Combater a pobrezaPor António Neves
Barreiro
Para não lhe mentir, não lhe dizia palavra, limitando-me a acenar um não com a cabeça, seguindo o meu caminho.

Por Jornal Rostos
Às vezes, uns metros adiante, voltava-me, e reparava que já alguém abria o porta moedas para lhe colocar na mão estendida a moeda que eu não tinha dado.
Quem assim procedia era bem olhado, ao contrário da minha atitude, que nem matava a fome da senhora, nem contribuia para acabar com os pobres.
Repetiu-se esta cena por vários dias, e cada vez o meu incómodo interior me sacudia mais fortemente. Era claro para mim que pouca diferença me fazia se todos os dias desse uns cêntimos à senhora, para não destoar da maioria das pessoas. Mas também era claro para mim que a senhora ali continuaria todos os dias, de mão estendida, a pedir o peixe que ninguém, até então, lhe ensinara a pescar. Naquele dia, ia acompanhado com a esposa para o nosso passeio matinal, e lá estava a senhora que, ao aproximarmo-nos, logo estendeu a mão, mas agora na direção da minha esposa. Não levando carteira, olhou para mim meio embaraçada, esperando que eu fosse o seu salvador.
Talvez porque já há muito eu sentia necessidade de explicar à senhora o porquê de lhe não dar esmola, naquele instante a pergunta ocorreu-me espontaneamente: por que anda a senhora a pedir, com aspecto de quem pode ganhar a vida a exercer qualquer trabalho
digno? Notando o embaraço da senhora, e sabendo que não me iria dizer as verdadeiras razões da
sua condição, encontrei coragem ou ternura para o passo imediato: "Olhe, senhora…como se chama?" "Esmeralda", respondeu. "Esmeralda, há muitos dias que eu passo por si, neste local, e nunca lhe dei uma única moeda… Talvez por isso, hoje estendeu a mão à minha esposa… Nada me custaria fazer como a maioria das outras pessoas, dando-lhe uma moeda e seguindo em frente. Mas amanhã, e nos dias seguintes, a senhora vai continuar aqui, de mão estendida, vai dando alegria às pessoas que lhe dão uma moeda e se sentem a fazer uma boa ação, mas a senhora continuará a ser a pedinte da avenida…"
Quando me parecia que a Esmeralda me iria virar as costas ou dizer-me que tinha mais que fazer do que ouvir sermões, lançou-me energicamente esta pergunta: "Os senhores arranjam-me um trabalho qualquer?"
Voltei-me para a esposa, que me parecia não estar a aprovar a minha conversa com a pobre pedinte: “Podemos convidar a Esmeralda a ir passar a ferro a nossa roupa, para começar?"
"Aceita, Esmeralda, ir amanhã fazer duas horas,para começar, perguntou a minha esposa?"
"Então não havia de aceitar?
Onde é que os senhores moram? E a que horas me querem?"
Cumpriu, a Esmeralda, o combinado. E enquanto passava a ferro e foi passando a outras tarefas, criou-se uma relação muito bonita para as duas partes.
Em determinada altura, alguém nos perguntou se conhecíamos uma pessoa de confiança e competente para cuidar de uma idosa. Passados alguns anos, a Esmeralda mantém-se nessa tarefa, bem remunerada, e com uma família que muito nos orgulhamos de ver
crescer…
Afinal valeu a pena ensinar a Esmeralda a pescar
António Neves














