Custo de vida, situação social, e peregrinações pascais socialistas ao Barreiro.Por Luis Tavares Bravo

Por Jornal Rostos
Barreiro com ordenados mais baixos em que a média de Portugal, mas com subidas mais acentuadas
Numa primeira inferência, que os portugueses atravessam hoje profundas dificuldades nas suas vidas causadas pela subida acentuada do custo de vida de todos os preços de forma generalizada, do aumento das taxas de juro e das rendas das casas e da manutenção dos impostos em níveis elevados. Juntos estes fatores constituem um garrote que tem vindo a reduzir de forma dramática a capacidade de os Portugueses gerirem o dinheiro e responsabilidades que têm para pagar todos os meses.
Para exemplificar e ilustrar a amplitude destes aumentos, um cabaz médio de supermercado, constituído apenas por bens essenciais, subiu 16,5% no espaço de um ano, e quase 5% desde janeiro de acordo com números da DECO. Isto pode significar um aumento de quase 50 euros por mês para uma família portuguesa que em 2022 gastasse cerca de 300 euros mensais em bens alimentares. Um segundo exemplo, e também de acordo com a análise recente, divulgada pelo site doutorfinancas.pt, as prestações dos créditos à habitação poderão subir cerca de mais 24%. No espaço de um ano, as prestações do crédito à habitação terão subido, em média, cerca de 64% - por exemplo, para um empréstimo de 100 mil euros, a 30 anos o aumento da prestação pode chegar aos 220 euros mensais. No mercado de arrendamento a situação não é melhor – de acordo com o INE e num trabalho divulgado esta semana no Diário de Notícias – as rendas médias mensais em Portugal subiram 240 euros, para os 733 euros por um pequeno apartamento familiar. Neste estudo o Barreiro é o segundo concelho onde mais subiram as rendas médias em Portugal nos últimos 5 anos, subindo 73% e para um valor de 881 euros mensais em média, um valor que equivale quase a um ordenado médio líquido para os Barreirenses.
Tudo isto acontece ao mesmo tempo que as famílias portuguesas perdem poder de compra real, porque o salário médio aumentou (3,6% para 1411 euros brutos), mas considerando a inflação, na verdade cada português perdeu em média cerca de 4% em 2022. Ou seja, os aumentos do custo de vida são significativos, e o primeiro semestre de 2023 vais ser um embate muito duro para muitas famílias, e pode ser especialmente duro no Barreiro, onde os rendimentos médios das famílias são mais baixos que a média nacional.
Aumento do descontentamento, desigualdade social está a aumentar e no Barreiro não vai ser diferente
Uma segunda reflexão tem a ver com o agravamento da situação social do país, fruto do aumento das condições relacionadas com o custo de vida e dos problemas da inflação, mas que também tem a ver com a degradação da situação social das famílias, aumento da desigualdade e falhanço do que é a perceção de segurança dos serviços públicos básicos.
Em Portugal os números são elucidativos. De acordo com a Fundação Manuel dos Santos, sem transferências sociais, como o rendimento social de inserção, o subsídio de desemprego ou as pensões, 4,5 milhões de portugueses, ou seja, quase metade da população, viveria abaixo do limiar de pobreza, isto é, com menos de 554 euros por mês. Acresce que de acordo com este estudo, 40% dos portugueses vivem com menos de 830 euros mensais. Por outro lado, existem cada vez mais falhas na entrega de apoios e serviços públicos. Só na Saúde, mais 1,6 milhões de pessoas estão sem médico de família, o valor mais elevado em 8 anos, sendo que 1,1 milhões destes utentes estão na Área Lisboa e Vale do Tejo.
O descontentamento está a aumentar nos últimos meses, e as tensões sociais não deverão diminuir nos próximos tempos. Existem graves falhas na educação, nos serviços de saúde, nos serviços de transportes públicos, na justiça e nos serviços administrativos que cada vez mais tornam lenta a vida às populações.
Este agravamento do descontentamento pode representar uma perigosa bomba silenciosa, que pode criar sérios danos sociais nas famílias, e abrir feridas sérias na sociedade portuguesa, na medida em que se prolongar ou agravar a atual conjuntura económica, mas também na medida em que as respostas públicas se forem tornando limitadas, e forem também limitando as ambições e sonhos dos portugueses, adiando a sua progressão económica e social.
