Psicologia - Notas ReflexivasESQUIZOFRENIA
(Breve definição e evolução histórica dos conceitos de doença mental e esquizofrenia)
Por Rui Grilo
Barreiro

Por Jornal Rostos
ESQUIZOFRENIA
(Breve definição e evolução histórica dos conceitos de doença mental e esquizofrenia)
“ Na realidade não é a pessoa que se expressa através da personagem, mas a personagem que parece manter viva a pessoa.”
Badaracco (1986)
I - Evolução Histórica do Conceito de Doença mental
Quando se define Saúde, é imperativo que se fale em Saúde Mental porque é parte integrante dessa mesma definição. Como tal, a OMS define Saúde Mental como “...um equilíbrio da personalidade considerada na sua globalidade bio- psicossocial".
As perturbações mentais são doenças caracterizadas por fragilidades de ordem emocional, cognitiva e comportamental, na medida em que afectam a capacidade de pensar e adaptar-se à realidade, capacidade de desempenhar funções sociais, bem como a capacidade de lidar com a maior parte dos problemas da vida quotidiana...
Infelizmente, o uso do termo Saúde Mental, confunde-se recorrentemente com a de perturbação mental. A prevenção, o tratamento e a reabilitação das doenças mentais são parte integrante do domínio da saúde mental. (Mandlhate, 2002)
Perante a definição anteriormente descrita, será importante fazer uma breve evolução do conceito de doença mental ao longo dos tempos.
Relatos primitivos mitológicos e religiosos demonstram que, as perturbações mentais existiam há muitos milénios atrás, quando por exemplo o “...Rei Nabucodonosor da Babilónia andava em quatro patas pensando ser um lobo,” ou quando “...o herói grego Ajax esquartejou um rebanho de carneiros que erradamente tomou pelos seus inimigos.” (Gleitman, 1986, p.806).
Através da Medicina grego – romana, Hipócrates procurou introduzir a razão em oposição às abordagens empíricas, enfatizando que a explicação para as doenças deveria ser feita através do raciocínio e da observação.
Empéclodes considerava a existência no organismo de quatro elementos fundamentais, denominados de Humores (sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra). O equilíbrio do organismo era alterado quando existia um predomínio dos Humores ou da sua qualidade, originando desta forma uma ruptura, a doença mental.
No século XII, durante a Idade Média, deu-se lugar a concepções do tipo mítico e religioso em que os “...loucos eram vistos como vítimas de possessão divina ou demoníaca...” (Diniz, 1995). As pessoas eram possuídas por espíritos malignos e a cura era a expulsão dos mesmos através do exorcismo. Com sorte, muitas dessas pessoas viam os seus espíritos serem exorcizados através de rituais religiosos ou orações, mas por vezes, esses demónios teriam de ser expelidos através de uma saída material, através de um buraco no cérebro.
Segundo São Tomás de Aquino, a doença mental era um “...estado em que o homem perdia a razão, ficando fora de si (Amens), delirante, violento, e inacessível a uma relação humana (furiosus).” Desta forma perdia a alma espiritual e toda a razão chegando ao conhecimento de Deus.
Os chamados “loucos” sempre foram, e continuam a ser, discriminados e isolados da sociedade devido às características bizarras da própria doença. Exemplos dessa discriminação, foram a criação até aos finais do século XIX de Hospitais Gerais e “ Workhouses”. As pessoas com doença mental eram aí mantidas e fechadas com os vagabundos, prostitutas e portadores de doenças venéreas, uma vez que assim, evitavam a possível desorganização e mau estar na sociedade.
Com o aparecimento da Revolução Francesa e de todos os ideais libertadores, surgem as primeiras críticas às práticas de internamento, iniciando-se aqui um movimento de conquista dos direitos de igualdade das pessoas com doença mental.
Pinel, através da libertação dos “loucos” em Bicêtre, contribuiu de forma decisiva para que as pessoas com doença mental pudessem, aos poucos, ter acesso a assistência médica e para que a sociedade finalmente tomasse consciência do que era a doença mental.
A intervenção junto dos doentes vai-se individualizando cada vez mais, e a partir dos anos 60 encontramo-nos “...perante uma ideologia de desinstitucionalização paradoxalmente apoiada pelo desenvolvimento da psicofarmacologia.” (Diniz, 1995).
Os fármacos permitem a libertação e a diminuição de internamentos hospitalares, visando o desenvolvimento de competências e a reinserção das pessoas com Doença Mental na sociedade, através da criação de estruturas de suporte social.
II - Definição de esquizofrenia
Quando falamos em esquizofrenia, damo- nos conta da enorme diversidade de definições existentes. Tendo em consideração este aspecto, de seguida irão ser expostas algumas dessas definições.
