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Quotidianos

Psicologia – Notas ReflexivasNO FIO DA NAVALHA
(Notas sobre a perturbação da personalidade borderline)
Por Rui Grilo
Barreiro

Em tempos, deparei-me com um quadro de cerâmica em tons de vermelho claro, sendo que transversalmente e ao longo da peça, apenas se encontravam linhas escurecidas.

Esta pessoa denominou o seu quadro como - Fio da Navalha - e mostrou-mo... com a condição de me explicar o sentido interpretativo da sua criação.

3 min de leitura
Psicologia – Notas Reflexivas NO FIO DA NAVALHA (Notas sobre a perturbação da personalidade borderline) Por Rui Grilo Barreiro

Por Jornal Rostos

Era uma pessoa que evidenciava uma estrutura de personalidade marcada por uma grande instabilidade no âmbito das relações interpessoais, dos afetos e da auto imagem, revelando ainda uma grande impulsividade.

As flutuações de humor eram recorrentes, como também uma sensação de vazio e medo intenso de abandono emocional.

Tantas vezes mostrou uma raiva intensa...e tantas vezes, essa raiva evidenciava uma luta interior constante...em que o foco da sua ira era ele próprio...

Quando me descreve a sua criação, reforça a ideia de estar em constante desiquilibrio mental... como se estivesse sempre inseguro e com receio de cair no abismo...

Em termos cognitivos, sempre se percebeu um esforco imenso em evitar questões relativas ao abandono, quer fossem reais ou imaginárias. Por outro lado, eram também notórios comportamentos suicidas e ideação paranóide...

Já do ponto de vista emocional, estava expresso na sua obra um sentimento e uma emocionalidade crónica de vazio... o sentimento de solidão e abandono...
Toda esta emocionalidade patologizante, potenciou um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos...

Neste contexto, verificava-se a sua incapacidade relacional com o outro, alternando entre extremos de idealização e desvalorização... ou seja, concebia uma relação perfeita, mas que rapidamente a desvalorizava e afastava com medo do abandono...

Esta pessoa de que falo, teve uma vinculação parental ausente com pais violentos, e que nunca o validaram como filho... Também ficou demarcada a ausência de regras e limites... como se tivesse sido abandonado...apesar de nao estar sozinho...

No Fio da Navalha... descrevia-me ele com angústia e sofrimento... como se a inevitabilidade de cair no escuro fosse um dado adquirido...

O vermelho claro e as linhas escuras da sua obra, funcionam aqui como o claro e o escuro... ou seja, a forma como ele sentia as pessoas era duma forma ambivalente...em que tão depressa tudo era fantástico e maravilhoso, como tudo passaria a ser a pior coisa de sempre... e nas relações que foi estabelecendo, teve dificuldade em aceitar críticas levando-o a constantes perdas relacionais, que promoveram o sentimento de abandono...

No Fio da Navalha... "Alguém que se encontra numa situação dificíl, sem controlo, estar por um fio, onde o pior pode acontecer".

Um bem haja.
Rui Grilo

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