Crónicas avulsasAcerca de corridas, de carácter e de figos.
Henrique Bonança
VRSA

Por Jornal Rostos
A oferta noticiosa geral, a nacional e a internacional, parece-me pobre mas, tentam compensar com fartura inusitada de especialistas comentadores polivalentes, exibição de muitos gráficos reveladores do que nos querem dizer, acrescentando uns debates e reportagens que mereceriam espaço e tempo de antena próprio; todavia, apesar de esse serviço estar estruturado de forma para mim pouco apelativa, já em terrenos de notícia internacional, deparei-me com o curioso relato de uma invulgar corrida de bicicletas, algures numa remota aldeia em Tamil Nadu, um estado no sul da Índia, integrada nas festividades da comunidade Hindu, tal como outros rituais em honra do seu deus Sol, como tributo ou agradecimento pela abundância agrícola.
O foco do apontamento estava na inesperada circunstância da divertida e renhidíssima competição que entusiasma uma muito ruidosa multidão de assistentes, ser ganha por quem corta a meta em último lugar. Essa regra competitiva exige que os participantes imprimam a velocidade adequada ou, se quisermos, a lentidão suficiente para obter o equilíbrio necessário que evite colocar o pé no chão para não ser desclassificado, ficar intencionalmente atrás dos outros e assim vencer com toda a justiça.
Daquilo que vi, o ganhador, acrobata exímio ao nível do mítico funambulista Carlos Avelino das feiras da minha infância, parecia estar “estacado” no mesmo sítio, movendo vigorosamente o guiador da “pasteleira” para um lado e para o outro, serenamente sentado no selim, apoiado nos pedais e accionando os travões: quando os outros cortaram a meta, ainda ele só tinha percorrido um terço do percurso de terra batida. Um autêntico craque, portanto!
À minha memória, regressando das primeiras leituras dos livrinhos requisitados semanalmente à biblioteca municipal “Calouste Gulbenkian”, emergiu a fábula da Lebre e da Tartaruga de “La Fontaine” que dizem tê-la ido buscar a “Esopo”. Neste conto, o vencedor é mesmo aquele que chega primeiro: a persistente tartaruga corta a meta antes da ligeira e vaidosa lebre; sabendo ser mais rápida, permitiu-se uma soneca em plena corrida.
O regime democrático e a posterior adesão de Portugal à antiga CEE, os importantes fluxos de fundos e a aplicação de programas comunitários, mesmo descontando aquilo que correu menos bem, permitiram saltos qualitativos positivos a vários níveis e indicadores de excelência como o da mortalidade infantil e, hoje, vivemos num país muito melhor.
Durante uns anos, a corrida pelo crescimento económico permitiu aproximação a médias europeias, no entanto, vamos escutando que países vindos do outro lado do muro, à época com índices de desenvolvimento inferiores ao nosso, poucos anos após a sua adesão à Comunidade Europeia, ultrapassam-nos a toda a velocidade quer pela nossa direita quer pela nossa esquerda e, pelo que vemos acontecer, até parece que queremos progredir ficando em último, tal como na competição que fazem na longínqua aldeia indiana ou, então, parámos para uma reparadora “folga” após o almoço, como fez a emproada lebre.
A crer no que se ouve até à exaustão nos noticiários, somos bons naquilo que é mau. As televisões, com os seus telejornais de quase duas horas, anestesiam-nos. Ao falarem repetidamente de ranking´s internacionais e estudos onde em quase tudo estamos mal, provocam-nos uma angústia e depressões crónicas: diz-se que somos dos maiores consumidores mundiais per-capita de antidepressivos, circunstância que a ser verdade, se calhar, poderá indiciar sermos um dos povos mais infelizes do planeta.
Parecem ser essas as narrativas que nos querem impingir. Na verdade, noutras paragens e com outros enquadramentos de planificação e organização social ou empresarial, os portugueses dão cartas a qualquer um. O problema estará numa parte das elites que deveriam liderar pela competência e pelo exemplo e, afinal, como tivemos a oportunidade de constatar com as vacinas, desiludem!
Com a chegada ao nosso país dos primeiros lotes de vacinas anti covid-19, estabelecidas algumas regras e prioridades, a campanha de inoculação começou com a comunicação social a relatar alguns casos lamentáveis: o egoísmo de alguns que com desculpas esfarrapadas, tentaram e conseguiram colocar-se à frente de uma fila encabeçada pelo Presidente da República, seguida do Primeiro-ministro e outras altas figuras do estado, dos nossos heróis que servem o SNS, dos nossos idosos e pessoas fragilizadas pela doença, dos nossos sempre presentes queridos Bombeiros e tantos outros!
Enquanto cidadão, registei com agrado reacções de responsáveis políticos de topo a referir “inquéritos do ministério público” com promessas de castigo aos infractores; assim, as autoridades competentes deverão “Investigar e retirar consequências, caso sejam provados os ilícitos”: para que fiquemos todos mais descansados, esperemos que sejam controladas eventuais manobras dilatórias promotoras de esquecimentos.
Tudo isto faz lembrar a estória do senhor que num dia de muito calor, ao passar em frente à casa de um amigo cuja esposa estava à porta, pediu-lhe um copo com água para matar a sede. A senhora convidou-o a entrar e, antes de ir à cozinha buscar o copo com água solicitado, ofereceu-lhe um dos figos que enchiam um prato.
Ao voltar à sala, ao olhar para o prato com os figos, percebeu que o convidado os havia comido todos, sobrando só as cascas!
Henrique Bonança
VRSA – 10 de Fevereiro de 2021














