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Quotidianos

INTEGRAÇÃO DO PSICÓLOGO EM CONTEXTO DE APOIO DOMICILIÁRIO - PARTE VI(Notas sobre as patologias mais frequentes e abordagem terapêutica e psicológica)
Por Rui Grilo
Barreiro

(I) Patologias mais frequentes e abordagem terapêutica e psicológica

As patologias e as sintomatologias disruptivas que se verificam nas pessoas idosas, passam maioritariamente por situações com uma componente depressiva e ansiogénica demarcada, bem como, situações associadas a psicoses de inicio tardio e demências.

“A depressão major é a forma mais grave de perturbação do humor no idoso. Ocorre em cerca de 1% dos indivíduos com mais de 65 anos (…) e é a razão de quase 50% das admissões de pessoas idosas em hospitais psiquiátricos em geral e está presente em 30% dos idosos com doenças agudas e crónicas do foro médico.” (Spar, J; Rue, A; 1998).

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INTEGRAÇÃO DO PSICÓLOGO EM CONTEXTO DE APOIO DOMICILIÁRIO - PARTE VI (Notas sobre as patologias mais frequentes e abordagem terapêutica e psicológica) Por Rui Grilo Barreiro

Por Jornal Rostos

Normalmente, a depressão não é diagnosticada nem tratada, já que é considerada “normal” no idoso. Por vezes, esta depressão pode ser uma resposta pouco adequada às perdas sucessivas do envelhecimento, ou poderá ser o resultado da incapacidade do indivíduo em fazer os lutos do seu longo historial de vida. Muitas vezes, esta depressão está mascarada por sintomas físicos, e pode assumir a forma de comportamentos parasuicidários (não comer ou beber).

Outra das patologias predominantes na terceira idade, são as demências que “…caracterizam-se pelo desenvolvimento de défices cognitivos múltiplos (incluindo diminuição de memória) …”, (D.S.M. IV, 1994.), sendo a mais frequente, a doença de Alzheimer. Esta demência é irreversível, não existido regressão dos sintomas, e geralmente a evolução dá-se continuamente ao longo do tempo.

Existe uma deterioração progressiva principalmente da parte intelectual e cognitiva. A idade de instalação é normalmente acima dos 40 anos, mais frequentemente acima dos 50 anos.

Muito resumidamente, podemos falar de 4 fases. Na primeira, esquecimento, onde ocorrem defeitos de memória, ansiedade e depressão. Os doentes sentem as suas falhas e esquecem informação do dia a dia.

Na segunda fase, denominada de confusão, existe um agravamento do defeito da memória e desorientação espacial e temporal.

Na terceira fase, a demência, os doentes já têm um comportamento invulgar, perdendo-se frequentemente, não reconhecendo familiares ou amigos. A depressão vai desaparecendo, e o doente vai negando as dificuldades, perdendo autonomia, discurso repetitivo, pobre, e por vezes têm alucinações.

Por último, temos a fase de estado vegetativo, em que o doente fica confinado à cama, apático e entubado. Finalmente dá-se infecção respiratória e morte.

No que diz respeito à abordagem psicoterapêutica a utilizar, fará mais sentido a integrativa tendo em conta o funcionamento global e as várias vertentes relacionadas com o sujeito. Através desta perspetiva, pretende-se autonomizar o idoso, reforçar a auto estima e valorização pessoal, tendo como base a complementaridade de várias vertentes psicoterapêuticas.
Contudo, defendo igualmente a utilização da abordagem psicodinâmica, apelando à escuta ativa do indivíduo. É importante escutarmos e estarmos disponíveis para ouvir a história de vida do idoso, aos aspectos mais ligados ao inconsciente e a situações traumáticas não ultrapassadas anteriormente.

Então se “ na memória reconstruímos o equilíbrio e a identidade, não se tratará de explicar, mas permitir a todos os intervenientes, idosos e não só, compreender o que se passa.” (Jerónimo, L; 1997).

Desta forma, o apelar às recordações pode ser extremamente terapêutico, tendo aqui a reminiscência um papel poderoso nesse sentido.

Obviamente, que estamos a falar de uma geraçãocom uma série de ideias preconcebidas no que diz respeito à psicologia, sendo ainda vista como uma ciência muito direccionada para os “loucos”. O psicólogo depara-se por vezes com enormes resistências do idoso na adesão ao tratamento, porque segundo eles, se até então “nunca tiveram este tipo de apoio e sobreviveram, também não será agora que vão necessitar”.

Outra situação que o profissional muitas vezes se depara, é com o facto de ser considerado muito jovem pelo idoso, não lhe atribuindo a credibilidade que realmente merece, podendo afirmar que o mesmo não tem a experiência de vida necessária para o ajudar.
Então, cabe ao psicólogo demonstrar todo o seu profissionalismo, e esclarecer ao idoso, que independentemente da idade, está
preparado técnica e relacionalmente para lidar e intervir com a população idosa e com este tipo de situações.

No que diz respeito ao número de sessões, julgo ser indicadas sessões semanais numa fase inicial. Após uma avaliação e observando-se algumas melhorias na pessoa idosa, penso que se poderão alargar as sessões para uma situação quinzenal.

Seguindo a abordagem psicodinâmica, e ao contrário da abordagem cognitiva – comportamental onde existe um número mínimo de sessões para a resolução dos problemas, na perspetiva dinâmica nao podemos especificar quantas sessões decorrerão ao longo do acompanhamento.
Estamos a falar de uma população idosa com histórias de vida bastante longas, e que as resistências à mudança não se devem apenas a factores de personalidade, mas acima de tudo, a factores respeitantes à idade, e em que uma série de faculdades intelectuais foram sendo diminuídas.

Relativamente ao tempo, cada sessão poderá demorar entre 60m a 90m, consoante o decorrer da mesma. Importante será nunca quebrar o raciocínio do idoso com base no factor tempo, à semelhança do que eventualmente poderá ocorrer no contexto psicoterapêutico tradicional.

Existe uma enorme probabilidade de ocorrer o fenómeno de transferência ou contratransferência. Será extremamente importante estar atento a estas questões, sendo muito frequente o psicólogo ser encarado ou tratado como marido/ mulher; filho/ filha, neto/ neta do idoso, bem como, o psicólogo encarar o idoso como pai/ mãe; avó/ avô, podendo originar uma reactivação dos problemas relacionais.

Como último fator que acho relevante mencionar, diz respeito à frustração que o terapeuta poderá vir a sentir no decorrer das sessões, já que estamos a falar de um processo moroso, rodeado de extrema angustia e dor, em que as melhorias no individuo poderão ser escassas ou menos visíveis, principalmente pelos outros técnicos integrados na equação.

Um bem haja
Rui Grilo

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