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Quotidianos

UM ACTO DE GUERRA COMO HÁ 75 ANOS?Por Armando Sousa Teixeira
Barreiro

As imagens de uma brutal explosão apertam-nos o coração. A sua força telúrica faz lembrar a de um engenho nuclear, como aquele que a América do Norte lançou em Nagasaki há precisamente 75 anos, a 6 de Agosto de 1945 e que fez de imediato 60 mil mortos (140 mil no total). Um acto de guerra hediondo sem justificação, dos Estados Unidos da América sobre a população civil num Japão já derrotado, governado por uma camarilha imperial incólume.

7 min de leitura
UM ACTO DE GUERRA COMO HÁ 75 ANOS? Por Armando Sousa Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

Vendo bem não se tratava de uma bomba atómica (ou de Hidrogénio) ou então o registador das imagens teria sido varrido em segundos. Talvez um ataque de Israel, “tecnicamente” em guerra com o Líbano, aventa um comentador encartado. Vontade não faltará entre os falcões sionistas (possuem a bomba nuclear!) de suprimir os vizinhos árabes, como de resto têm feito sistematicamente com os palestinianos.

A ponta do véu é levantada ao fim da tarde pela locutora que fala na armazenagem no porto de três mil toneladas (?) de Nitrato de Amónio. Hélas! O nosso conhecido “Ammonium Nitrate” que ainda se fabrica no Lavradio, mas em solução (a chamada “Papa”), potencialmente menos perigosa. Vêm-nos à memória acidentes terríveis com este composto químico que é um excelente fertilizante para a agricultura, fornecedor de Azoto, um dos três elementos fundamentais para as plantas (Azoto, Fósforo e Potássio). Nas formas mais concentradas é utilizado no fabrico de explosivos.

Participámos durante muitos anos na equipa de produção, a partir da oxidação catalítica do Amoníaco para fazer Ácido Nítrico e depois, reagindo este novamente com o Amoníaco para chegar ao Nitrato de Amónio. A fábrica de Amoníaco, o coração do complexo químico do Lavradio, foi encerrada em 2008, apesar das promessas da família Mello e do ex-governante Catroga de que nunca seria alienada. Venderam-na a um grupo espanhol (Fertibéria) que no ano passado a passou a um fundo financeiro estrangeiro que veio “espremer” a fruta madura da indústria nacional de adubos (Lavradio, Alverca e Setúbal).

Com a consistência sólida tradicional mais concentrada (como estaria em principio, no porto de Beirute), o NH4NO3, chegou a ser feito na forma “prillada” (pequenas esferas brancas) a partir de um “chuveiro” na torre mais alta, ainda hoje visível na Barra-a-Barra (foi descontinuado em 1993).

A sua conhecida perigosidade, devido ao elevado potencial explosivo (tanto maior quanto maior for a concentração que pode ir de 20,5% a 35%), obriga a especiais cuidados de produção e armazenagem. Segundo a legislação portuguesa à época, o armazenamento não poderia ultrapassar as 400 toneladas, em montes separados de 100 ton, o que não terá sido alterado pela legislação mais recente (Dec. Lei nº 150/2015). O Ministério da Indústria/Direcção Geral de Explosivos, fazia inspeções aleatórias bianuais aos armazéns que deviam estar impecavelmente isentos de matéria orgânica e sem qualquer fonte de ignição que pudesse despoletar uma reacção explosiva em cadeia, como agora terá acontecido. “Nem serradura para o chão podíamos usar”- diz o Rogério, “expert” na matéria.

PARA MEMÓRIA FUTURA

A informação surge depois mais precisa. Estavam armazenadas 2750 toneladas de Nitrato no porto de Beirute, há seis anos!? Ocorrem-nos acontecimentos graves estudados para manter os responsáveis e os operadores químicos avisados e conscientes. Qualquer fábrica química tem um risco de perigosidade. A segurança dos trabalhadores e das populações limítrofes depende do grau de preocupação com a manutenção dos equipamentos, do respeito das normas de produção e de armazenamento. Em última análise, da priorização do investimento na formação, na prevenção, na manutenção regular e nas melhorias tecnológicas. Não raro, tal é incompatível com a preocupação da maximização dos lucros e da remuneração do capital dos accionistas privados.

