Psicologia – Notas ReflexivasPSICOTERAPIA BREVE PSICODINÂMICA NA PESSOA IDOSA - PARTE II
(Notas sobre o Modelo relacional com enfoque nas relações interpessoais)
Por Rui Grilo
Barreiro
Quando se fala em critérios de indicação pretende-se salientar as condições necessárias para que ocorram resultados positivos nos pacientes que se submetem a qualquer tipo de psicoterapia, incluindo a psicoterapia breve psicodinâmica (Yoshida, 2001).
Essas condições dizem respeito necessariamente ao paciente, ao psicoterapeuta e à relação que se estabelece entre ambos.

Por Jornal Rostos
Apesar de existirem diversos modelos teóricos associados à abordagem breve psicodinâmica, irei focar-me essencialmente no modelo relacional, fundado nos princípios da Escola Das Relações Objectais, segundo Messer e Warren (1995), e com base nos trabalhos de Melanie Klein, Fairbairn e Winnicott.
Segundo Oliveira (1999), este modelo caracteriza-se por dar ênfase às relações objectais como centrais, atribuindo mais importância à experiência, à relação interpessoal e ao aqui e agora, o que resulta numa intervenção com inúmeros focos.
Nesta perspectiva, dá-se prioridade à relação terapêutica e aos padrões de relacionamento interpessoal que o paciente estabelece, tendo o terapeuta uma postura de observador participante.
Obviamente que qualquer abordagem terá as suas limitações e as suas vantagens, pelo que algumas críticas são direccionadas para o facto de existir uma menor preocupação com a técnica relativamente a outras abordagens.
Neste sentido, Yoshida (2001) tem uma visão um pouco contrária, referindo que do ponto de vista técnico, deverão ser utilizadas estratégias flexíveis, adaptadas a cada caso e às necessidades do paciente. Essas técnicas poderão variar desde uma componente de suporte, até uma componente mais expressiva.
Aqui, acrescentaria igualmente a componente reflexiva, na medida em que facilitará o processo de consciencialização do problema e das relações estabelecidas anteriormente que, por qualquer motivo, se verificaram patologizantes.
Yoshida (2001) refere então que todo o rol de intervenções disponíveis pelo psicoterapeuta poderá ser utilizado, desde a chamada afirmação, que envolve comentários sucintos e de apoio ao que está a ser dito (e.g., huh, huh; entendo, compreendo…), até à interpretação, que “…supõe o estabelecimento de relação entre um sentimento, um pensamento, comportamento ou sintoma a seu significado inconsciente…” (p.46).
Schimitt (2005) refere que o uso da interpretação em psicoterapia de orientação psicanalítica poderá ser extremamente importante. Assim, “…o adequado manejo da transferência, exige do terapeuta uma capacidade para se deixar invadir pelas projecções dos pacientes (…) não apenas ser continente, mas despi-los de seus elementos patogénicos (…) e devolver, no tempo adequado, (…) interpretações apropriadas” (p.212).
Desta forma, “…a interpretação pode promover mudança (…), e se os conteúdos trazidos pelo paciente são sentidos pelo terapeuta como perigos, é principalmente nas interpretações que a sua ansiedade se irá revelar” (p.212).
Mabilde (2001, citado por Schimitt, 2005, p.212), refere que “a transferência em psicoterapia psicanalítica tem objectivos diferentes dos da psicanálise”.
Para o autor, “…a psicanálise visa à elaboração do conflito infantil, primitivo, mediante o estabelecimento da neurose de transferência pela via da interpretação transferencial sistemática.
A psicoterapia psicanalítica não busca mudar a estrutura caracterológica do paciente, mas tratar o conflito actual…”, o que nos remete para o aqui e agora descrito anteriormente.
De uma maneira geral, esta abordagem está bastante direccionada para a técnica da comunicação face a face em que, no diálogo, as questões do psicoterapeuta têm o objectivo principal de levar o paciente a questionar as suas emoções e expectativas, associando-as às experiências de vida.
Em certa medida, a pessoa deverá conseguir perceber o grau de consciência que tem do seu problema através dos seus recursos adaptativos, e o empenho ou motivação que demonstra em superá-lo.
Perante este facto, Yoshida (2001, p.47) refere o conceito de “estágios de mudança desenvolvidos empiricamente por pesquisadores transteóricos” (Prochaska, 1995; McConnaughy et al., 1989), e destaca a importância da mudança.
O processo que implica essa mudança parte do estágio de pré-contemplação (onde não aparece intenção em mudar) para a contemplação (em que já há existe consciência do problema e uma tentativa para superá-lo), de preparação (em que ocorrem algumas iniciativas de mudança mas que não são constantes), de acção (em que a atitude em enfrentar o problema é evidente), de manutenção (onde as atitudes permanecem por um período), até ao estágio de término (em que o problema foi completamente superado e onde não existem evidências que se torne a repetir).
De maneira geral, estes estágios poderão sofrer alterações em termos de sequência, uma vez que poderão ocorrer recaídas em termos das condutas. Todavia, servirão para o psicoterapeuta poder estruturar a sua intervenção.
Na abordagem breve psicodinâmica, “…a unidade básica de estudo não é o indivíduo como uma entidade separada, cujos desejos se chocam com a realidade externa, mas um campo interaccional dentro do qual o indivíduo surge e luta para fazer o contacto e para se articular” (Oliveira, 1999, p.13).
O grau de importância que é atribuído ao relacionamento interpessoal (nomeadamente entre terapeuta e paciente) é o fundamento teórico básico desta abordagem.
Um bem haja.
Rui Grilo














