Psicologia – Notas ReflexivasPSICOTERAPIA BREVE PSICODINÂMICA NA PESSOA IDOSA - PARTE VI
(Notas sobre as temáticas frequentes em terapia)
Por Rui Grilo
Barreiro
Além das relações que o idoso estabeleceu ou estabelece, a temática da reforma poderá ser recorrente em psicoterapia. No fundo, a reforma “…marca a desocupação de papéis sociais activos e apresenta-se como a abertura da porta de acesso à velhice, sobretudo porque o estatuto de reformado é associado à perda de importância social e de poder” (Sousa, et al., 2004, p.31X).

Por Jornal Rostos
Neste sentido, a psicoterapia poderá ter um papel extraordinariamente importante, já que poderá ajudar o idoso a descentrar-se da profissão e a reorganizar o quotidiano, bem como a encontrar um papel que garanta a manutenção do sentido de utilidade.
Outra temática muito frequente é a da doença. Os idosos sofrem de múltiplas doenças e incapacidades, e o estar doente na velhice implica, normalmente, uma associação com a morte.
Por vezes, perante doenças simples, os idosos vivem lutos antecipatórios, antevendo a incapacidade ou a morte.
Em psicoterapia, poderá trabalhar-se com o idoso estas crenças mal geridas em termos da realidade, na medida em que muitas das sintomatologias apresentadas pelos idosos têm uma origem psicossomática.
A dependência e a autonomia são igualmente aspectos explorados na terapia. No fundo, o idoso é dependente porque necessita da ajuda de outros para alcançar um nível aceitável de satisfação das suas necessidades. Por outro lado, deixa de ter a sua autonomia, na medida em que deixa de ter um papel tão importante na escolha das suas decisões e atitudes (Sousa, et al., 2004).
Compete ao psicoterapeuta, juntamente com o idoso, explorar as suas capacidades funcionais, cognitivas e emocionais, regulando as expectativas que ele tem sobre si próprio e sobre os outros.
A solidão no idoso é muito comum e está associada, em grande, parte ao isolamento social e à perda de papéis sociais. Deixa de existir um contacto social permanente, e muitas pessoas deixam de estar disponíveis para partilhar experiências sociais e emocionais com o idoso.
Nesse sentido, o psicoterapeuta deverá intervir de modo a ser contentor das angustias e conflitos internos evidenciados pelo idoso. A escuta activa, a disponibilidade e a empatia potenciada pelo psicoterapeuta, serão essenciais para promover a mudança e a estabilidade emocional/ relacional.
A solidão está também muito associada à viuvez, que é grande parte responsável por este sentimento.
A morte do cônjuge é talvez o acontecimento mais significativo na velhice. Perante um luto mal ultrapassado, poderão ocorrer ideações suicidas e desorientação emocional, bem como ansiedade extrema e depressão. Aqui, a psicoterapia poderá ser bastante útil, uma vez que poderá ajudar o idoso no reinvestimento na sua vida e no trabalho ao nível do luto pela perda.
A aproximação da morte e os pensamentos recorrentes sobre este assunto ocupam mais tempo ao idoso do que outra temática qualquer.
Muitas vezes, o idoso vê-se numa situação de ambivalência, na medida em que deseja ter uma “ morte boa”. No fundo, o idoso deseja partir com o desejo de dever cumprido, principalmente no que diz respeito aos filhos.
Por outro lado, o idoso poderá reflectir e chegar ao consenso de que irá ter uma morte caracterizada pelo sofrimento, uma vez que se sente um fardo para os seus filhos, e que devido às variadas doenças que tem, não tem qualquer qualidade de vida.
Ao nível do processo terapêutico, aprofundar estas questões será benéfico para o idoso, uma vez que poderá questionar o que alcançou e o que ainda poderá alcançar.
Finalmente, a alteração da imagem corporal pode ser percepcionada pelo idoso como algo de muito angustiante e penoso. Quem não conseguiu aceitar ao longo do seu percurso de vida, as alterações que foram acontecendo ao nível do corpo, chega a esta fase com um sentimento de perda e de vergonha.
A consciencialização da sua imagem corporal, o aceitar da idade e das limitações impostas por ela, são os grandes objectivos da psicoterapia breve psicodinâmica ao nível desta temática.
Um bem haja.
Rui Grilo














