Psicologia – Notas ReflexivasMEMÓRIAS ESQUECIDAS ?
(O cuidador, a demência e os seus aspetos vivenciais)
Por Rui Grilo
Barreiro
Não me reconhece quando chamo o seu nome... Olha para mim de forma pouco convicta com movimentos lentos e graduais... Por momentos sinto um olhar de desconfiança e receio...

Por Jornal Rostos
Que dor e angustia sinto, perante alguém que já não me reconhece enquanto pessoa importante e significativa na sua vida... Mas que por momentos, olha-me com a mesma ternura e afeto de outrora...
Mas apenas por momentos...
Por ligeiros momentos...
Memórias esquecidas?
Será que ainda reside algum espaço na sua memória para mim?
Que "egoísmo" o meu...
Sentimento de frustração esse, assente em lindas e reconfortantes lembranças... assente no cuidador que em tempos foi... assente em quem promoveu segurança e proteção...
Apenas desejo que recorde novamente...
Porque sei que lá no fundo, reconhece-me e está vinculado a mim... Nem que seja de forma fugaz...
Agora... revela sempre um discurso tão fragmentado e vazio; precisa de ajuda para as atividades mais simples; fala de coisas que não existem e fala com quem não está presente.... Tem uma realidade só sua... Vive sozinho consigo próprio....
Em diversos momentos, mostra apatia e estranheza...
Imagino a sua dor...
Mas ele sorri... Como se não tivesse consciência da dor que "provoca" em mim... Sorri porque está feliz com a sua realidade... com as suas memórias... com a realidade que criou para sobreviver intelectual e emocionalmente...
Expressa as suas vivências mais arcaicas de forma tão presente... e fala dum presente que ninguém tem experiência ou conhece...
Apesar de todas as dificuldades, devemos nutrir sempre a esperança de encontrar outro caminho...
Um novo caminho...
Um caminho que passa pelo novo entendimento daquela pessoa...
Um novo entendimento de quem nós representamos para aquela pessoa.... E daquilo que estamos dispostos para dar e receber em termos afetivos...
É tempo agora... de ser eu a retribuir a segurança, proteção e cuidado que sempre recebi.... Este é o meu tempo para o outro...
Será esta consciencialização, que nos permitirá renunciar à dor e angustia, para nos focarmos no essencial... no afeto, no cuidar e no Amor...
Devemos aceitar envelhecer... mas não aceitar sermos velhos...
É nisto que devemos acreditar...
Um bem Haja.
Rui Grilo














