UM ACTO DE GUERRA COMO HÁ 75 ANOS?Por Armando Sousa Teixeira
Barreiro

Por Jornal Rostos
Vendo bem não se tratava de uma bomba atómica (ou de Hidrogénio) ou então o registador das imagens teria sido varrido em segundos. Talvez um ataque de Israel, “tecnicamente” em guerra com o Líbano, aventa um comentador encartado. Vontade não faltará entre os falcões sionistas (possuem a bomba nuclear!) de suprimir os vizinhos árabes, como de resto têm feito sistematicamente com os palestinianos.
A ponta do véu é levantada ao fim da tarde pela locutora que fala na armazenagem no porto de três mil toneladas (?) de Nitrato de Amónio. Hélas! O nosso conhecido “Ammonium Nitrate” que ainda se fabrica no Lavradio, mas em solução (a chamada “Papa”), potencialmente menos perigosa. Vêm-nos à memória acidentes terríveis com este composto químico que é um excelente fertilizante para a agricultura, fornecedor de Azoto, um dos três elementos fundamentais para as plantas (Azoto, Fósforo e Potássio). Nas formas mais concentradas é utilizado no fabrico de explosivos.
Participámos durante muitos anos na equipa de produção, a partir da oxidação catalítica do Amoníaco para fazer Ácido Nítrico e depois, reagindo este novamente com o Amoníaco para chegar ao Nitrato de Amónio. A fábrica de Amoníaco, o coração do complexo químico do Lavradio, foi encerrada em 2008, apesar das promessas da família Mello e do ex-governante Catroga de que nunca seria alienada. Venderam-na a um grupo espanhol (Fertibéria) que no ano passado a passou a um fundo financeiro estrangeiro que veio “espremer” a fruta madura da indústria nacional de adubos (Lavradio, Alverca e Setúbal).
Com a consistência sólida tradicional mais concentrada (como estaria em principio, no porto de Beirute), o NH4NO3, chegou a ser feito na forma “prillada” (pequenas esferas brancas) a partir de um “chuveiro” na torre mais alta, ainda hoje visível na Barra-a-Barra (foi descontinuado em 1993).
A sua conhecida perigosidade, devido ao elevado potencial explosivo (tanto maior quanto maior for a concentração que pode ir de 20,5% a 35%), obriga a especiais cuidados de produção e armazenagem. Segundo a legislação portuguesa à época, o armazenamento não poderia ultrapassar as 400 toneladas, em montes separados de 100 ton, o que não terá sido alterado pela legislação mais recente (Dec. Lei nº 150/2015). O Ministério da Indústria/Direcção Geral de Explosivos, fazia inspeções aleatórias bianuais aos armazéns que deviam estar impecavelmente isentos de matéria orgânica e sem qualquer fonte de ignição que pudesse despoletar uma reacção explosiva em cadeia, como agora terá acontecido. “Nem serradura para o chão podíamos usar”- diz o Rogério, “expert” na matéria.
PARA MEMÓRIA FUTURA
A informação surge depois mais precisa. Estavam armazenadas 2750 toneladas de Nitrato no porto de Beirute, há seis anos!? Ocorrem-nos acontecimentos graves estudados para manter os responsáveis e os operadores químicos avisados e conscientes. Qualquer fábrica química tem um risco de perigosidade. A segurança dos trabalhadores e das populações limítrofes depende do grau de preocupação com a manutenção dos equipamentos, do respeito das normas de produção e de armazenamento. Em última análise, da priorização do investimento na formação, na prevenção, na manutenção regular e nas melhorias tecnológicas. Não raro, tal é incompatível com a preocupação da maximização dos lucros e da remuneração do capital dos accionistas privados.
- Em 2001 em Toulouse, no sul de França, a explosão de 300 toneladas de Nitrato de Amónio na própria fábrica, originou a sua total destruição, cerca de três dezenas de mortos e os vidros da cidade partidos num raio de cinco quilómetros.
- Em 2013 no porto de Tianjin, na China, a explosão de grande quantidade de “Ammonium Nitrate”, destruiu o dito e uma parte da cidade, com centenas de mortos estimados.
