GRAXA, FREGUÊS?Por Emanuel Góis
Barreiro

Por Jornal Rostos
Não têm, necessariamente, de ser cópias, antes, até, podem nada ter a ver entre umas com as outras.
Mas, acontece que, precisamente por esses ressurgimentos pontuais dessas recordações, nos fazerem lembrar outras, neste caso - e num apelo à tradição popular, solidamente consolidada, aliás, nos portugueses ao longo dos anos – me ocorreu ao pensar sobre o conceito de “engraxador”.
Foi isso que aconteceu quando, estando a “falar” com os meus botões, como dizia, ingenuamente, pensava que a profissão de engraxador já tinha acabado.
Na verdade, quem não se lembra dos antigos engraxadores nos cafés com as suas caixas de trabalho perguntarem se queríamos engraxar os sapatos ou, nalguns vãos de escadas ou, ainda, noutros casos, em lugares específicos das vilas e cidades onde, ao Domingo, muitos aproveitavam para tirar o pó das “ peles” dos sapatos.
E, como esquecer aquele “quadro vivo” quando alguns de nós passávamos pelo Rossio em direcção aos Restauradores - ali mesmo em frente ao, então, café “ Gelo” - depois substituído por uma sala com diversas cabinas telefónicas onde muitos punham a escrita em dia, perguntarem:
- Graxa, freguês, graxa? ao mesmo tempo que olhavam para os nossos sapatos e, em jeito de recriminação, abanavam a cabeça quando dizíamos que não e, vendo eles que os trazíamos numa vergonha.
Neste particular, havia também uns que ali possuíam bancos, outros uma espécie de “berger” e, outros, mais pobres, não tinham outro remédio que dizer ao cliente que tinha de ficar de pé.
Pois bem, hoje, já não existem engraxadores desses.
Mas – e aqui me surgiu a tal “associação de ideias” existem outros.
Já não usam os pequenos frascos de tinta nem as tradicionais latas de pomada, nem o pano de mesa de bilhar para puxar o lustro com estrondo e, quanto maior era o estrondo puxado com mestria e invulgar destreza, mais recebiam o aplauso dos clientes.
Mas hoje, não. Hoje os engraxadores inverteram os papéis. Hoje são eles os clientes. E já não apregoam.
Evoluíram. Agora utilizam as mãos, mas para aconchegar com suaves palmadinhas nas costas, não dos clientes, mas dos “detentores” das tintas, das escovas, das pomadas e, claro, das “bergeres” num qualquer gabinete onde se possam sentar.
Também, por outro lado, sempre dá jeito enviar uma prenda e um telefonema de parabéns, desejos de feliz Natal, colocar muitos “likes”, se possível, com corações a vermelho a aplaudir comentários e “façanhas” dos donos das bergeres.
Isto, obviamente, sempre em permanente assiduidade. Não podem esquecer-se de se mostrarem e demonstrar, de forma mais visível ou mais, disfarçadamente, as respectivas “graxas”…
O que verifico é que continuam a andar por aí tantos engraxadores. E já agora, cumprindo e, respeitando, a igualdade de género, também são tantas as engraxadoras – que nestas coisas não se deixam ficar para trás - que tenho dificuldade em perceber o ressurgimento de tanta graxa para tão poucos sapatos...que por mais sapatarias que se abram, não dá para todos.
Ou, melhor, todos sabemos, né?
Emanuel Gois














