E DE REPENTE...O MUNDO PAROU *Por Emanuel Góis
Barreiro
Este inimigo sei quem é e até de onde veio e vem.
Mas, sei lá eu por onde andará?
Se calhar mora ao meu lado.
Alto lá. Isto agora já é diferente.
Tenho de ter cuidado não me vá ele atacar, como dizem por aí, constantemente.

Por Jornal Rostos
E também os Presidentes, ministros e deputados.
Têm razão, agora toca a todos e todos os cuidados são poucos.
E esta desalmada gente que tanto apela à solidariedade, que de conversa é um doutor, até esquece as maneiras e, malta, salve-se quem puder, enquanto houver comida nas prateleiras.
Mas estou-me nas tintas. Não admito a supressão do meu direito à liberdade. Vem na Constituição. Má nada.
A economia está de rastos ? Gente sem abrigo? Gente com fome? O Estado que trate deles, eu por mim estou arranjado.
Quero lá saber dos refugiados, se nem sequer são conhecidos.
Síria? Quero lá saber, eles que se matem uns aos outros.
Pedofilia, tráfico humano, tráfico dos “pós que nos poem felizes” por uns instantes, tráfico de armas que por aí soam, tráfico dos dinheiros invisíveis que voam, violência doméstica, sociedades descaracterizadas?
Ora, não é nada comigo. Cada um que cuide de si, nada tenho a ver com isso.
Somália, Yémen, República Centro Africana, antiga Birmânia, Moçambique? Direitos das mulheres no Irão e na Arabia Saudita e...e….? Sei lá eu, isso são costumes lá deles.
Fome em África? As tribos e os chefes que se entendam. Têm petróleo, diamantes e... até corrupção. Nem é nada comigo.
Direitos das crianças e exploração de mão de obra infantil? Quero lá saber onde e quem fez a mala e os meus sapatos, o fato que tenho vestido, sem esquecer a gravata.
Quero é férias e no Dubai, que não tenho que saber quantos morreram ao construir tamanha megalomania, se foram respeitados os direitos humanos e se tinham pão na mesa ou manta para se taparem.
O que agora interessa é que o inimigo não bata à porta, “à minha” que eu quero lá saber da “vossa”. E as férias, quero ir de férias.
Não quero é que o poder político e financeiro se sacrifique. Quero-os animados. Bolas, assim como assim, são eles os nossos garantes e não quero que lhes falte nada.
E a vacina, isso, a vacina. Quero a minha, que essa coisa das guerras de bastidores entre os manhosos dos laboratórios e os governantes – sem esquecer os falsificadores que por aí já andam – tem de vir já e, depressa. Se me perguntarem, prometo dizer que foi uma sobra.
Tenho de ir fazer exercício - é verdade que nunca tinha feito na vida - mas foi uma coisa que agora me deu.
Ah! e passear o cão – não é que goste muito deles – geralmente nas férias até os deixo ir sozinhos por aí...mas agora têm dado cá um jeito...
E será então que uma vez mais, derrotado o inimigo - que este agora tocou a todos, livra - seremos chamados e louvados pelo nosso sentimento de fervor patriótico, a irmos ajudar, “nobre povo nação valente” , anunciados que estão paletes de notas distribuidas por toda a gente ... ,quero dizer, a pagar uma vez mais do nosso bolsinho, com a sempre disponibilidade do nosso esforço e sacrifício, dever cívico e de cidadania.
Pelo que se vê e ouve, dinheiro não falta.
Esperemos que ninguém venha depois desculpar-se pela mais que possível má distribuição de verbas, onde especuladores e oportunistas de todo o género, surgem aos magotes. Como as vacinas.
Claro, tudo isto sem embargo da nossa jamais renegada “vertente revolucionária” em manifestações pelas avenidas, gritando, ”não pagamos” ou ”quero aumento”, pois gastei tudo no papel higiénico, combustível, fato de treino, na despensa cheia e... na compra do cão.
Mas, de tudo o supradito se têm encarregado os canibais das televisões de nos avisar, que é o que agora está a “vender”.
Quanto às outras tragédias do mundo que eram notícia de abertura, de repente ... “estão longe, lá muito longe...”
São os chamados, com as distâncias devidas e incomparáveis, repórteres de guerra do ar condicionado e dos “gigabites”.
E, quando a guerra acabar e o inimigo se for embora da porta, da “minha” porta, da vossa porta e dos senhores do poder … logo se verá.
Vamos lá ver se alguns serviços públicos tanto “tempo de porta fechada” conseguem recuperar o ritmo que, diga-se, ate antes do “maldito” 19 já não era muito.
É que de repente...o mundo parou.
* Escrito ficcionado
Emanuel Góis














