições para leitura domiciliária de romances clássicos e grandes obras da literatura mundial. Alguns livros revolucionários, que escapavam com cuidados às visitas irregulares da PIDE, ajudavam a impulsionar o sentimento humanista e o desejo de transformação da humanidade nos caminhos da paz e do futuro.

A Comissão Cultural funcionava de forma intermitente conforme a direcção eleita. Jovens operários e intelectuais procuravam desenvolver uma actividade de vanguarda política, absolutamente intolerada pelo regime, mesmo se rodeada de muitas precauções. Aos jovens entusiastas opunha-se uma direcção preocupada com a actividade global do clube e com a ampliação das instalações, já em marcha, que precisava iniludivelmente de apoios oficiais para a concretização. Durante muito tempo a parte Norte da sede esteve em “esqueleto”, com a construção incompleta.
O sistema de governação salazarista tinha efeitos perversos, corrompia os mais volúveis ou interesseiros, e tolhia muitos dirigentes sérios. Em contrapartida despertava para a luta organizada jovens engajados nos ideais progressistas que já tinham encontrado no Partido Comunista Português o farol a indicar os caminhos do futuro.

O Avante! Circulava no sigilo rigoroso, incentivando à participação e à acção cultural, e o Manuel Revés, o Cardoso, o Figueiredo e outros colaboradores da Comissão Cultural nos anos 50, tiveram que remar contra a maré, ainda que por vezes tivessem de “meter a viola no saco”, pelo menos por uns tempos, até aparecerem novos directores de mente mais arejada.

O mais espantoso da actividade lusófila era a existência de uma Secção de Pólo Aquático, que disputava o campeonato regional de Lisboa, não tendo o Barreiro uma piscina! Magnífico o espírito de iniciativa numa terra sem equipamentos adequados, numa modalidade que nunca antes, nem depois, se praticou. Treinavam na caldeira da Quinta Braancamp, na margem adaptada, quando a maré estava cheia e disputavam os jogos na piscina do Sport Algés e Dafundo, em Pedrouços. Ainda vieram algumas equipas ao Barreiro fazer jogos-treino na caldeira!

A actividade eclética do Luso Futebol Clube, nascido como um pequeno clube de bairro entre a juventude que jogava à bola no Largo da Senhora do Rosário e não morria de amores pelo Barreirense, agigantava-se nos meados do século, levando muitos dirigentes, colaboradores e atletas diariamente à sede social, confraternizando pelos corredores do clube.

Armando Sousa Teixeira

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