Crónica de um Barreirense nascido em Trás-os-MontesO Barreiro que pode voltar a ser Barreiro
Por Fernando Catarino
Barreiro

Por Jornal Rostos
A minha ligação ao Barreiro começou pelo coração e daí para a razão. Guardo em mim as memórias de, ano após ano, percorrer meio país, descendo a Nacional 2, para um mês de festa, divertimento, praia, brincadeira, experiências que não existiam na pequena aldeia onde que vivia, da qual o meu Tio partiu muito novo em direção à CUF, com a promessa de um futuro que as pedras e a lavoura dos Avidagos, em Mirandela, não garantiam. Nem mesmo o medo de um pequeno menino que fugia do Sr. que apesar de jurar que o ia ensinar a nadar, nunca logrou tal ensejo, apaga a memória dos miúdos felizes, livres que seguiam a caminho de Alburrica, a Praia perfeita para quem durante 11 meses não tinha “mar”..
Após mais anos do que a memória me deixa contar, regressei ao Barreiro, já não para passar um mês de férias, mas os finais de semana, já não atraído pela ligação familiar, mas pela ligação do coração. A cidade que outrora me espantava pela vida, pela dinâmica vibrante, por me parecer maior do que tudo o que conhecia, já não me parecia assim tão mágica. A luz que sentia em pequeno dá lugar a um clima de crispação e sectarização que me deixa apreensivo. Chego diretamente para um Encontros – dizem-me que possivelmente o último, e foi. Regressei a Lisboa com um travo amargo na boca. Talvez fosse má perceção minha, um entendimento superficial e apressado. Hei-de voltar, de forma recorrente, nos fins de semana seguintes. Como qualquer jovem do Séc. XXI, começo a seguir as páginas relacionadas com a cidade nas redes sociais, desde a página do Município à extinta “Somos Barreiro” e se inicialmente intuí, com o tempo passei a ter certeza. Havia um clima muito pesado, quase persecutório no Barreiro.
A solidariedade do Sr. que insistia em ensinar pequenos petizes a nadar tinha dado lugar a uma máquina propagandística e quase inquisitória que aponta, diaboliza, sectariza, destrói publicamente, tenta afogar pessoas e carácteres nas águas da Rede.
A cidade que eu conhecia por livre e determinante na revolução do 25 de Abril, retribui-me com uma primeira noite de 24 de abril deplorável e recriminatória que culminou com um discurso opressivo e autoritário do seu edil. Mas isto era só o princípio…
Nessa altura já tinha tomado conhecimento da fatalidade que se tinha abatido sobre a Quinta do Braamcamp. Nesse dia, também eu enverguei uma t-shirt preta enlutada com o pedido para que “NÃO VENDAS A BRAMCAAMP”. Aí já eu tinha percebido que por mais t-shirts e faixas que envergássemos, os ego eram demasiado grande para permitir aos olhos ver o que o Barreiro pedia, o narcisismo demasiado elevado para se permitir ouvir os pedidos em uníssono dos barreirenses, a arrogância e petulância de tal forma vincada que às vozes se sobrepôs um conjunto de gritos amplificados pelo microfone e um dedo em riste, às faixas um autoritarismo castrador e militante que sempre procurou impedir que as mesmas vissem a luz do dia.
Tornei-me Barreirense, juntando ao coração a razão. À intuição, a certeza. À desilusão, a vontade de lutar.
Agora, que aqui vivo, estou certo que o Barreiro tem todo o potencial e condições para ser uma cidade vibrante, atrativa, com condições únicas de vida. Agora, que aqui vou ser pai, tenho ainda mais certezas que quero lutar para que a minha filha e os seus amigos encontrem um Barreiro melhor do que aquele que nos querem fazer acreditar ser o único possível. Um Barreiro para os Barreirenses e não para os Vistos Gold. Um Barreiro mais verde, mais puro, mais transparente. Um Barreiro de associativismo, de cultura, de intervenção, democrático, aberto e inclusivo. No fundo, um Barreiro que ainda vai a tempo de voltar a ser Barreiro.
Fernando Catarino














