Conversas no Largo da TerraDesconfinar ou não desconfinar… Esta não é a questão!
Por Mário Durval
Barreiro

Por Jornal Rostos
Restringidas que são as liberdades das pessoas e com a economia severamente atingida, vamos ver crescer uma legião de pobres revoltados com a situação e que serão terra fértil para que a extrema direita se tente aproveitar. Também muitos pequenos proprietários à beira da falência e que não compreendem algumas das medidas que os afetam e o seu prolongamento indefinido, serão potenciais seguidores dum qualquer revivalismo salazarento que diga defender os seus negócios.
Esta ameaça política existe, e a gravidade da situação deve-se ao facto de se lhe ter aberto espaço, por se criarem expectativas que o controlo da pandemia era feito exclusivamente pelo governo sustentado no Serviço Nacional de Saúde. A mensagem não está sustentada em bases cientificas que possam ganhar a adesão da população porque, sabendo nós que o contágio se dá pessoa a pessoa, deveríamos mobilizar as pessoas para estabelecer barreiras entre elas. Esta mensagem deveria ser a única central na comunicação do Governo e não se deveria ter deixado dispersar pelas questões jornalísticas e os fait divers das oposições. Só as pessoas devidamente empoderaradas, compreendendo os mecanismos de transmissão poderão controlar a pandemia num exercício de cidadania, até que a vacinação produza a imunidade de grupo.
A eficácia do confinamento deve-se ao facto da limitação da liberdade impedir o contacto entre as pessoas, não acrescentando assimilação de comportamentos em comunidade. Pelo contrário induz atitudes de gozo da liberdade, obviamente exageradas, quando se desconfina. O confinamento geral tira o foco do centro do problema que é a transmissão pessoa a pessoa. É como se, para tratar um panarício num dedo da mão, se optasse por cortar o braço. Olha-se para a falta de braço e ninguém mais quer saber do dedo.
Agora é preciso olhar com otimismo para os tempos que aí vêm. Primeiro porque as vacinações vão limitar a doença, nos mais vulneráveis, a partir de abril e os mais de 800000 infetados também são uma barreira, embora que não determinada a sua longevidade. Em segundo lugar porque na rádio pública se começam a ouvir apelos ao assumir da responsabilidade por parte de todos. É necessário que a mensagem seja devidamente trabalhada para não ser assimilada emocionalmente pelas pessoas como uma acusação de culpa, como aconteceu há algum tempo em comunicações do governo.
O debate entre os peritos também é feito como se as pessoas não tivessem vontade própria e, as tendências são analisadas como se tratasse de populações que não tivessem capacidade para alterar comportamentos. É aqui que falta a visão comunitária, que a crise na Saúde Pública arredou para segundo plano. É a abordagem comunitária que altera comportamentos, que devemos ainda tentar, para diminuir as possibilidades da quarta onda.
Neste momento é já impossível ignorar a discussão sobre o desconfinamento, que é urgente, mas seria desejável que o discurso oficial apelasse ao exercício da cidadania e demonstrasse confiança nos portugueses, coisa que não passa nas declarações do governo.
Mário Durval














