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Quotidianos

Plano de desconfinamento ou plano de mobilizaçãoPor Mário Durval
Barreiro

Como foram seriamente atingidas as liberdades dos cidadãos na sequência dos estados de emergência, temos as atenções concentradas no aliviar destas restrições. Governo e oposição medem forças na apresentação de alternativas mais rápidas ou mais lentas para a abertura das diversas atividades. É muito pouca política para tão grande problema. A retirada de direitos fundamentais dos cidadãos mereceria um debate mais qualitativo e menos quantitativo.

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Plano de desconfinamento ou plano de mobilização Por Mário Durval Barreiro

Por Jornal Rostos

Os debates são, em essência, vazios de cidadãos e cidadania. Apenas são considerados como números e não como agentes ativos e “proprietários do país”. Mesmo quando se dirigem à população, os governantes esperam que os cidadãos os ajudem, como se controlar a pandemia fosse uma tarefa do governo e não um objetivo que tem de ser assumido pela população. Também alguns profissionais de saúde têm atitude semelhante, apelando ao comportamento da população para aliviar a pressão sobre as suas atividades.

A discussão deveria centrar-se sobre como desenvolver as capacidades dos cidadãos para assumirem o combate à disseminação do vírus. Esse combate passa pelo conhecimento dos mecanismos de transmissão e as condições ambientais e de relação interpessoal que os favorecem e as medidas que podem ser tomadas para os contrariar. O que vimos desenvolver foi o medo porque a comunicação é dominada por notícias de problemas resultantes das infeções e mesmo, atualmente, da administração de vacinas e das aldrabices em torno dos calendários. Os eventos ocasionais sem qualquer impacto significativo no desenrolar da pandemia, transformam-se em “catástrofes globais”, com graves impactos na credibilidade dos responsáveis e nas reações de muitos cidadãos.

Muitos comentadores, e nunca houve tantos, têm alertado para erros na comunicação do risco e das medidas a tomar por parte dos cidadãos. O próprio governo admitiu esta insuficiência e criou uma task force para melhorar a comunicação. No entanto, o problema fundamental, que não é só português, mas é uma situação a nível global, é a falta de confiança nos cidadãos e, em consequência, não serem chamados a assumir responsabilidades na contenção da pandemia. Só o empenhamento ativo dos cidadãos poderia evitar o alastramento da pandemia, a partir do momento em que se tomou conhecimento de que a transmissão do vírus era também feita por infetados assintomáticos. A partir desse momento o isolamento dos infetados passou a ser uma incógnita, pois todos eram potenciais infetados e, dificilmente, se conseguiriam selecionar as pessoas a confinar.

Para a resolução de tal problema havia duas opções: a primeira, que foi a escolhida era realizar testes um pouco às cegas na esperança de encontrar casos positivos e a outra era confiar nos cidadãos e criar as formas adequadas de empoderar as pessoas para que criassem as barreiras à transmissão no dia a dia. A comunicação das medidas individuais foi submergida pela propaganda dos testes. As medidas de caráter coletivo que dificultavam a transmissão foram completamente menosprezadas o que levou aos números catastróficos em muitas ERPI. Os profissionais da saúde pública em vez de andarem a mobilizar as instituições para medidas adequadas andaram e continuam a andar a contabilizar casos em vez de os evitarem.

As medidas na sequência dos planos de contingência, por nalguns casos serem dificilmente compreensíveis para as pessoas, criam revolta e, à boa maneira portuguesa, criam condições para que a maneira de se dar a volta ao problema seja a única preocupação. E assim damos corda a duas caraterísticas muito portuguesas: a obediência cega e o chico espertismo.

Criou-se a ilusão que o governo pode resolver a situação, quando não pode responsabilizar-se pelo comportamento de cada um de nós. Neste sentido, a oposição pede responsabilidades ao governo pelo caminhar da pandemia mas também todas as agremiações e lóbis apenas sabem pedir vacinas prioritárias para os seus, mas nada dizem quanto ao comportamento que estes deviam ter.

Ainda estamos a tempo de começar a inverter esta lógica do empurrar para os outros a resolução do problema. Haveria que lançar um arrojado plano de mobilização dos portugueses para o combate à pandemia, com o respetivo plano de comunicação agregado. Mas para ir para a frente é necessária a confiança na capacidade dos portugueses se mobilizarem para aplicar os cuidados individuais e simultaneamente as suas organizações assumirem também esse papel mobilizador. Em particular as organizações de juventude deveriam ser chamadas a assumir um papel de destaque, assim como as organizações de emigrantes, pois estes têm sido dos principais atingidos pela infeção.

Se continuarmos a passar a mensagem emocional que é a retirada das liberdades que limita os contágios, a cada fim de confinamento continuará a seguir-se uma subida exponencial de casos, até que a vacinação geral produza efeitos comunitários. Se o Scolari conseguiu mobilizar-nos para o apoio à seleção no europeu de futebol, acredito que os portugueses se conseguem mobilizar por um desígnio mais solidário e de alcance humanitário, um verdadeiro desígnio nacional.

Mário Durval

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