Vamos pedir direito de asilo para as mulheres afegãsPor Alexandra Serra
Sesimbra
Quando os direitos das mulheres em qualquer local do mundo são triturados só se pode acreditar em algo: na força, na cólera das outras mulheres.
Com o avanço do Talibã, necessitamos de nos mobilizar para ajudá-las antes que caia sobre nós a superior das vergonhas.

Por Jornal Rostos
No final deste mês de agosto as últimas tropas norte-americanas abandonaram o Afeganistão,. A Espanha também organiza sua pequena intervenção conjunta entre os ministérios da Defesa, Interior e Relações Exteriores, para evacuar 40 afegãos e suas famílias que auxiliaram as tropas espanholas que lá estiveram deslocadas por vários anos e que agora se expõem à represália certa dos talibãs.
“Os afegãos precisam lutar por si mesmos”, disse o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. E as afegãs? O que será das mulheres que desde 2001, com a incursão das tropas dos Estados Unidos e da OTAN, voltaram às escolas e agora são professoras, jornalistas, médicas, enfermeiras, secretárias, policiais, vereadoras e deputadas? 25% do atual Parlamento de Cabul são mulheres.
Como vão se defender as orgulhosas e infelizes adolescentes afegãs que apareceram há dias nas ruas da província de Ghor empunhando velhos fuzis e desafiando a prestes chegada dos talibãs? São elas que precisarão derrotar um exército ? Ninguém na Casa Branca e na ONU ficou doente ao escutar que o compromisso talibã em relação a essas mulheres é “garantir seus direitos de acordo com o islão”? Os talibãs não são o islão, e sim uma ideologia político-religiosa com um extraordinário componente de opressão sobre as mulheres e há esmagadoras evidências disso.
Os relatos da jornalista britânica Emma Graham Harrison para o The Guardian estão cheios de espanto por essas determinadas mulheres, mas não escondem o seu pânico pela calamidade que se avizinha. As manifestações de força e ânimo das adolescentes e das mães que tentaram educá-las em liberdade também são demonstrações de seu medo e aflição pelo abandono em que ficam. Os talibãs não mudaram: continuam com o fundamento que as mulheres seres humanos inferiores que não podem protestar e exercer os mesmo direitos que os homens. Jornalistas como Graham Harrison dão todos os dias declarações do que acontece nos territórios que vão caindo em seu poder: as mulheres não têm autorização para sair à rua sem companhia de um familiar homem, não podem frequentar as escolas públicas e os hospitais gerais, não podem trabalhar e devem se cobrir totalmente (burca).
Em 10 de agosto, o The Guardian publicou um artigo escrito por uma jovem jornalista de 22 anos: “Há dois dias fugi de minha casa no norte do Afeganistão pela chegada dos talibãs à minha cidade... Continuo a fugir e não há lugar a salvo para mim... Na semana passada eu era jornalista, hoje sequer posso dizer meu nome... tenho medo e não sei o que me acontecerá... Todas as minhas colegas estão aterrorizadas..., por favor, rezem por mim”.
Talvez, além de rezar, nós mulheres de todo o mundo consigamos fazer algo mais, antes de que caia sobre todas nós a maior das vergonhas.
Já percebemos que quando os direitos das mulheres em algum lugar do mundo são triturados só se pode confiar em algo: na força, na cólera das outras mulheres. Não admitamos que ocorra o que está prestes a acontecer.
Vamos pedir direito de asilo para as mulheres afegãs que fogem, sejam milhares e dezenas de milhares. Protejamos com dinheiro, com trabalho voluntário, como pudermos, todas as associações e organismos que consigam enviar ajuda para que elas resistam. Vamos exigir às nossas deputadas e ministras que se organizem e atuem.
Alexandra Serra














