Psicologia - Notas ReflexivasINTEGRAÇÃO DO PSICÓLOGO EM CONTEXTO DE APOIO DOMICILIÁRIO - PARTE IV
(Notas sobre a intervenção do psicólogo no domicílio)
Por Rui Grilo
Barreiro
A casa da pessoa idosa – domicílio – é o contexto e o local privilegiado para o psicólogo intervir, já que fornece várias indicações que poderão levar à compreensão dos sintomas e do sofrimento do idoso.

Por Jornal Rostos
Assim, ao contrário do modelo hospitalar que até aqui tem subsistido, “…o domicílio do paciente tende a tornar-se o foco e a possibilidade de uma intervenção e assistência mais humanizada…” (Leite, E; 2002), onde o idoso passa a ter uma participação activa – Empowerment – no seu processo de reabilitação, bem como no planeamento e na execução dos cuidados.
Este contexto sugere acima de tudo, uma fonte de segurança e uma possibilidade de autonomia, de mudança e de auto estima. No domicílio, consegue-se perceber a dinâmica familiar de uma forma mais precisa, bem como, todos os aspectos que possam parecer insignificantes mas que poderão ter um elevado grau de importância, e que raramente acontecem no meio institucional.
Não podemos partir do pressuposto, que todos os idosos dependentes e com doenças crónicas, ou que os seus familiares e cuidadores informais, necessitem de apoio psicológico, já que alguns deles utilizam mecanismos de defesa eficazes para lidarem com a situação. (Laham, C; 2000).
A religião, acaba por desempenhar um papel muito importante na vida destas pessoas, sendo raras as situações em que o idoso não demonstre um apego extraordinário pela temática da Fé. Ainda assim, existem inúmeros casos em que esse mesmo apego é evidente, mas não suficiente. Recordo uma paciente, Sra. I. de 76 anos, que adere bastante bem ao tratamento no que diz respeito à psicologia, contudo, afirma que é a temática da Fé que a faz sobreviver ao sofrimento em que vive diariamente, e dedica todo o seu tempo a rezar e a contemplar o divino, sendo o seu quarto muito similar a um templo.
Obviamente, que nem todas as pessoas idosas possuem mecanismos de defesa que lhes permitam suportar o sofrimento e a dor que sentem, sendo a psicologia uma óptima estratégia para reduzir esses sentimentos depressivos e angustiantes.
Assim, existem algumas situações importantes a ter em conta, aquando das deslocações do psicólogo aos domicílios.
O profissional terá de ter algum cuidado, no sentido de não tentar impor as suas ideias e valores, sobretudo porque falamos de uma faixa etária com ideais e crenças muito próprias, com a sua forma de viver em família, com horários de refeições diferentes e com gostos pessoais de arrumação de casa.
Em qualquer circunstância, o psicólogo deverá respeitar as ideias do utente, nunca esquecendo que numa fase inicial, poderá ser considerado como um intruso num espaço que não é seu.
Outro aspecto deveras importante, é transmitir uma imagem de profissionalismo tanto ao idoso como à família, já que a ida do psicólogo ao domicílio não constitui uma visita social. E caso se verifique necessário, este deverá colocar regras e limites se percepcionar que a família pretende que o relacionamento ultrapasse o campo profissional.
Neste contexto em específico, onde poderá acontecer um nível elevado de intrusão como anteriormente foi referido, existe uma tendência natural para que o vínculo paciente/idoso seja mais conseguido, mas que também necessita de um maior controlo por parte do profissional. Obviamente, que não se deverá rejeitar um café ou um chá, já que isso poderia ser considerado como uma falta de respeito do ponto de vista cultural, mas deverá em todos os momentos, adequar uma postura técnica e profissional.
Ao contrário do contexto psicoterapêutico, em que o setting está claramente definido à priori, com vicissitudes e idiossincrasias muito particulares, ao nível do apoio domiciliário isso é imprevisível, já que está repleto de limitações, quer em termos de lugar, tempo, constância...
Contudo, será importante nunca perder o foco pretendido e definido inicialmente.
Outro exemplo desta imprevisibilidade, é o facto do psicólogo raramente saber em que local da casa se vai fazer o atendimento, já que vai depender da vontade do idoso.
Aqui, será a pessoa idosa ou os familiares que darão as directrizes de como o psicólogo se deverá "comportar" na sua casa, ... onde se senta..., se pode ou não utilizar a casa de banho..., entrar no quarto..., enfim, na perspetiva intimista da família.
Com o decorrer das visitas e do apoio psicológico em contexto de domicílio, vão-se criando alguns rituais por parte dos idosos, já que por vezes, a cadeira do psicólogo já está no sítio da última visita..., os pertences do técnico já tem local onde ficar..., entre outros.
Torna-se igualmente muito difícil para o psicólogo, controlar todas as variáveis que circundam o ambiente, já que poderão ocorrer inúmeras interferências como o telefone ou a campaínha a tocar..., a televisão poderá estar ligada no momento do atendimento..., poderão estar presentes no domicílio mais que uma pessoa...
Também, nem sempre o técnico pode seguir o que estava previsto inicialmente em termos do número de sessões a efectuar, bem como o horário e o tempo de cada sessão.
O estabelecimento de um vinculo e de uma relação afetiva, é um dos factores mais importantes no trabalho do psicólogo. Contudo, com o decorrer do apoio, essa relação pode transformar-se num processo de dependência por parte do idoso, daí o técnico ter que ter alguma perspicácia em percecionar este fenómeno e ter a capacidade para a anular.
O sigilo profissional é também relevante, não sendo raro ser quebrado, já que algumas sessões podem acontecer num determinado espaço do domicílio, em que poderá estar presente um familiar ou uma visita do paciente.
No que diz respeito à farmacologia, o psicólogo depara-se nas visitas domiciliárias com frequentes solicitações da pessoa idosa, no sentido de auxílio na compreensão da medicação. Então, independentemente das doenças orgânicas ou psíquicas, o técnico deverá possuir um conhecimento dos fármacos mais utilizados pelos idosos, e perante o surgimento de dúvidas, deverá ler em voz alta as indicações terapêuticas do fármaco, esclarecendo quais os efeitos secundários, e quais os intervalos diários que devem decorrer entre a toma do mesmo.
Relembro o Sr. A de 86 anos, que insistentemente revela extrema ansiedade e nervosismo após consulta com a médica de família, em que lhe é receitado nova medicação. De certa forma, este idoso não lida bem com situações que alterem o seu dia a dia e a sua rotina. Nesta medida, existindo um conhecimento profundo da farmacologia por parte do profissional, ajudará concerteza a clarificar e a evitar alterações de humor que poderão originar maior instabilidade emocional.
Como podemos perceber pelo que foi referido anteriormente, a psicologia não terá apenas como principal propósito o apoio emocional, mas também poderá auxiliá-lo nas actividades instrumentais da vida diária, bem como nas competências sociais.
Possíveis encaminhamentos para unidades de saúde, também serão aspectos a considerar pelo técnico caso seja necessário, já que ele terá uma relação privilegiada com o utente e poderá atuar de uma forma mais rápida e efectiva.
Um bem haja.
Rui Grilo














