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Quotidianos

Chipera foram ruins aqueles tempos…Por Armando de Sousa Teixeira
Barreiro

Chipera era uma “aldeia estratégica” rodeada de arame farpado e minas, onde a população indígena fora acantonada, trazida há alguns anos pela força da antiga povoação de Chipera Velha, a cerca de vinte quilómetros, e onde os recalcitrantes tinham sido massacrados (assunto tabu de que ninguém falava).

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Chipera foram ruins aqueles tempos… Por Armando de Sousa Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

No aldeamento só se viam velhos, mulheres e crianças, os homens em idade de combater ou tinham fugido para o mato, para se integrarem na Frelimo, ou tinham sido enviados para a Beira-Boane, para o treino de formação dos Grupos Especiais (GE´s).
O aspecto miserável das cubatas, onde assomavam idosos com um esgar sem dentes, olhando mortiços os soldados vindos sabiam lá de onde, de terras distantes por certo, donde secularmente chegaram a escravatura, a exploração e os maus-tratos.
Amenizava o ambiente o sorriso das mulheres jovens, com capulanas garridas que a prostituição permitia adquirir, numa percursora economia circular em que tudo andava à volta da guerra. Chocava mais os miúdos andrajosos que comiam tristemente os restos da sopa do rancho, diluída para chegar para todos, e os pedaços de pão que o António Manuel e outros, repescavam na messe e entregavam através do arame da cerca.
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Tempos difíceis os primeiros dias em Chipera, com um calor sufocante que prostrava o furriel amanuense dos serviços auxiliares do exército, com uma cardiopatia congénita:
- Tem a pressão arterial um pouco alta! O período de adaptação ao clima de África é para alguns mais complicado! – dissera o médico civil, já de idade madura, que vinha de Tete num táxi aéreo, uma vez por semana, dar consultas no aquartelamento-aldeia e tinha uma fila enorme de gente à espera à porta. Uns comprimidos “LM” para a dor de cabeça e toca a andar!...
Sem apetite para comer, com uma sede terrível que a água choca não dissipava (não havia bebidas frescas, o gerador só funcionava seis horas por dia para poupar combustível, a guerra era “pobrezinha”), com uma saudade angustiante da família e da companheira carinhosa, foram ruins os primeiros tempos.
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No lento escoar dos dias acentuava-se a náusea que se instalara desde a chegada àquele sítio inóspito em que a miséria substantiva sobrepujava o medo latente:
- Very light! Very light! Vai haver um ataque! – o último fora em Agosto p.p. e fora precedido de um foguete luminoso.
A soldadagem corria com a G3 para os abrigos predestinados. João ficava à esquina da “flat” dos furriéis, à espera dos hipotéticos rebentamentos até que a situação acalmasse. Efetivamente não sabia qual era o “seu abrigo”, faltara ao 1ºexercício, prostrado num beliche de um camarada desconhecido da Companhia Independente, que andava em operação. Tinha uma milagrosa pequena ventoinha que funcionando durante as duas horas do almoço (a que não comparecera) salvara do desmaio o furriel alto e magro que faltara também à primeira tarde de trabalho na Secretaria do Comando:
- Diz ao tenente que estou com tonturas, não consigo levantar a cabeça – fora o recado pelo solícito António Manuel.
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As “démarches” da PIDE, que mandou pelos meios próprios uma mensagem para o Quartel-General em Nampula, a solicitar a detenção de sicrano (tinham contacto direto com a sede em Lisboa, via rádio) não tiveram seguimento imediato. João estava muito debilitado nessa altura, teria sido dramática uma detenção inopinada.
Felizmente o Chefe do Estado Maior da RMM, brigadeiro Jaime Silvério Marques, terá respondido que, “a bem da moral das nossas tropas tais detenções são contraproducentes e legalmente só o senhor Sub-Secretário de Estado do Exército tem poderes legais para decretar a detenção”. O mandado voltou para trás, mas retornaria na volta do correio!
O regime fascista e colonialista empertigava-se, fundado na repressão policial, no aparelho militarista, na supressão das liberdades, no apoio do imperialismo estrangeiro. Mas a sua base social interna ia diminuindo, corroído pelas insanáveis contradições do sistema capitalista, afrontado pela luta antifascista do povo português e pela revolta dos povos que batalhavam pela autodeterminação e independência
*
Pouco a pouco, como dizia o médico que contara o seu caso pessoal, “quando chegara à província há trinta anos”, o organismo foi-se adaptando àquele clima tórrido de mais de 40 graus ao meio-dia. O corpo molhado do duche rápido, secava em 2/3 minutos e o suor cheirava a óleo frito.
Como é que aquela malta conseguia aguentar as operações durante vários dias, equipada com camuflado e mochilas pesadíssimas com as rações de combate, mais a espingarda e as munições?
- Questão de treino e espírito de sacrifício! – elucidava o Lourenço que tirara a especialidade de sapador, mostrando algum gabarito.
Esperando que tais sacrifícios não fossem na alienada “defesa da pátria”, sentia respeito por aquela soldadagem, mal alimentada, com um rancho medíocre, discriminada num salário de pobreza, aperrada com as exigências “tropeiras” de alguns “chicos” que tinham nascido para “chatear o Camões!”.
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Sobre estas questões se debruçava o pequeno grupo, alargar seria perigoso, nas noites em que não havia serviços. Liam-se e discutiam-se documentos que tinham viajado muitos quilómetros para consubstanciarem o esclarecimento e o entendimento que a situação exigia.
O “IRFA”, o “Alerta Camarada!”, o “Avante!”, informavam, elucidavam, apontavam os caminhos. Cada vez mais militares milicianos assumiam a consciência de que a guerra fratricida e injusta, para o povo português e para os povos que almejavam a sua independência do jugo colonial, não tinha solução militar.
Sabia-se que também nos sectores militares profissionais, o cansaço do prolongamento indefinido dos conflitos, criava um crescente mau estar. O oficialato jovem tinha uma postura mais aberta, não por acaso, um tenente da Companhia trazia, ele próprio, a viola para cantar com a malta cantigas da resistência.
Até que numa manhã, que não era de nevoeiro, uma pequena avioneta “Dornier” deu duas voltas no ar e se fez à pista. A 5ª feira, 20 de Novembro de 1972, não era dia de correio!?...
A Polícia Militar foi prender o furriel “João Trigueiro”, para o entregar de seguida à PIDE/DGS. Deram-lhe um pequeno papel com um carimbo a óleo, sem justificações!
A guerra continuava, a prisão ia ser dura. Mas um horizonte de esperança se abria, fundado nas convicções e na luta daqueles para quem a Humanidade só tem futuro em paz e em dignidade equânime.

[in “DA GUERRA NUNCA SE VOLTA” – “Os Cruzados Caminhos da Guerra Colonial”, em construção]

Assinalando os 50 anos da partida em 7/10/1972, do Batalhão 4810, para a guerra em Moçambique, este pequeno trecho do livro em construção - DA GUERRA NUNCA SE VOLTA - "Os Caminhos Cruzados da Guerra Colonial". Uma homenagem a todos os que estiveram na guerra, sem dela gostarem.
A todos, brancos e negros que nela pereceram. Simbolicamente ao António Manuel Marquês e aos que entretanto nos deixaram.

Armando de Sousa Teixeira
(ex-cadete, ex-furriel, e ex-soldado, dos Batalhões 4810 e 5013, na RM Moçambique)
25 de Abril sempre!

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