CANÇÕES DE PROTESTOPor Armando de Sousa Teixeira
Barreiro

Por Jornal Rostos
Empatia era o sentimento imediato inspirado por aquele homem de estatura média, de cabelo encaracolado abundante e escuro, revolto em sinal de uma personalidade inconformada, com um toque de genialidade.
~ Como estás amigo? Parabéns pelo vosso trabalho de vanguarda.
Dissera isto sem tirar as mãos da viola em afinação, preparando-se na pequena saleta da direcção, para rumar à Faculdade de Ciências onde decorreria a sessão.
João ficou um bocado acanhado quando, vindo do bar onde acabara de enganar a fome, foi apresentado àquele individuo de trato simples, legenda maior da canção de protesto que nunca tinha cumprimentado:
- Boa noite, amigo! É uma honra para nós receber-te nesta casa modesta. Obrigado por teres aceite o convite.
- O José Manuel contou-me pelo caminho o vosso trabalho excepcional e a luta corajosa que travam!
O voluntarioso colaborador tratara do transporte gracioso para ir buscar o José Afonso a Setúbal, condição necessária para a sua participação na sessão organizada pela ADAIIL na Cantina da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências, solidariamente cedida para o efeito.
- Infelizmente aqui no IIL não temos condições para fazer uma sessão cultural condigna!
A afirmação foi feita já no exterior, no terreiro onde declinou o convite para uma bebida, chamando a companheira com quem tinha viajado:
- Zélia, queres tomar alguma coisa? Não jantaste!...
Recusaram educadamente, mesmo quando foi explicado que se tratava do bar estudantil. Gente generosa que dava muito sem nada pedir em troca.
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Conhecia o José Afonso da memorável sessão de 11 de Novembro de 1967, no Luso do Barreiro, organizada pelo Cine Clube local, que constituiu uma jornada inolvidável de fervor e esperança democrática. Para além do poeta-cantor actuaram nesse dia, Odete Santos (poesia) Carlos Paredes e Fernando Alvim (música), Teresa Paula Brito (canto) e o José Afonso, acompanhado por Rui Pato.
Num palco pequeno onde também estava outro excelso trovador, Adriano Correia de Oliveira que estava no serviço militar e não podia cantar, entoaram-se as cantigas do cancioneiro da resistência, com o celebrado trovador a encher a noite, terminada em apoteose “revolucionária” com toda a gente a cantar, por duas vezes, os exemplaríssimos “Vampiros”.
Para o moço de 18 anos foi amor à primeira vista, à distância de uma plateia apinhada, mesmo não fazendo parte do séquito que no fim da sessão acompanhou Zeca Afonso, numa saída algo atribulada quando alguém gritou: “Vem aí a PIDE!”. Não vinha, pelo simples facto de que sempre lá tinha estado, em dois carros estacionados acintosamente frente à sede da coletividade. Na semana seguinte todos os promotores da sessão foram chamados para interrogatório na sede da PIDE em Setúbal.
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A rua da Escola Politécnica não tinha muito movimento àquela hora, já passava das nove e meia aprazadas. A noite estava calma e junto do portão de ferro entreaberto, que dava acesso ao edifício da Cantina, já muito perto do jardim do Príncipe Real, não se via ninguém.
“Queres ver que não houve mobilização!? – o pensamento era inquietante, mas não atreveu a verbalizá-lo, embora percebesse os semblantes fechados dos acompanhantes.
Percorridas as escassas dezenas de metros em silêncio, penetraram surpreendidos no salão espaçoso que estava completamente lotado, com gente pendurada nos vãos laterais e que rompeu num aplauso enorme, enquanto o trovador atravessava o recinto a custo, com a viola erguida como símbolo de luta, de quem vinha com a sua música combater.
Cada canção tinha a força de uma mensagem de esperança, sufragada pela trovoada de aplausos e pela entoação a mil vozes em coro entusiástico:
“Canta camarada, canta
Canta que ninguém te afronta…”[…]
“Viva a malta e trema a terra
Daqui ninguém arredou!...”[…]
“Recuso-me a servir a violência
Embora a minha voz de nada valha
Mas que fique ao menos a consciência
De que tentei romper esta muralha!”
No fundo da sala, confundido com a multidão, o jovem estudante emocionava-se, ganhando ânimo para continuar a participar na luta dura. Disfarçou inclinando-se para o chão, onde estava um exemplar do opusculo distribuído no início da sessão. Pisoteado, sujo, era o único que restava e seria guardado com carinho pela solidariedade em tempos de resistência.
“Canções-Protesto”, o título simbólico com um punho erguido em sinal de combate que também era o seu. Ao fundo um poema sem indicação do autor, que passaria a ser de todos:
Darei ao povo o meu poema
Eu lhe darei a flor e a pedra
Cada minuto, cada tristeza
E uma azagaia contra a dura sorte
E a minha raiva acesa em cada noite
Eu lhe darei a flor e a pedra
E a minha vida. E a minha morte.”
Assim se foi construindo o 25 de Abril! Sempre!
Armando de Sousa Teixeira