- Em 2001 em Toulouse, no sul de França, a explosão de 300 toneladas de Nitrato de Amónio na própria fábrica, originou a sua total destruição, cerca de três dezenas de mortos e os vidros da cidade partidos num raio de cinco quilómetros.
- Em 2013 no porto de Tianjin, na China, a explosão de grande quantidade de “Ammonium Nitrate”, destruiu o dito e uma parte da cidade, com centenas de mortos estimados.
- As notícias mostraram mais tarde as imagens terríficas do atentado de Oklahoma, nos Estados Unidos, em 1995, em que o terrorista utilizou duas toneladas misturadas com combustível junto a um edifício administrativo, fazendo 168 mortos.

- Os USA já tinham tido um grande desastre com o composto em 1947, em Texas City, com 581 mortos.
Razões de ponderação e alerta não faltaram no Líbano. Uma equipa de inspecção teria alertado para o potencial perigo e o assunto estaria em tribunal. Deve ter caído numa daquelas gavetas sem fundo onde medram o desleixo, a incúria e a corrupção que vai corroendo o mundo capitalista onde as pessoas nunca estão primeiro.

…TRANCAS À PORTA

Num saco sem fundo não caíu o famigerado projecto do “Terminal de Contentores de Lisboa no Barreiro”, que felizmente para os barreirenses, jaz morto e enterrado e não deixaremos que ressuscite como o Outro.
A que propósito vem tal projecto para aqui?
O actual Executivo Municipal do Barreiro apresentava-o como a oitava maravilha, mas a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), chumbou-o em toda a linha, atendendo entre outras, naturalmente, às “Dez razões para não querer o Terminal no Barreiro”. Apesar da tentativa da sua ridicularização em sessão pública, pelo vereador responsável e pelo representante da Administração do Porto de Lisboa (APL), foram todas atendidas pela APA!
Em boa verdade todas menos uma, que vem a propósito referir: A existência de um Terminal de Líquidos (ex-Tanquipor e actual Alkion) rio adentro, que armazena milhares de toneladas de matérias químicas potencialmente inflamáveis e/ou explosivas, em diferentes graus:
- Acrilonitrilo, matéria-prima para a fabricação de fibras sintéticas. Em rigor é feita a trasfega directamente para a fábrica (Fisipe).
- Amoníaco, importado para um tanque com capacidade de 30 mil toneladas.
- Fuel, Gasóleo e Gasolinas, em múltiplos depósitos cilíndricos (mais de uma dezena).
O primeiro é altamente explosivo, o segundo explode quando misturado com o ar em concentrações elevadas (já houve desastres tremendos!). Os terceiros são altamente inflamáveis.
As Directivas de Seveso (lugar em Itália onde houve um grande desastre químico), plasmadas na Directiva Europeia 2012/18/EU, estabelecem normas rígidas de armazenagem e distanciamento das instalações potencialmente perigosas (mínimo de 500 metros). Ora o Terminal de Contentores seria construído paredes-meias com o referido Terminal de Líquidos. Não era licenciável como é bom de ver, andou bem a APA.

VAMOS VER OS AVIÕES?

Escrevemos não para lançar qualquer tipo de pânico, mas para alertar de forma responsável quem aprecia os projectos e tem poder de decisão. As populações devem ser informadas com rigor e seriedade e não com “lavagens ao cérebro” dos milhões que hão-de cair dos céus e dos milhares de postos de trabalho que não passariam de algumas dezenas (fazem falta mas não estes!).
Vem a propósito lembrar que o putativo Aeroporto do Montijo ficaria em linha recta a pouco mais de um quilómetro de uma hipotética onda de choque no caso de um acidente grave. A APA não terá considerado tal ao licenciar o projecto e por esta e outras razões, andou mal!
Não é só no Líbano que as coisas acontecem! Na Alemanha, na América, em França, na China, países tecnologicamente desenvolvidos, registaram-se terríveis desastres. Por prevenção e precaução não deverá ser construído um aeroporto internacional numa área de risco potencial elevado, embora saibamos do rigor que os técnicos e operadores do Terminal de Líquidos usam, que a propósito não tem a ver com o Nitrato de Amónio que é fabricado em solução na vizinha Adubos de Portugal, no Lavradio.

A TALHE DE FOICE…

A propósito constatamos/alertamos para o facto de a construir-se o Aeroporto no Montijo, ficar inviabilizada para todo o sempre a Terceira Travessia do Tejo, Barreiro/ Chelas.
Uma das razões apresentadas pela APA para chumbar o Terminal de Contentores seria a existência de Pórticos com 95 metros de altura, dificultando a aproximação dos aviões na aterragem. A ponte sobre o Tejo passaria a mais de 100 metros de altura!

Armando Sousa Teixeira

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