O Barreiro não será imune a este efeito causado pelo sentimento de uma espécie de falência do pacto social dos Portugueses com o Estado, bem pelo contrário. O Barreiro convive com um cenário de delapidação lenta e progressiva que vai quase à década de oitenta do século 20, definhando e abraçado ao conceito do eterno potencial, que nunca se concretizou e que assim permanece também desde o princípio do século 21. Existe um limite para o desapontamento, e no Barreiro ele existe e pode estar mais perto do que se imagina.
Foi também com esse propósito que o PSD propôs no final de 2022, através dos eleitos do grupo municipal, a construção de um pacote de suporte dirigido a ajudar as famílias a suportar a inflação, e que pudesse ajudar a acomodar a subida dos preços, mas que seria também um sinal positivo no sentido de antecipar e reduzir a erosão social que se faz sentir agora, de forma mais acentuada. O Partido Socialista recusou a proposta, que teria caracter temporário para os meses mais difíceis do ano (os primeiros 3 a 6 meses), e um encargo simbólico de 400 mil euros, num orçamento que atinge atualmente dezenas de milhões de euros.
A falência moral do poder socialista com complacência do executivo municipal do Barreiro
A minha última inferência está ligada à incontornável perca de credibilidade que o Partido Socialista trouxe à democracia portuguesa, e que apenas beneficiam as ideologias vazias, que se alimentam da rebelião dos eleitores que se encontram defraudados das promessas e ilusões que lhes foram vendidas. Afinal, existe austeridade, afinal não existe milagre económico, afinal não se resolvem problemas estruturais por decreto. Afinal os portugueses estão hoje, bem pior do que estavam antes da gerigonça socialista. O pináculo desta falência moral é a TAP, uma empresa que por razões de ideologia infantil foi arrancada das mãos dos investidores privados, usada para alimentar a agenda política do governo e dos seus gestores com custos reputacionais enormes para a companhia e para os seus trabalhadores, para agora ser novamente vendida a privados, num volte face político que não se compreende.
No Barreiro, somos de novo vítimas desta engenharia política socialista que vende promessas populistas sem qualquer pudor. E aconteceu novamente nas últimas semanas, com a visita dos pesos pesados do Governo - Primeiro Ministro incluído – no Barreiro. Novas pontes, Metro Sul do Tejo, mais barcos, numa visão do Barreiro como epicentro do arco ribeirinho sul, e onde Setúbal e a nossa cidade são considerados incontornáveis para o futuro.
Não pode nenhum Barreirense atento deixar de ficar perplexo com esta visão, e de pensar então nas razões pelas quais os munícipes são confrontados com notícias que dão conta do encerramento de alguns serviços hospitalares, ou porque continuamos com falhas recorrentes nos serviços da Soflusa por falta de navios, ou porque persistem os significativos números de criminalidade, ou porque é que tardam respostas públicas especialmente dirigidas a fixar população jovem numa cidade que perde jovens todos os ano.
Esta peregrinação ao Barreiro é um dejá vu socialista antigo, e muito provavelmente justificada por mais uma estratégia de comunicação, para atirar poeira para os olhos dos eleitores do distrito e dos Barreirenses. O Partido Socialista corre pelo país para salvar a face dos escândalos diários de um governo que já perdeu a confiança dos portugueses, e os autarcas do Barreiro vão atrás da euforia de papel, sem colocarem a mais importante pergunta ao primeiro-ministro, e que é: “Quando é que vai acontecer?”. É certo que todas estas promessas são desejáveis e absolutamente necessárias para mudar o paradigma do concelho, mas o Barreiro não pode esperar mais 20 ou 30 anos para que as mesmas se materializem. E o executivo tem obrigação, não só de aplaudir, mas de exigir de forma firme essa urgência. Independentemente da cor política do governo.
A todos os leitores e amigos, deixo votos de uma Páscoa Feliz. Bem hajam.
Luís Tavares Bravo
Presidente Comissão Política do PSD no Barreiro