Cardoso, refere que a esquizofrenia é “ o termo usado para designar um grupo de doenças cuja etiologia é desconhecida, apresentando sintomas mentais característicos que levam à fragmentação da personalidade”. A doença é recorrente, aumentando em cada crise a incapacidade crónica e o resultado final, passa muitas vezes pela excentricidade e inadaptação social necessitando frequentemente de hospitalização prolongada. (Cardoso; 2002, p.112).
O Manual de Diagnóstico e Estatístico das Perturbações Mentais, caracteriza a esquizofrenia “ como perturbação que dura pelo menos seis meses e inclui pelo menos um mês de fase de sintomas ativos (isto é, dois ou mais dos seguintes: ideias delirantes, alucinações, discurso desorganizado, comportamento marcadamente desorganizado ou catatónico, sintomas negativos)” (DSM- IV; 1996, p.279).
Em 2002, Afonso enfatiza que “ a esquizofrenia é uma doença que afecta profundamente a família e o meio em que o doente vive... é uma das mais importantes doenças mentais.
A sua prevalência de aproximadamente 1% faz prever que haja cerca de 100 000 doentes com esquizofrenia em Portugal...” (Afonso, 2002, p.14 e 15).
A Classificação Internacional de Doenças (ICD 10) para a esquizofrenia orienta-se por duas vertentes: Ter ideias bizarras ou um sintoma de 1ª ordem de K. Schneider, ou ter pelo menos dois dos sintomas característicos (alucinações com ideias delirantes, sintomas negativos ou catatónicos) e requer, apenas um mês de duração. (Cardoso; 2002, p.114).
Ainda outra definição é-nos fornecida pelo Gleitman, assinalando que “ uma das perturbações mais graves de toda a psicopatologia é a esquizofrenia (do grego schizo, «fenda, corte» e phrene,
«mente»... a esquizofrenia, como muitas outras perturbações, varia em grau de severidade)” (Gleitman, 1986, p.819 e p.832)
III - Uma visão histórica sobre a esquizofrenia.
A primeira referencia em termos científicos no âmbito da esquizofrenia, dá-se na época renascentista em 1602 pelo médico e anatomista Willis, descrevendo-a como uma forma de “estupidez adquirida” que afectava a juventude na sua maioria.
Em 1810, Pinel e Esquirol referem-se à esquizofrenia como “ idiotia congénita e adquirida”. Este tipo de abordagens começou a ser alterada e a pessoa com doença mental começou a ser respeitado como doente.
Através do livro “ Tratado de doenças mentais”, Morel em 1850, fala da esquizofrenia como sendo uma “ Demência Precoce”. Refere ainda que esta demência atinge uma população mais jovem, com aparecimento agudo e que evolui no sentido de uma perda cognitiva das faculdades mentais.
Posteriormente, foi descrito um quadro clínico designado de hebefrenia em 1871 por Hecker. A tendência era em aparecer em pessoas mais jovens, caracterizando- se através de comportamentos regressivos e deterioração mental.
Uns anos mais tarde, Kahlbaum refere-se a outro quadro clínico caracterizado por perturbações motoras e do comportamento, designado de catatonia.
Emil kraeplin em 1887, constata duas classificações. Na primeira classificação aborda a esquizofrenia através de psicoses curáveis de causa orgânica; psicoses incuráveis de causa interna e psicoses psicogénicas (quase sempre curáveis). Numa segunda classificação, e através do seu Tratado de Psiquiatria em 1893, refere-se à Demência Precoce através da hebefrenia, catatonia e paranóide (quadro clínico designado por si).
“...a doença era descrita como uma série de estados, com a característica comum da destruição das ligações internas da personalidade psíquica. Estas alterações tinham como consequência várias perturbações da vida mental ao nível da esfera emocional e da vontade”. (Afonso, 2002, p.21). Estes três quadros clínicos tinham uma mesma raiz pertencendo a um mesmo grupo nosográfico.
Em 1911 surge Eugen Bleuler com uma perspectiva psicopatológica, através de um modelo clínico descritivo. Foi este psiquiatra suíço que introduziu pela primeira vez a palavra esquizofrenia (schizo, « fenda, corte» e phrene,
«mente») e que explorou de uma forma descritiva o mundo interior de um esquizofrénico. O seu diagnóstico precoce baseava-se nas dissociações do pensamento, autismo e ambivalência afectiva.
É descrito por Kasanin em 1933 outro quadro clínico atípico da esquizofrenia designado por esquizoafectiva, em que ocorrem simultaneamente sintomas da linha afectiva e sintomas típicos da esquizofrenia.
Posteriormente seguiram-se outras descrições que se assemelhavam com a esquizofrenia descrita por Bleuler, como Baforadas delirantes; Psicoses histéricas e psicogénicas, entre outras.
Um bem haja.
Rui Grilo