- As notícias mostraram mais tarde as imagens terríficas do atentado de Oklahoma, nos Estados Unidos, em 1995, em que o terrorista utilizou duas toneladas misturadas com combustível junto a um edifício administrativo, fazendo 168 mortos.
- Os USA já tinham tido um grande desastre com o composto em 1947, em Texas City, com 581 mortos.
Razões de ponderação e alerta não faltaram no Líbano. Uma equipa de inspecção teria alertado para o potencial perigo e o assunto estaria em tribunal. Deve ter caído numa daquelas gavetas sem fundo onde medram o desleixo, a incúria e a corrupção que vai corroendo o mundo capitalista onde as pessoas nunca estão primeiro.
…TRANCAS À PORTA
Num saco sem fundo não caíu o famigerado projecto do “Terminal de Contentores de Lisboa no Barreiro”, que felizmente para os barreirenses, jaz morto e enterrado e não deixaremos que ressuscite como o Outro.
A que propósito vem tal projecto para aqui?
O actual Executivo Municipal do Barreiro apresentava-o como a oitava maravilha, mas a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), chumbou-o em toda a linha, atendendo entre outras, naturalmente, às “Dez razões para não querer o Terminal no Barreiro”. Apesar da tentativa da sua ridicularização em sessão pública, pelo vereador responsável e pelo representante da Administração do Porto de Lisboa (APL), foram todas atendidas pela APA!
Em boa verdade todas menos uma, que vem a propósito referir: A existência de um Terminal de Líquidos (ex-Tanquipor e actual Alkion) rio adentro, que armazena milhares de toneladas de matérias químicas potencialmente inflamáveis e/ou explosivas, em diferentes graus:
- Acrilonitrilo, matéria-prima para a fabricação de fibras sintéticas. Em rigor é feita a trasfega directamente para a fábrica (Fisipe).
- Amoníaco, importado para um tanque com capacidade de 30 mil toneladas.
- Fuel, Gasóleo e Gasolinas, em múltiplos depósitos cilíndricos (mais de uma dezena).
O primeiro é altamente explosivo, o segundo explode quando misturado com o ar em concentrações elevadas (já houve desastres tremendos!). Os terceiros são altamente inflamáveis.
As Directivas de Seveso (lugar em Itália onde houve um grande desastre químico), plasmadas na Directiva Europeia 2012/18/EU, estabelecem normas rígidas de armazenagem e distanciamento das instalações potencialmente perigosas (mínimo de 500 metros). Ora o Terminal de Contentores seria construído paredes-meias com o referido Terminal de Líquidos. Não era licenciável como é bom de ver, andou bem a APA.
VAMOS VER OS AVIÕES?
Escrevemos não para lançar qualquer tipo de pânico, mas para alertar de forma responsável quem aprecia os projectos e tem poder de decisão. As populações devem ser informadas com rigor e seriedade e não com “lavagens ao cérebro” dos milhões que hão-de cair dos céus e dos milhares de postos de trabalho que não passariam de algumas dezenas (fazem falta mas não estes!).
Vem a propósito lembrar que o putativo Aeroporto do Montijo ficaria em linha recta a pouco mais de um quilómetro de uma hipotética onda de choque no caso de um acidente grave. A APA não terá considerado tal ao licenciar o projecto e por esta e outras razões, andou mal!
Não é só no Líbano que as coisas acontecem! Na Alemanha, na América, em França, na China, países tecnologicamente desenvolvidos, registaram-se terríveis desastres. Por prevenção e precaução não deverá ser construído um aeroporto internacional numa área de risco potencial elevado, embora saibamos do rigor que os técnicos e operadores do Terminal de Líquidos usam, que a propósito não tem a ver com o Nitrato de Amónio que é fabricado em solução na vizinha Adubos de Portugal, no Lavradio.
A TALHE DE FOICE…
A propósito constatamos/alertamos para o facto de a construir-se o Aeroporto no Montijo, ficar inviabilizada para todo o sempre a Terceira Travessia do Tejo, Barreiro/ Chelas.
Uma das razões apresentadas pela APA para chumbar o Terminal de Contentores seria a existência de Pórticos com 95 metros de altura, dificultando a aproximação dos aviões na aterragem. A ponte sobre o Tejo passaria a mais de 100 metros de altura!
Armando Sousa Teixeira














