INTEGRAÇÃO DO PSICÓLOGO EM CONTEXTO DE APOIO DOMICILIÁRIO - PARTE VNotas sobre a importância do cuidador e características do psicólogo neste contexto
Por Rui Grilo
Barreiro
Segundo Liliana Sousa et al., o conceito de cuidador refere-se a elementos da rede social do idoso (familiares, amigos, vizinhos, …) que lhes prestam cuidados regulares, mas que não são remunerados.

Por Jornal Rostos
De facto, perante a população idosa que temos actualmente, existe um maior número de cuidadores, que são familiares e que assumem este papel durante um longo período de tempo.
Geralmente, o papel de cuidador é assumido pelo próprio de uma forma inesperada, sem que tenha a liberdade de poder decidir sobre esse mesmo papel, apesar da notória e progressiva perda de autonomia do idoso.
No fundo, o familiar inicia a prestação de cuidados sem se dar conta, e sem tomar consciência do encargo e da dedicação que terá de ter, independentemente dos anos que a situação se mantenha.
Todavia, existem situações em que o cuidador poderá tomar consciência da possível prestação dos cuidados, caso ocorram no idoso situações e /ou incapacidades súbitas..., viuvez..., etc. Aqui, o familiar parece ter algumas motivações subjacentes no assumir este papel tão difícil, tais como o dever moral e/ ou social onde reside o sentimento que deve dar em troca para não se sentir culpado; solidariedade conjugal, filial ou familiar que assenta sobretudo no sentimento de gratidão para com o cuidado; questões relacionadas com o cristianismo; sentimentos de amor e piedade; recompensa material e evitamento de institucionalização.
De certa forma, a prestação de cuidados é frequente ser realizada pelo conjuje feminino, contudo, hoje verifica-se muitos cuidadores serem do sexo masculino. Na maioria dos casos, os filhos também participam activamente nesta prestação de cuidados, sendo mais usual serem do sexo feminino.
Geralmente, a duração dos cuidados por parte do cuidador tende a ser bastante longa, sendo que isso poderá gerar impactos negativos, mesmo apesar dos mesmos considerarem ser uma função muito gratificante e uma oportunidade de enriquecimento pessoal.
Alguns desses impactos poderão estar associados à sobrecarga... que no fundo... caracteriza-se por um conjunto de problemas físicos, psicológicos e sócio económicos que decorrem da tarefa do cuidar, nomeadamente ao nível das relações familiares e sociais; a carreira profissional; intimidade; liberdade e equilíbrio emocional.
Outro aspecto relevante é a saúde física e mental, onde necessáriamente esta tarefa pode ser física e psicologicamente esgotante. Muito frequentemente os cuidadores referem- se ao cansaço físico e sensação de deterioração gradual do estado de saúde.
A depressão e ansiedade são também dois problemas significativos para a maioria dos cuidadores, associados a sentimentos de tristeza, desespero, frustração e inquietação.
Aspectos como a actividade profissional e o tempo livre são igualmente afectados, já que o familiar acaba por ter muito menos tempo para dedicar às coisas que gosta de fazer... já no trabalho, poderá existir um desgaste e consequentemente uma diminuíção no rendimento laboral.
Torna-se então preponderante, percebermos em que medida a intervenção da psicologia poderá ter um impacto benéfico nos familiares.
Estes cuidadores apresentam necessidades de apoio emocional e aconselhamento, logo, será importante o profissional ser alguém com quem o cuidador poderá falar acerca das suas experiências, dificuldades e preocupações... no fundo, alguém que as compreenda.
Aqui o psicólogo também terá um papel de valorizar e apreciar o trabalho que é concretizado pelos familiares, no sentido de passar o sentimento que são úteis e que estão realmente a desempenhar e desenvolver bem a sua função.
O psicólogo também deverá avaliar a forma como o cuidador está a enfrentar a doença do idoso, e se de alguma forma, o mesmo tem valorizado os efeitos que o exercício de cuidar tem tido na sua vida. Cabe também ao psicólogo a tarefa de orientar este cuidador para possíveis reacções emocionais do paciente, tornando-os mais conscientes das suas possibilidades e limites.
Com os familiares, o psicólogo terá de promover boas relações, através do envolvimento, colaboração e capacitação. De certa forma, o profissional através do seu envolvimento terá como função o estabelecimento de laços afetivos; compreensão e o respeito mútuo.
Relativamente à colaboração, deverá instituir-se uma parceria vincada no reconhecomento de objectivos e estratégias comuns.
Finalmente, a capacitação envolve a partilha de poder e responsabilidade, baseado sempre num clima de confiança. (Sousa, L. et al, 2004).
(H) Características do psicólogo
O psicólogo deverá conhecer acima de tudo as características do envelhecimento normal: modificações biológicas, psicológicas e sociais.
Desta forma, será mais acessivel o profissional perceber quais as perturbações predominantes da 3ª idade e os efeitos da mesma sobre as perturbações do humor e ansiedade. É também extremamente importante, que entenda quais os problemas sociais e físicos subjacentes ao envelhecimento, como o luto, perda de papeis, dor, perturbações do sono, etc.
Deverá estar disponível para trabalhar em equipa, na medida em que, atuando de forma isolada sem contemplar aspetos como a componente social e familiar, não terá resultados terapêuticos significativos.
No contacto com os idosos, o psicólogo deverá ter a capacidade para transmitir informação, tendo para isso que adoptar uma postura empática e ser paciente. Essa informação deverá ser concretizada com frases curtas e com linguagem adaptada ao idoso, elevando se necessário, o tom de voz.
O técnico deverá aceitar e não desencorajar com objectivos terapêuticos nem muito limitados, nem muito abrangentes, tendo a capacidade de manter o optimismo terapêutico.
O psicólogo deverá igualmente estar disponível para explorar os seus próprios afetos acerca do envelhecimento, bem como, refletir com o idoso, as dúvidas que os mesmos têm em relação aos profissionais mais jovens e à validação do seu saber profissional.
Acima de tudo, o psicólogo deverá evitar implementar soluções na vida dos idosos, que não correspondam à sua história de vida e ao seu grupo etário.
Por fim, é relevante que o psicólogo consiga conviver com situações dolorosas, como o sofrimento intenso, bem como todos os aspectos que envolvem a morte.
Um bem haja.
Rui Grilo














